A cegueira da crise financeira

No meio de todo o falatório sobre a crise e a austeridade, acaba-se por não encarar os problemas de fundo.

O prédio está a arder, e por isso de repente toda a gente é bombeiro. O facto de não haver água suficiente para apagar o fogo parece ser irrelevante. E quem falar disso é derrotista. O importante é passar os baldes e dar à bomba.

E o facto de a gente saber quem lhe pegou fogo e porquê, também parece ser irrelevante. E encolhemos os ombros enquanto passamos os baldes uns aos outros. O que mais me chateia é que a nossa sociedade parece viver em permanente dissonância cognitiva: aquilo em que a maioria acredita não corresponde àquilo que efectivamente funciona bem. Mas deixemos as conclusões para o fim.

A Grécia é um caso exemplar na Europa, e por mais razões do que aquilo que se pensa. Neste momento eles estão “piores” do que nós, e por isso Portugal aparece com melhor cara na fotografia; mas eu não tenho tanta certeza de que estamos “melhores” do eles, pelo menos naquilo que mais interessa.

Para enquadrar estes pensamentos, permitam-me um importante desvio educativo. Remeto aqui para uma grande lição de história económica pelo Prof. R. D. Wolff, onde ele resume não só a Grande Depressão Americana dos anos de 1930, mas também explica porque é que ela aconteceu e como é que as forças financeiras provocaram a destruição dos mecanismos de segurança que evitavam o reaparecimento dessa crise, resultando novamente nas crises que ocorreram em sucessão desde 1970 até 2008 e que ainda estamos a viver graças à globalização das finanças. E aproveito também para remeter para o resumo que ele fez neste Janeiro sobre a crise mundial, dando especial atenção à Europa e à Grécia. A ver com tempo.

Destas duas palestras saem vários ensinamentos preciosos. O Prof. Wolff foi educado e ensinou nas melhores universidades capitalistas ocidentais, mas desde o início que partilha com Karl Marx a conclusão de que o Capitalismo é um sistema económico-político inconsistente e destinado a falhar a longo prazo. E segundo ele, esse prazo chegou – e eu concordo. Mas voltemos à tal lição de história.

– O grande “boom” de desenvolvimento que deu origem ao mega-império económico Norte-Americano só foi possível de manter durante 150 anos porque havia escassez de mão-de-obra. Ou melhor, havia mais recursos naturais (e portanto oportunidades de negócio) do que mão-de-obra disponível; isto permitiu que durante todo esse tempo os salários aumentassem continuamente para todos os Norte-Americanos, trazendo a este país a sua reputação de “terra da oportunidade” e o seu poderio económico e militar. Desde a sua independência nacional que esta terra é o principal laboratório capitalista.

– A Grande Depressão de 1929-1939 correspondeu ao “sucesso” absoluto do Capitalismo: os empregadores e financeiros, detentores do capital de investimento e desenvolvimento do negócio, haviam acumulado toda a riqueza da nação através da especulação e da máxima optimização do lucro. Isto coincidiu também com o fim do excesso de recursos naturais em relação à mão-de-obra e tecnologia disponíveis; a partir do momento em que a população activa atingiu um certo nível crítico e a produtividade por cabeça aumentou por causa da tecnologia, as pessoas deixaram de ser a peça mais importante do negócio. A partir daí o capital e a logística tomaram a dianteira nas decisões dos empregadores. Daqui até chegar aos 25% de taxa de desemprego nos EUA, com a pobreza e a fome generalizadas, foi um fósforo. Todos os recursos haviam sido transformados em capital, e este estava completamente aglomerado numa minoria escassa.

– A solução para a Grande Depressão americana é normalmente identificada como o “New Deal” criado pelo presidente F. D. Roosevelt, um programa massivo de gastos governamentais que lançou vários programas de desenvolvimento social e económico, entre eles a Segurança Social, incluindo a garantia de cuidados de saúde, subsídio de desemprego, e pensão de reforma para todos os cidadãos que necessitassem (sim, nada disto existia em 1929 na América, era um “mundo cão”). Para além disto, ele também intensificou obras públicas megalómanas como a barragem hidroelétrica “Hoover Damn”, fazendo com que o Estado Federal se tornasse no principal empregador da nação, absorvendo muitos dos milhões de desempregados – manobra esta que John M. Keynes mais tarde veio a formalizar naquilo que hoje chamamos o “Keynesianismo”: a noção que o Estado tem de arranjar dinheiro para safar a Economia durante uma crise.

