É esta a “ciência” que temos?…

Não admira que os coitados dos médicos e nutricionistas andem tão enganados. A campanha está muito bem montada e é praticamente impossível escapar à mensagem, sob risco de se ser fuzilado política e economicamente.

Fui ver a BioMedCentral – um sítio de ciência “Open Access”, que é um tema que me interessa muito – e logo me deparei com um artigo “da treta” mesmo à cabeça: “Low carbohydrate-high fat diets increase cholesterol“. Não é da treta por estar onde está, é da treta por ser mais uma das tentativas idiotas de manter o status quo e defender um ponto de vista cada vez mais nocivo para a saúde pública.

O artigo tenta mais uma vez levantar o velho papão do colesterol, dizendo que uma análise à população Sueca entre 1985 e 2010, supostamente uma das populações mais avançadas na adoção da dieta Low Carb High Fat, revela que esta dieta aumenta o colesterol do sangue e portanto o risco de doença cardiovascular.

O estudo estende-se por dois períodos sociais supostamente diferentes: 1985-2004, em que a população seguia os velhos conselhos de redução de gordura alimentar, e 2004-2010, em que se espalhou a “novidade” da LCHF.

Ainda não me dei ao trabalho de ler o artigo inteiro. Há logo à partida várias coisas que tresandam a porcaria:

1 – Dizem que ao longo de todo o estudo o BMI (Índice de Massa Corporal) aumentou; ora, isto para alguém que como eu pratica LCHF e conhece várias pessoas que a praticam também, é uma impossibilidade física. A LCHF faz decrescer a gordura corporal, já não me restam quaisquer dúvidas disto.

2 – Falam também do aumento nacional do consumo de cerveja e vinho; bebidas alcoólicas e açucaradas a subir…

Logo, a questão levanta-se: podemos mesmo considerar que os Suecos praticam realmente LCHF, ou eles passaram a achar que a gordura é tão protetora que pode ser acompanhada de vinho e cerveja (uma bebida com índice glicémico elevado)? Que outros “cheats” fazem parte da cultura gastronómica Sueca? Que raio de estatísticas foram cozinhadas aqui?… para isso teria de ler o artigo completo, mas é demasiado desapontador. Talvez mais tarde.

Bom, isto são as minhas reservas em relação à premissa do estudo (“LCHF é praticada na Suécia, vamos ver quais são as consequências”). Falha logo à partida e é portanto inválido.

Agora a cereja em cima do bolo… só pelo título, vê-se que eles não se preocuparam em avaliar as consequências reais desse “colesterol elevado”. Ficam apenas contentes em levantar o alerta “LCHF aumenta o colesterol!! cuidado!!” Perdeu-se mais uma oportunidade para saber o impacto real das coisas a nível oficial (a nível informal já nós, os “low carbers”, sabemos qual é: a cura do síndrome metabólico.)

E depois há a minha discordância favorita, que está neste momento em plena investigação pelo mundo fora: para quem realmente pratica LCHF, e perde toda a banha extra, e cura a diabetes e pré-diabetes, e ganha robustez metabólica, e baixa a inflamação sistémica, que importância tem na verdade um “colesterol elevado”?

Cada vez mais se torna evidente, pela experiência pessoal dos indivíduos que praticam mesmo LCHF e são seguidos medicamente, que o colesterol só é um bom indicador de risco de doença cardiovascular para quem sofre de síndrome metabólico. Fora desse cenário, o risco praticamente desaparece. Mas isto é algo que os “organismos oficiais” ainda não descobriram, e estão a fazer o seu melhor para evitar descobrir.

Entretanto já dei uma vista de olhos pelo artigo completo. E NÃO É QUE ELES APENAS CONSIDERARAM O COLESTEROL TOTAL??!?!?!! MAS COMO É QUE É POSSÍVEL QUE EM 2012 AINDA SE PUBLIQUEM ESTUDOS QUE CHAMAM A ATENÇÃO PARA O COLESTEROL TOTAL COMO INDICADOR DE RISCO?!?!?! Se isto não é uma tentativa de perpetuar a santa ignorância, então não sei o que é.

Este estudo tem mais buracos do que um queijo suíço. Hmmm mnham mnham, queijo suíço… 😉

Ah, fuck it. Let the Lemmings die off, fat and miserably confused.😛

Darwin rules!!😀

~ por Vasco Névoa em Junho 12, 2012.

5 Respostas to “É esta a “ciência” que temos?…”

  1. Ok, como pediste vou passar o comentário para aqui, espero que não haja limite de palavras.

    É um comentário ao teu artigo, nem sequer abri o científico.

    Primeiro, a BioMedCentral parece ser decente com uma boa peer-review, mas não perfeita (tem dois jornais dedicados à medicina alternativa).

    Segundo, o motor de busca põe os artigos por ordem cronológica ou relevância, o que não é muito útil para saber se o artigo é bem aceite ou não. Ou bem feito.

    Portanto podes facilmente ter apanhado um artigo fracote [:p]

    “Não é da treta por estar onde está, é da treta por ser mais uma das tentativas idiotas de manter o status quo e defender um ponto de vista cada vez mais nocivo para a saúde pública.”

    Talvez queiras ver Confirmation bias e o tal Dunning–Kruger effect… Se só por o artigo estar a defender um ponto de vista contrário ele é mau, quase maléfico, tu podes estar a ser um pouco preconceituoso.

    “isto para alguém que como eu pratica LCHF e conhece várias pessoas que a praticam também, é uma impossibilidade física”

    Isto é treta. Lamento, mas é.
    Placebo, confirmation bias, causation/correlation, etc. The plural of anedocte is not data. Se procurares em qualquer comunidade de dietas vais encontrar pessoas que irão jurar a pés juntos o mesmo que tu. O mesmo se aplica a tratamentos de saúde, pessoas convencidas que homeopatia funciona e que clísteres de lixívia curam cancro.

    Porque é que tu tens razão e eles não?

    Sem sequer prestar muita atenção ao que tu andas a fazer sei que andas muito de bicicleta e levantas (levantavas?) pesos, jujitsu, e aposto que só os mais ferrenhos se põem com jejuns. Existem variáveis de confundimento no teu caso e em qualquer caso individual.

    Por isso estes estudos usam muita gente ao longo de anos, para ser mais fácil retirar o efeito destas variáveis, e mesmo assim nunca é perfeito. Por exemplo o uso de álcool não foi uma variável que eles conseguiram descontar facilmente POR ISSO ELES O DIZEM.

    E é sempre possível que hajam variáveis de confudimento desconhecidas.

    “podemos mesmo considerar que os Suecos”

    No true scotsman. Duvido que qualquer grupo de pessoas pratique qualquer dieta a 100%, 100% do tempo. Duvido que tu o faças. E o facto que tu sabes do álcool é porque os investigadores reconhecem isso como um problema, não é como se eles pudessem impedir as pessoas de beberem.

    O problema com isto é que nenhum grupo vai seguir a dieta a 100%, logo qualquer estudo cujo resultado não gostes vai ser descontado como “não verdadeiro low-carb” e portanto inválido. Qualquer estudo com resultados que tu gostes vai ser uma vitória para low-carb, apesar de não seguir a dieta a 100% (a dieta é assim tão boa!) e portanto válido.

    Além de que é provável que existam muitas variedades de low-carb, dependendo da filosofia, guru, médico, etc. que cada um segue. Mesmo que o estudo seguisse uma das variedades a 100% tu podes descontá-lo como “não verdadeiro low-carb” porque não segue aquela variedade particular.

    ” não se preocuparam em avaliar as consequências reais desse “colesterol elevado”. Perdeu-se mais uma oportunidade para saber o impacto real das coisas a nível oficial”
    Isto não é o objectivo do estudo, nunca foi o objectivo.
    É como dar nega a um miudo na composição sobre as férias porque ele escreveu sobre o campo e tu querias ler sobre a praia.

    É aceite que o colesterol é um sinal de perigo. Talvez esteja errado, mas isto é uma premissa geralmente aceite. Quando arranjarem vários bons estudos independentes que demonstrem o contrário, talvez eles tenham que mudar a premissa.

    “a nível informal já nós,”
    O nível informal vale os papers em que está escrito.

    “E NÃO É QUE ELES APENAS CONSIDERARAM O COLESTEROL TOTAL”

    Como eu disse, eu nem abri o artigo, mas vou mandar uma à parede e ver se cola: os senhores não viajaram atrás no tempo para medir outras variáveis. Em 1985 foram medidas um conjunto de variáveis, em 2010 foram medidas as mesmas para comparar. Como tal apenas tens variáveis consideradas importantes em 1985.

    Como deves imaginar comparar qualquer valor com “não medido” não dá resultados muito interessantes.