Aquilo que pouca gente se interroga é: como raio é que F.D.Roosevelt conseguiu pagar este astronómico “pacote de estímulo” económico numa altura em que a nação agonizava morbidamente por falta de liquidez? A resposta é simples: foi buscar o dinheiro onde ele estava acumulado. Uma das coisas “inacreditáveis” que ele fez foi fechar todos os bancos do país assim que tomou o poder em 1933, para acabar com a loucura especulativa e poder ter tempo para legislar um novo sector financeiro mais orientado à robustez da sociedade.

Nessa altura, os vários partidos Socialistas e Comunistas e Sindicatos de Trabalhadores floresciam com grande força nos E.U.A. Entre todas estas entidades, havia cerca de 30 milhões de pessoas organizadas, prontas para saltar para a rua e fazer barulho (e outras coisas um pouco mais incómodas) caso as decisões do governo federal não agradassem às perspectivas de futuro da população. Foi precisamente com este exército de 30 milhões pelas costas que Roosevelt se sentou à mesa de negociações com os seus amigos ricalhaços, os donos das famílias financeiras e da grande indústria, quando lhes exigiu que devolvessem ao Povo aquilo que era seu por direito: os resultados do seu trabalho. Foi esta “pressão política” (ou melhor, ameaça física) que resultou num acordo histórico que ainda hoje serve de exemplo para todo o mundo mas é frequentemente esquecido: os ricos aceitaram pagar os custos da crise que eles próprios ajudaram a criar através da sua corrida à maximização do lucro. A alternativa seria o linchamento público.

O presidente primeiro propôs que nenhum cidadão Americano pudesse auferir acima de 250.000 dólares anuais (correspondente a 385.000 hoje, uma “miséria” para quem ganha milhões), sendo que todo o rendimento acima desse valor reverteria para o Estado Federal; assim o Governo seria capaz de pagar toda a dívida e relançar a economia rapidamente, e os ricos continuariam a ser ricos, embora não tanto. É claro que eles rejeitaram essa proposta “inaceitável”, o que abriu caminho para a proposta que efectivamente foi aceite: metade do dinheiro que o Estado necessitava para relançar o país seria fornecido pelos ricos (ou melhor, pelas suas empresas) em forma de impostos progressivos, e a outra metade seria fornecida através de empréstimos com juros razoáveis. É importante saber que o escalão mais elevado de imposto ia até aos 94%, o que deixava os ricos apenas com 6% dos seus ganhos. Mas 6% era melhor que 0%, e eles aceitaram. E durante os 6 anos seguintes, a qualidade e dignidade da vida da população melhoraram continuamente, para todos.

O período de crescimento continuou depois de 1939, mas aqui torna-se difícil separar as causas, uma vez que estávamos na Segunda Grande Guerra e o esforço industrial de guerra não pode ser comparado a tempos de paz. E isto é todo um assunto muito diferente e cheio de muitas outras considerações tenebrosas.

A minha primeira conclusão desta lição de História é que a “luta de classes” identificada por Karl Marx sempre esteve e sempre estará viva nas sociedades capitalistas – a própria definição de “capitalismo” implica que nada se faz sem o poder organizativo do capital financeiro, mesmo na presença de capital humano e recursos naturais suficientes (o que, reconheçamos, não tem nada de racional). Haverá sempre aqueles que se dedicam à concentração da riqueza em detrimento do esforço dos outros, enquanto a maioria da população se preocupa apenas com objectivos mais prosaicos, como por exemplo “ser saudável” ou “ser feliz”. Ou seja, do ponto de vista “deles”, “nós” andamos sempre a dormir. E “eles” são aqueles que nunca dormem. O facto de termos filosofias ou objectivos de vida diferentes deixa-nos vulneráveis aos seres boçais que usam gravatas de seda.

A minha segunda conclusão é que a função do Estado em tempos de crise é a de redistribuição da riqueza. O facto de o sistema capitalista entrar em crise de forma cíclica nasce da sobre-exploração financeira; todos nós fazemos parte de uma gigantesca bomba hidráulica de dinheiro, uma máquina bem oleada que bombeia esforço e recursos desde a base da pirâmide social até ao topo, concentrando a riqueza. E quanto mais trabalhamos para (sobre)viver, mais riqueza bombeamos “para cima”, ficando apenas com as migalhas contratuais. A consequência inevitável, mais cedo ou mais tarde, é que toda a riqueza acaba concentrada nas mãos de alguns poucos. O dinheiro não desaparece, concentra-se! E essa mesma riqueza concentrada permite àqueles que a têm “esperar por dias melhores para investir”… deixando-nos à míngua e à fome, se chegarmos a isso. Cabe portanto a uma entidade supostamente isenta e com visão de sistema inverter este estrago sem entrar em exageros: o Estado tem de espremer o excesso aos ricos e dar a todos os outros em troca de trabalho estruturante. Afinal, a culpa da crise é mesmo deles, foram eles que “espremeram o limão até à casca”; é apenas lógico que sejam eles a pagar o preço. Se isto for feito pelo Estado, com conta e medida, o sistema funciona; se não for feito, a “corda rebenta” e depois será feito à força pelo povo. Não queremos mais uma leva de “saneamentos” e “nacionalizações” à maluca, pois não??

O mais ridículo de toda a situação é ela lembrar o velho ditado: “quanto mais me bates, mais gosto de ti”. Os financeiros meteram o pé na argola e arruinaram os bancos; o Estado entrou para salvar os bancos, com dinheiro que faz falta à população e à saúde da Economia. Os financeiros “aprenderam a lição ” e passaram a ser muito mais “cautelosos”, ou seja, passaram a lixar o crédito a todas as pessoas que eles próprios puseram em maus lençóis; a bola de neve rolou para todos os mercados e indústrias da sociedade; e agora o Estado vê-se na posição de ter de pedir emprestado a esses mesmos financeiros para tapar os buracos que eles cavaram. Que agora são muito mais “cautelosos” e portanto cobram juros elevadíssimos pelo empréstimo de “alto risco” que representamos. Do meu ponto de vista, esta é a maior manobra genial para ganhar dinheiro que os financeiros alguma vez engendraram – e já foi praticada vezes sem conta ao longo das várias crises.

Ou seja, o nosso Governo tem uma relação sodomista com as entidades financeiras; diz que não gosta, mas volta sempre. E ainda apanha e gosta.

E onde é que isto nos deixa a nós, Portugueses, em 2012? Deixa-nos na mesma situação que a Grécia: lixados com uma dívida que não podemos pagar, entalados com um governo que não conhece a História nem tem a coragem de defender o seu povo e que apenas quer agradar aos “grandes”, aqueles que mais beneficiam com os nossos problemas. Mas entre nós e a Grécia há uma grande diferença: os Gregos não estão calados nem aceitam ser cilindrados. Manifestam-se e organizam-se. E o governo Grego actual vai mesmo ser substituído em breve. Vamos ver agora se o próximo governo Grego será mais representativo do seu povo do que este; se isso acontecer, a Grécia irá fazer um belo manguito aos seus credores, e isso será bom para os Gregos e mau para toda a Europa – os gregos irão reaprender a trabalhar e a viver sem as “finanças sofisticadas”, e as instituições financeiras Europeias irão colapsar umas atrás das outras, com inúmeros bancos a tornarem-se insolventes por os fundos que seguraram as suas perdas (através de Credit Default Swaps) também não terem a liquidez necessária para as cobrir. Todo o dominó financeiro irá cair em fila, país atrás de país, possivelmente com a Europa arrastando a base financeira Norte-Americana e por consequência a Chinesa também. Bom, talvez a China se safe, eles têm riqueza real que chegue. Eis como um pequeno David Grego, quase microscópico, abate o gigantesco Golias financeiro… através da dor de barriga que ele próprio criou por comer demasiado.

Dada esta situação, é apenas previsível que a malta do dinheiro e da política esteja tão preocupada com a Grécia; é o pavio que faz rebentar o paiol inteiro. Mas eu prevejo e espero sinceramente que a Grécia esteja à altura do seu legado histórico de criadores da Democracia: não paguem! Invistam internamente! Recuperem a vossa dignidade! E depois disso, com o que sobrar, então paguem o que é justo.

Outro exemplo a seguir é o da Islândia, que sendo um país com uma cultura bastante mais civilizada e racional resolveu logo em 2008 “linchar” legalmente os seus financeiros “criativos” como paga pelas suas “inovações”. Quem tinha de pagar pelas asneiras já está na cadeia, mas o mal Islandês continua a colher vítimas porque eles também aceitaram os pacotes da Troika – e infelizmente os estragos que uma instituição financeira pode causar excedem largamente a capacidade de compensação da Justiça.

Como conclusão, deixo os seguintes pensamentos para os nossos próprios políticos e activistas:

– Devemos apoiar os Gregos na sua luta de dignidade e sobrevivência;

– Devemos seguir o exemplo dos Gregos e revoltarmo-nos nós próprios contra os abusos “daqueles que nunca dormem”;

– Devemos seguir o exemplo da Islândia e accionar todos os meios legais para caçar os criadores desta situação;

– Devemos guardar as receitas do país para reinvestir na nossa própria capacidade de produção primária, de preferência para consumo local e interno, de forma a restaurar a robustez económica do país.