    Não faço ideia se o estudo é bom ou mau. Não me interessa particularmente. Acho que o teu comentário do artigo é fracote.

    Bolas, que isto é comprido. (E depois de uma segunda leitura talvez seja um pouco mais agressivo do que eu queria)

    • Bernardo, muito obrigado pela tão objetiva análise.🙂
      É óbvio que o meu post foi víitima da minha própria emoção, mas no fundo acredito em tudo o que disse e mantenho-o como objetivo.
      Por várias vezes comecei a escrever-te uma resposta, e de todas acabei com um enorme testamento. Acho que não faz sentido rebater cada um dos pontos individualmente, não tenho o tempo disponível nem a experiência necessária para isso.
      Em vez disso, vou deixar falar uma profissional…😉
      Enjoy!🙂

    • A razão que me permite lançar com alguma segurança afirmações públicas deste género sem fazer a necessária “due dilligence” de investigação pormenorizada, é que já li e interiorizei o suficiente para poder avaliar algo novo logo ao nível da intuição. Tal como fazem os próprios investigadores científicos, mesmo os mais objetivos. Afinal, somos todos humanos.😉 Só alguns de nós é que se dão ao trabalho de ir até ao fim e avaliar as coisas a 100%. E esses, tipicamente, chegam demasiado tarde à meta para aparecerem nas notícias – ao contrário deste tipo de estudos alarmistas.😛

    • Há ainda um ponto específico que considero de particular importância e vou ressalvar. Acusas-me de “confirmation bias”, e eu declaro-me claramente culpado.🙂

      Aliás, vou mais longe e afirmo que ninguém está livre de confirmation bias, nem sequer os investigadores científicos. Ou devo dizer, “sobretudo os investigadores científicos”.

      “Confirmation bias” é um filtro de informação intuitivo. A intuição, contrariamente à crença popular, é uma ferramenta intelectual muito útil, e há bastante trabalho neuro-anatómico feito à volta da sua importância. Se leres António Damásio (“O Erro de Descartes”, “Sentimento de Si”) ficas a saber quão criticamente importante para o processo de decisão racional e subsequente início de ação é a Emoção, e a Intuição subjacente. Uma pessoa 100% objetiva e imparcial, que não nutre qualquer tipo de afinidade pela informação que lhe chega, é totalmente incapaz de decisão racional e de ação, ao ponto de ter de ser institucionalizada. Clinicamente provado. A partir de certa quantidade de informação não existe uma consistência suficientemente óbvia para tomar decisões racionais; é preciso acreditar em algo.

      As pessoas funcionais mais objetivas e racionais sofrem muitas vezes de “analysis paralysis”: quedam-se eternamente na iteração inicial do ciclo racional, a aquisição e processamento de informação, sem nunca chegarem ao ponto de massa crítica em que essa informação resulta numa decisão e despoleta uma ação. E isto é mau, porque quer queiramos quer não, a vida é feita de ações. Não agir é não viver.

      A intuição é um subsistema neuro-emocional que é programável ao longo do tempo (através da experiência, tanto racional com emotiva) e que depende da nossa vivência. Uma criança, por mais inteligente que seja, não consegue lidar com o mundo sem primeiro aprender o básico. Só depois de adquirir os filtros mais básicos que lhe permitem atribuir pesos de credibilidade à informação que lhe chega, é que ela pode tornar-se funcional no mundo natural e na sociedade. Vale a pena acreditar que podemos voar, quando a nossa experiência nos diz o contrário? As observações reforçam o filtro probabilístico da nossa intuição, e é assim que passamos a tomar decisões instantâneas de forma fácil, como por exemplo evitar a beira de um precipício.

      Mas este processo nunca tem fim. A larga maioria das pessoas com mais de 50 anos de idade é inamovível nos seus pontos de vista. Isto acontece porque estes as serviram bem durante toda a vida, e como tal o filtro probabilístico da sua intuição rejeita imediatamente qualquer nova informação que não seja acompanhada de algum evento catastrófico capaz de provocar uma emoção forte, reinicializando o filtro. É comum ler e ouvir estórias de empresários de sucesso que tiveram uma “life-altering experience” na forma de um ataque de coração, ou qualquer coisa do género, resultando numa radical mudança de estilo de vida.