Tenho dito.

Melhor ainda, seria desenhar um novo sistema económico centrado na preservação dos recursos naturais e na distribuição da riqueza. Não, não estou a falar do Comunismo, isso já foi tentado (mal) e não funcionou. Não tenho uma solução para apresentar, mas não tenho dúvidas que é preciso começar este debate. A bem do nosso futuro.

~ por Vasco Névoa em Fevereiro 14, 2012.

11 Respostas to “A cegueira da crise financeira”

  1. Ai Vasco..! Estou contigo amigo mas receio que um dia por causa da tua irrefutável lógica, desapareças “misteriosamente” e nunca mais sejas avistado!!!
    Bora lá pensar nesse sistema alternativo então, vamos arranjar uma cave ou uma garagem onde “eles” não nos encontrem🙂 Já me estou a ver a pensar numa publicação semanal divulgando e incitando à revolta do povo🙂 Entre canecas e canecas de chá e muito amor Universal, claro!!!

  2. Vasco, estou muito satisfeito por comprovar que afinal as consciências vão despertando ora aqui ora ali. Já vamos sendo uns quantos. É certo que as instituições existentes não estão a fazer o que lhes compete em matéria de defesa da nossa dignidade, reformular a economia implica uma reformulação social e cultural, e essa já parece estar a começar, creio, muito profundamente que a solução passe mais por uma ruptura profunda na propriedade privada dos recursos e meios produtivos, do que em medidas paleativas e a juzante.. no entanto, os comunistas e socialistas mais radicais são os únicos que contrariam o circo que é a difusão das inevitabilidades da crise e da pobreza, eu conto com eles.

  3. Vasco,

    Entao a solucao e nao pagar os emprestimos que os governos socialistas fizeram, seguindo a logica keynesiana que defendes? E “pagar o justo” (o que quer que isso signifique) :o/.

    Acho que tens uma ideia errada do que o capitalismo e amigo.
    E que, infelizmente, durante os ultimos, sei la, 15 anos, comecou a haver uma constante onda anti-capitalismo, em forma de propaganda de esquerda.

    Ja agora, fizeste, no geral, uma boa descricao da historia dos EUA mas a analise nao e muito justa sobre tudo o que aconteceu, ja que quando o FDR criou o New Deal, a recuperacao ja estava a acontecer:
    http://answers.yahoo.com/question/index?qid=20110104023748AAt3LNW

    Mas deixa-me perguntar-te algumas coisas:
    – ja alguma vez viste um pobre a dar emprego a alguem?
    – existem pobres por causa dos ricos? (e, neste caso, estou a perguntar se um causa o outro, e nao a referir o obvio de que, por comparacao, se houverem ricos, existem pobres)
    – se o rico nao ganhasse o dinheiro que ganha, estariamos melhor? (sendo a pergunta aqui a seguinte: se um rico decidisse, de repente, fechar a sua empresa, deixaria de gerar riqueza. E o que e que isso iria causar a populacao?
    – acreditas mesmo nessa ideia de que o Estado deve “tirar aos ricos e dar aos pobres”? E que temos de ter muito cuidado com isso, sabes? E que quem decide quem e rico e quem e pobre e o Estado e, da ultima vez que verifiquei, o Estado Portugues classificava qualquer individuo com um rendimento > 1250 euros mensais (se nao estou em erro), como rico.
    – e, por fim, achas mesmo que os ricos estao a ficar com os bens do mundo? E que, no standard monetario que usamos hoje em dia (o fiat standard), o valor do dinheiro e baseado na quantidade de divida que existe (e e gerado pela promessa de o pagar de volta). Logo, a tua afirmacao sobre a China ter “riqueza real” e um bocado errada.

    Deixar o Estado controlar a vida privada e um erro e um grande risco amigo. Isso ja aconteceu muitas vezes e acaba sempre em fascismo (uma das razoes principais pelas quais o comunismo nunca funcionou).
    Isto ja para nao dizer que, num Estado Social, o governo tem de ser enorme e isso nao e sustentavel e e muito propicio a corrupcao.

    E era so isto que te queria dizer. Nao vejas o meu comentario como um ataque ja que nao e o meu objectivo antagonizar mas sim apenas expor “o outro lado”, com muito respeito :o)

    Abraco,
    Luis

    • Luís: muito obrigado pelos comentários perfeitamente racionais e civilizados.🙂 E obrigado pelo link.

      Eu diria que resumiste na perfeição a lógica que nos mantém reféns deste sistema. Temos sempre medo de todas essas coisas: que o Estado persiga as pessoas erradas, que cresça demasiado ou se torne demasiado burocrático (oops, too late!), ou que os investidores simplesmente decidam ir investir o capital para outro lado. E há alguma razão para ter medo, porque tudo isso são possibilidades reais. Mas as consequências são muito menos graves do que as pessoas julgam.

      Respondendo a algumas das tuas questões:

      P: “- se o rico nao ganhasse o dinheiro que ganha, estariamos melhor? (sendo a pergunta aqui a seguinte: se um rico decidisse, de repente, fechar a sua empresa, deixaria de gerar riqueza. E o que e que isso iria causar a populacao?”
      R: Sim, acho que estaríamos melhor. Mas aqui é preciso distinguir entre uma evolução contínua e uma transição abrupta: se os ricos sempre tivessem sido impedidos (de uma forma positiva, a investigar) de se tornar obscenamente ricos, a sociedade teria uma distribuição mais homogénea de riqueza, não tenho dúvidas; mas se agora de repente quisermos acabar com a assimetria social duma só vez, é claro que isso é perigoso e injusto e não faz sentido – tem de ser feita uma transição progressiva e com bom-senso. Quanto à segunda parte: se um rico fecha uma grande empresa, essas pessoas vão para a rua e é uma grande chatice. Mas a chatice dura pouco, porque no meio dessa gente há pessoas de todos os níveis e qualificações, e cá fora já há também pessoas qualificadas à procura de mão-de-obra para outros projectos. Entre aqueles que saíram e os que já cá andavam, novas empresas se formam inevitavelmente – e o mercado fica mais competitivo, mais diverso, mais rico em soluções. Todas as transições têm um custo, e o objectivo aqui devia ser fazer a transição de forma controlada, e não ignorar o facto de estarmos em transição. É uma chatice a curto prazo, mas um grande ganho a longo prazo.

      P: “- existem pobres por causa dos ricos? (e, neste caso, estou a perguntar se um causa o outro, e nao a referir o obvio de que, por comparacao, se houverem ricos, existem pobres)”
      R: Sim e não. Ou seja, há muito mais pobres por causa dos ricos do que se não houvesse grandes empresários e financeiros. Nós estamos a usar os termos “rico” e “pobre” de uma maneira simplista para não alongar a conversa, mas no grupo dos “pobres” incluem-se as pessoas da classe média que estão sempre em risco de entrar em falência, e no grupo dos “ricos” incluem-se as pessoas cujo trabalho principal é gerir o esforço dos outros. O espectro é contínuo e gradual. Agora, tal como há sempre pessoas que não querem trabalhar nem produzir nada, também há sempre pessoas que tudo querem controlar e possuir. Os primeiros são aqueles que serão sempre pobres em qualquer sistema, e os segundos são aqueles que só se tornam obscenamente ricos dentro dum sistema doente. Ambos os casos são extremos da população e são minorias escassas (os tais 1%) – e logo não deveriam provocar problemas à sociedade; mas infelizmente o capitalismo favorece infinitamente os segundos, permitindo-lhes acumular riqueza e poder muito mais rapidamente do que quaisquer outros. Por que raio é que os ricos pagam menores taxas de imposto que o resto da população?? porque os sucessivos governos têm medo de perder o “vital” apoio financeiro – que a meu ver não é nada vital, é apenas muito conveniente a curto prazo.

      P:”- ja alguma vez viste um pobre a dar emprego a alguem?”
      R: épá, por acaso, já.🙂 Por todo o mundo nascem projectos e empresas com total valor utilitário para as comunidades que os desenvolvem, sem nenhuma ou muito pouca intervenção do capital. É deste tipo de pioneirismo que nascem as economias locais robustas. Não é necessário esperar pela “bênção” de um qualquer senhor industrial que vem ali plantar uma fábrica e empregar toda a aldeia e torná-la numa cidade ao fim de 10 anos.

      P: “acreditas mesmo nessa ideia de que o Estado deve “tirar aos ricos e dar aos pobres”? E que temos de ter muito cuidado com isso, sabes? E que quem decide quem e rico e quem e pobre e o Estado e, da ultima vez que verifiquei, o Estado Portugues classificava qualquer individuo com um rendimento > 1250 euros mensais (se nao estou em erro), como rico.”
      R: Tens toda a razão, a Lei é uma coisa muito básica e facilmente injusta. Tal como também é facilmente enganada. Mas ficar de braços cruzados não resolve o problema. Uma ideia simples e que sempre funcionou bem é a taxação progressiva, por escalões. Parece-me um sistema perfeitamente justo, e só não é absolutamente perfeito porque haverá sempre “espertos” a esconder os seus rendimentos. Mas ainda assim a coisa funciona e é eficaz. Concordo contigo se disseres que não se deve oficializar essa distinção de “ricos”, mas sim criar uma escala progressiva de rendimentos com uma taxação a condizer. E em tempos de crise profunda e défice absoluto, porque não taxar a 5% o escalão mais baixo e a 95% o escalão mais alto, com todo o gradiente progressivo pelo meio? É assim que se “tira” aos ricos para “dar” aos pobres, sem exageros nem injustiças.