      É este mesmo mecanismo de auto-realimentação probabilística que está por detrás da progressão de carreira de qualquer especialista, investigadores científicos inclusos. Vejamos o exemplo concreto de um jovem investigador que começa a sua carreira. À partida, tudo tem o mesmo potencial e o mesmo valor; o universo é fantasticamente infinito e a ciência cruelmente imparcial. No meio deste deslumbre, as afinidades pessoais do indivíduo (intuitivas) fazem-no gravitar para esta ou aquela área específica. Nessa área terá de se submeter aos senhores doutores (os especialistas incumbentes), isto se desejar formar-se e doutorar-se. Orientado por esses especialistas (que possuem um filtro intuitivo solidamente formado e em grande parte dos casos inamovível sem uma extração cirúrgica) o orientando lá vai labutando na sua tarefa.
      Aqui pode-se distinguir dois casos: o falhanço (o trabalho não tem grandes resultados nem gera grande empatia no jovem investigador) ou o sucesso (o orientando fica excitado e apaixonado pela área de investigação e pelos resultados do seu trabalho). Para mim, o caso de falha é apenas um atraso naquilo que é, por força das expectativas sociais e académicas, o caminho normal: mais cedo ou mais tarde o jovem investigador vai considerar uma determinada e concreta experiência de investigação como uma base de interpretação para o trabalho subsequente – e quer ele escolha confirmar ou contrariar essa experiência, ela define o seu caminho seguinte. É desse primeiro bloco de experiência que saem os axiomas com os quais ele ataca os novos problemas e as novas informações, que normalmente são reconfirmados pelo novo trabalho. É preciso ser uma GRANDE pessoa para largar tudo e recomeçar de novo todo o trabalho.

      E qualquer outra coisa seria irracional. Seria uma perda de tempo e de recursos voltar atrás e fazer “tabula rasa” de todo o conhecimento no início de cada estudo científico. Por mais objetivos e racionais que os investigadores procurem ser, estão sempre a operar com base na sua experiência passada. Mostra-me alguém sem “bias” e eu mostro-te alguém que não funciona.

      Os perigos são reais, mas a ferramenta é útil. Não a deites fora. É preciso estar consciente que:
      1 – a intuição é uma peça crítica do processo racional;
      2 – temos de a alimentar com informação o mais objetiva possível;
      3 – o filtro pode (e acontece frequentemente, principalmente com a idade) ficar “viciado” ao ponto de ignorar a realidade – quando isso acontece, é bom fazer um reset.

      Tu e eu estamos em lados opostos nesta questão da alimentação porque as nossas experiências diferem. É só isso. Não podes acusar-me de falta de objetividade, cada um lida com as cartas que lhe saem, e a ti ainda não te saíram tantas más como a mim. Mas com essa barriguinha de síndrome metabólico, cheira-me que dentro em poucos anos estarás a provar em primeira mão a situação.

      Quanto a mim… considero-me em desintoxicação: acreditava na “sabedoria convencional” até isso me pôr doente. Acreditava na “autoridade dos especialistas” até sofrer má prática às mãos deles, com a agravante de essa má prática estar de acordo com a sabedoria convencional mas em total desacordo com os resultados práticos (e não só no meu caso). A partir daí, passei a validar pessoalmente todas as intervenções e a experimentar alternativas. Encontrados os resultados positivos, cruzados com a tal “coleção de anedotas” que teimas em ignorar, formou-se o meu próprio filtro intuitivo e claro, parcial.

      Agora, apenas tenho de ter o cuidado de manter o filtro aberto à realidade; não o posso deixar cristalizar-se senão serei igual à geração de imbecis que defendem o consumo de carbohidratos como base da alimentação (e que morrem estupidamente antes do tempo, tal como o teu pai e tantos outros da mesma geração).

      Estás a ver a coisa? Não é de somenos importância.
      Esta resposta tem partes que podem parecer agressivas, mas a intenção é ser assertivo e não deixar passar as realidades óbvias só porque elas não encaixam no teu filtro intuitivo. 😉

      Abraço,
      Vasco.

  2. O ramo da nutrição é particularmente podre no que toca a corrupção de resultados a favor de quem paga os estudos…
    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17214504

    Que também acontece noutras áreas de investigação…

    Sempre que olhamos para um estudo, somos obrigados a fazê-lo não através da lente imparcial da ciência, ingénua por definição e simplista por tradição, mas através da lente sábia da história da humanidade. Quem fez o estudo? porquê? que crenças tinha a priori? O que tinha a ganhar com o resultado? Menos que isto é ser ingénuo. Os bloggers paleo, ao menos, têm os seus conflitos de interesse claramente declarados.

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