      P:”- e, por fim, achas mesmo que os ricos estao a ficar com os bens do mundo? E que, no standard monetario que usamos hoje em dia (o fiat standard), o valor do dinheiro e baseado na quantidade de divida que existe (e e gerado pela promessa de o pagar de volta). Logo, a tua afirmacao sobre a China ter “riqueza real” e um bocado errada.”
      R: mais uma pergunta que são duas.🙂 Não tenho dúvidas que os ricos já são totais donos dos bens do mundo, embora indirectamente. Na realidade, eles são donos das pessoas, que valem muito mais do que os bens. O que fazem os governos quando o Estado precisa de dinheiro? pedem-lhes emprestado. O que fazem a seguir quando não podem pagar e precisam de mais? pedem mais, com maior juro. E quando a dívida é demasiado óbvia para poder ser paga? Aceitam alterações à Lei e à maneira de viver dos cidadãos, para poder pagar não só aquilo que pediram como também os juros arbitrariamente altos. Ora, quando uma coligação financeira dita as leis de um país, isso não é propriedade sobre essa nação? E da mesma forma se pode olhar para a relação entre os bancos e as empresas: se uma empresa tem um projecto de grande impacto social positivo mas cujo rendimento financeiro é baixo ou muito arriscado, qual é o banco que o vai financiar? E portanto, lá temos os financeiros a ditar o que se pode fazer e o que não se pode fazer, porque na cabeça e educação dos empresários e políticos, “sem capital não se faz nada”. Isto não é propriedade efectiva sobre a indústria? É por isso que eu acho que a China tem muito mais riqueza real do que o resto do mundo; é certo que ela é a maior credora mundial, detentora da maior fatia de dívida soberana e privada tanto dos EUA como da Europa, mas para mim isso não vale muito – eu não vejo valor real no “fiat standard”, mas sim nos recursos reais (naturais e humanos) que uma região tem, e a China tem ambos em abundância. Se o colapso financeiro total acontecesse já hoje, com todas as instituições financeiras a cair em dominó porque esse dinheiro emprestado é na realidade puramente virtual e não pode ser pago, quem é que sobreviveria? Quem teria o que comer e um telhado sobre a cabeça? A China sem dúvida. Para eles é apenas uma questão de organização. E para nós também devia ser.

      A meu ver, vários economistas chegaram desde há muito à conclusão que o capitalismo já deu o que tinha a dar à sociedade; o seu tempo acabou. É um sistema muito bom para efectuar colonizações em áreas despovoadas, onde há menos mão-de-obra do que recursos. O foco que os investidores e patrões têm na maximização do lucro fá-los apostar na mão-de-obra e na sua qualificação enquanto dentro dessas condições de escassez relativa; mas quando a mão-de-obra se torna abundante a lei da oferta e procura aniquila a qualidade de vida da maioria e tornamo-nos escravos assalariados, ou então lutamos diariamente para que isso não aconteça, com “os outros” sempre a puxar a brasa à sardinha deles, e nós sem poder dormir descansados. É por isto que o capitalismo não encaixa numa visão de sociedade próspera e feliz quando a população está bem estabelecida num território. As pessoas tornam-se “recursos” homogéneos com, digamos, máquinas e ferramentas. O que só é realista na cabeça de quem vê a vida por um microscópio financeiro, ejectando todas as restantes dimensões humanas.

      Isto deixa-nos com O Problema: se este sistema não satisfaz, o que lhe fazemos?
      Deitá-lo fora e começar de novo é ridículo e perigoso. Substituí-lo por outro de repente gera normalmente o caos e ninguém com bom senso quer isso. Resta-nos fazer-lhe melhorias funcionais. Mas que melhorias? Para já, lidar com a falta de dinheiro do Estado; a taxação em escalões progressivamente agressivos dos rendimentos é um bom começo. Muitas empresas fugirão, mas algumas ficarão. E à medida que mais nações fazem o mesmo, deixa de haver sítio para fugir. Depois, dar prioridade às reformas estruturais; para isso será necessário cumprir algumas das coisas ditadas pela Troika, mas também será preciso violar algumas partes desse acordo; acima de tudo é preciso ver bem o que é que conduz a uma economia robusta do país a longo prazo, SEM A DEPENDÊNCIA DE CAPITAL PARA TUDO E PARA NADA. Isto passa por desenvolver um sector primário forte, heterogéneo, e diverso e uma logística de distribuição para que ele possa vingar, primariamente com o consumo interno, e exportando apenas excedentes.

      Eu que nada percebo de Economia, parece-me bastante óbvio que não podemos manter o Estado e a Indústria a operar com base exclusiva no crédito. Temos de rebasear a economia no valor intrínseco e real das coisas. Os únicos que perdem são os especuladores.

    • Luis, comprova-se empiricamente que a pobreza é resultado único da concentração de riqueza no nosso actual sistema económico- A tendência para a acumulação confere ao sistema em si um carácter desigual, a pobreza é só o resultado das desiguldades exacerbadas.

      • Eu tendo a concordar, embora não conheça essas provas empíricas – já agora, há alguma coisa online que se possa ver?
        Mas não tenho dúvida que o nosso sistema atual tem vindo sempre a exacerbar o problema; aliás, considero que o carácter cíclico das crises é resultado directo deste mecanismo de concentração da riqueza. O sistema capitalista comporta-se sempre como um iô-iô económico: ao princípio do ciclo o crescimento é para todos, depois forma-se uma assimetria, e no fim temos a crise generalizada com paralização da economia porque os consumidores estão falidos (toda a riqueza está na “cúpula” social). E pronto, ou se dá mais um pontapé Keynesiano, ou tem-se uma revolução ou uma guerra. Ou seja, o capitalismo é como um mau pedaço de software: obriga a fazer reboot a todo o sistema operativo de tempos a tempos.

  4. Vasco,

    Concordo em pleno com a tua análise da actual situação económica mundial. Acho que quem criou efectivamente a crise, tem por dever ajudar a resolve-la e não é com empréstimos a juros obscenos, e medidas de austeridade criminosas que a economia vai recuperar. Temos um défice de ideias e coragem, quer interno e a nível da UE para resolver o problema económico.

    Luis Miguel Silva,

    O chavão do “Vêm ai os Vermelhos” já está mais que gasto.

    As pessoas podem ser mal informadas ou desinformadas, mas não são estúpidas e sabem bem quem está por detrás da crise.

    Todos nós fomos levados a acreditar (através do crédito fácil por exemplo) que a economia era forte, quando as bases desta, estavam podres até à raíz.

    Não me entendas mal, pois eu abomino o Comunismo tal como o Fascismo e variantes.

    Revolta-me a política socialista do dar apoios ao desbarato a uma cambada de parasitas da sociedade, na mesma medida que me revolta a hipocrisia de pessoas ditas liberais, pro-capitalistas, que quando há uma crise voltam-se para o Governo para os safarem (Banca). Os mesmo que apregoam aos sete ventos que o Governo não tem nada que intrometer na economia e que os mercados se auto regulam.

    Acredito, vejo e quero o bom do modelo liberal e do modelo socialista.

    • Ora nem mais, é isso mesmo. É preciso encontrar um sistema que funcione, sem olhar demasiado a ideologias abstractas.
      E para que funcione hoje e amanhã também, não pode ser baseado em dívida, mas sim em valor robusto. Tem de ser baseado nos recursos naturais que temos (e na sua preservação!), nas empresas bem organizadas e coligadas, nas pessoas bem formadas e adaptáveis… temos de trocar a dependência do capital financeiro pela dependência do capital humano e natural.

      Um sistema económico baseado em dívida não confere esperança no futuro. E sem esperança, o Homem não se mexe porque não vale a pena.

  5. Nota: estava tentado a não escrever, mas visto que há aqui bons argumentos acho que vale a pena lançar a minha “acha” para fogueira.

    Dividir entre “rico/pobre” é demasiado simplista, tal como separar as pessoas em “esquerda/direita”, “comunista/neoliberal” ou até “anarquia/totalitarismo”.

    Saltando já para a conclusão, o problema dos sistemas politicos e económicos são as pessoas que criaram sociedades com padrões incomportáveis com principios danosos.

    Porque penso isso? Vou lançar questões (algumas retóricas):
    1. Não deveria o sistema de impostos ser igual para todos os cidadãos? Onde todas as pessoas (fisicas, colectivas, etc) pagariam sempre a mesma taxa definida legalmente, sem escalões.

    2. O Fernando trabalha (e gosta) 14h por dia e pelo seu trabalho produz e ganha bastante. O Manel trabalha menos e prefere ir para casa mais cedo. O Fernando paga mais imposto (o que está correcto) mas é penalizado com a subida de escalão, porque… trabalha mais?

    3. Porque é que o esforço do trabalho honesto, quando se traduz em dinheiro é penalizado?

    4. O João, inventou um dispositivo. Gastou várias décadas da sua vida, não teve vida pessoal, não tem familia, é um simpático solitário, mas conseguiu criar uma empresa. Produziu o dispositivo e vendeu. Toda a gente o quer! Ele até tem problemas em produzir.
    Deve ele ser prejudicado e pagar mais impostos, do que aqueles que já paga como pessoa fisica e como empresa? Deve ser ele intimado de forma compulsiva a re-distribuir o dinheiro que ganhou?

    5. O Ronaldo é um excelente jogador de futebol. Ganha milhões! Os clubes pagam-lhe de forma livre, pois os adeptos também investem ao comprar bilhetes, ser sócios, etc etc etc. Deve o Ronaldo ser forçado de forma compulsiva a pagar mais impostos, do que aquele que qualquer outro cidadão paga?

    6. Os bancos financiam tudo o que seja imaginável. As pessoas são livres de tomarem as suas opções. Sem pensar, optam por crédito fácil — na verdade em Portugal, durante 15 anos, o crédito fácil bancário assemelhou-se à venda da alma ao diabo. São os bancos, culpados por este “aliciamento”? Se sim, são os nossos governos culpados por serem aliciados? E se sim, será o povo culpado por eleger governos assim?

    7. Porque é que não se observa uma maior criação de cooperativas em Portugal?

    8. Porque é que no Algarve, os cooperantes têm tendência em vender por fora fugindo das suas responsabilidades nas cooperativas?

    9. Porque é que durante o boom do “crédito fácil” as pessoas pediam (e aceitavam) mais crédito do que aquele que precisavam?

    10. Porque é que as pessoas no geral, não ficam satisfeitas com pouco?

    11. Porque é que quem recebe o RSI, não é obrigado a devolver algo à sociedade? Por exemplo, através de trabalho comunitário? Limpar florestas? Voluntariado?

    12. Porque é que há familias que passam a vida inteira a viver à custa de subsidios e não conseguem superar a sua própria barreira?

    13. Porque é que — existindo tantos bons profissionais em Portugal — sempre que têm hipótese saem do país, emigrando para locais onde o respeito profissional é maior?

    14. Se temos pessoas com grandes capacidades, nas grandes empresas em Portugal, porque é que elas próprias não abandonam o trabalho que têm e criam os seus projectos (de uma forma mais geral do que aquela a que se assiste)?

    15. Porque é que existe uma tamanha cumplicidade entre o sistema politico e económico? Não deveria haver um factor regulador FORTE por parte do Estado, onde ele não fosse uma parte interessada (como nas PPP)?

    16. Porque é que o Estado se endivida, pedindo dinheiro aos bancos? Não deveria o dinheiro dos impostos ser suficiente para satisfazer as necessidades básicas dos cidadãos?

    17. Porque é que não existe uma Constituição que dê liberdade aos seus cidadãos?

    18. Porque é que no sistema educativo, um aluno sobredotado é obrigado e nivelado por baixo? Porque é que não pode haver respeito, por aqueles que demonstram mais capacidade e que podem ir mais longe?

    19. Porque é que os filhos abandonam os pais, que têm de viver na rua? E porque é que as pessoas dizem que a responsabilidade social é do Estado e não das próprias familias?

    20. Porque é que têm de ser implementados mecanismos que limitam a liberdade de uma pessoa? E porque é que há pessoas que aceitam perder a sua liberdade em nome de uma estabilidade artificial?

    21. Não deveria o estado garantir os mais básicos dos direitos: liberdade, segurança e justiça?

    22. Não deveria o estado estimular o aspecto social de forma natural?

    Acho que já são questões suficientes🙂 Depois posso colocar mais algumas, se você tiver paciência para responder.

    • Bom…. só há uma maneira de responder a essas 22 perguntas: Cultura. Esses comportamentos fazem parte da nossa educação, valores morais, e identidade nacional. Infelizmente.
      E para mudar isso, é preciso 3 coisas: tempo, esforço, e objectivos claros.
      E acho que os objectivos actuais (Crescimento Económico) não são aqueles que precisamos mais.

      • Concordo que o objectivo actual de crescimento económico não seja o melhor (reforço, não é!); mas também a democracia tem imensas falhas… e ainda não se encontrou uma alternativa melhor.

        Vamos “rezar” para que seja possível tal evolução, se bem que não tenho confiança que tal venha acontecer durante o meu tempo de vida.

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