Eu e as minhas bactérias

Uma das coisas que me desilude é o quase total desinteresse e até mesmo desrespeito que a classe médica aparenta ter pelas bactérias. Isto é não só um “pecado” de arrogância – como se apenas as funções e sistemas inatos do corpo humano é que interessassem para a saúde e o corpo funcionasse num vácuo ocasionalmente invadido por agentes estranhos – como também é um enorme lapso de profissionalismo e conhecimento técnico… senão vejamos.

Quando comecei aqui há uns anos atrás a sofrer de hipoglicémias reactivas a torto e a direito, tive de aprender muita coisa. Os médicos por onde passei apontavam basicamente na direcção genérica da sua especialidade, fosse ela qual fosse, sem grande interesse em fazer um diagnóstico digno do nome. Para uma endocrinologista era um problema hormonal a ser corrigido por compensação química continuada; para um neurologista era com certeza um problema psicológico a resolver em terapia ou com algum tipo de droga psico-terapêutica; para um clínico geral seria mais uma daquelas coisas misteriosas a acrescentar à lista das viroses. Apenas ficaram contentes por “resolver” o problema em menos de 15 minutos para poderem passar à próxima consulta. Depois de sofrer na pele o efeito de várias drogas perigosas receitadas sem qualquer cuidado ou ética profissional, resolvi tomar o assunto nas minhas mãos e descobrir o que raio se passava.

Os obstáculos não foram poucos – afinal que coisa mais estranha é essa de se ter pouco açúcar no sangue quando se come muito açúcar (resposta correcta: é hiperinsulinismo) – e tanto a informação propagada pelos médicos como pelas associações de diabéticos pareciam completamente dissociadas da minha situação. Pensei que era um bicho raro, ou que tinha tido o azar de contrair um bicho raro (fosse um problema genético ou um parasita). No meio da desinformação, houve uma médica que efectivamente me auxiliou; falou-me de permeabilidade intestinal e dos efeitos da dieta sobre a mesma. Note-se que foi preciso recorrer a uma profissional “pouco ortodoxa”, alguém com uma visão “holística” sobre o corpo e o ambiente circundante, fundidos num único sistema com memória e experiência.

2009 foi um ano particularmente mau. Para além das hipoglicémias constantes havia também o problema das alergias – a minha pele sofreu por várias vezes revoluções brutais e inexplicadas. Primeiro nas extremidades (pés e braços) e depois em todo o corpo. Andei vários meses sem poder usar sapatos, felizmente era verão. Foi feito um teste de contacto dermatológico com 50 reagentes alergénicos, mas nenhum deu positivo. Quanto a mim isto foi porque a reacção alérgica teve origem no intestino e não na própria pele, e portanto dificilmente se conseguiria reproduzir o problema através da pele. Quando o intestino se comporta como um passador estragado, qualquer toxina que ingerimos rapidamente chega ao sangue e a todo o corpo. E tão depressa como aparece, a alergia desaparece – ou não, dependendo dos hábitos alimentares. O maior problema destas crises atópicas é que cada uma delas imprime um novo conjunto de informação sobre o sistema imunitário… e podem bem levar ao aparecimento de doenças auto-imunes, uma vez que as células “mal-comportadas” são as nossas próprias células irritadas, e pouco ou nada as distingue das saudáveis. Isto é algo a pensar da próxima vez que se sentirem tentados a comer algo com gluten (qualquer coisa que contenha trigo ou centeio na sua composição).

Passados alguns anos e muitas aventuras pouco engraçadas, eis-me aqui com controlo total da situação. A solução foi sendo descoberta a pouco e pouco, mais através de acidentes e respectiva análise do que propriamente através de planeamento e conhecimento. Depois de muitos exames feitos ao corpo, ficou determinado que o problema não tinha nenhuma origem médicamente óbvia. Bom, apesar de ser bom saber que não tenho diabetes nem cancro no pâncreas, isso não me ajuda nada a resolver o problema. Depois aconteceu ter de extrair os “dentes do siso”, esses molares tardios tão geneticamente desadaptados à longevidade e higiene oral que agora temos; a “barragem” de antibióticos que se lhe seguiu teve um efeito-surpresa muito positivo: fiquei totalmente curado das hipoglicémias!… durante duas semanas. Nesta altura apercebi-me de que já não sentia a sensação de fome há alguns anos… foi uma revelação de choque perceber que estava sempre a comer para evitar hipoglicémias e que isso só piorava as mesmas. A nossa capacidade de negar o óbvio é espantosa.

Voltei a experimentar com antibióticos e voltei a confirmar: a “limpeza” das bactérias resolvia o meu problema supostamente metabólico/hormonal/psicológico. Bom, não posso estar sempre a tomar antibióticos, certo? esse caminho vai dar à desgraça mais cedo ou mais tarde. De qualquer forma, voltei à minha médica “holística” com esta informação, e após um exame ficou determinada a “contaminação” com Helicobater Pylori no estômago e uma ligeira gastrite. Fiz então a tentativa de erradicação do bichinho, que teve um resultado parcial. Fiquei bom durante duas semanas (onde é que já vi isto), mas depois o mal-estar regressou. No entanto, agora já era muito mais fraco e muito menos incomodativo. Ainda assim, o mal persistia, embora com mais qualidade de vida.

Note-se que a H. Pylori está presente na maior parte da população desde há muito tempo e não costumava ser grande causadora de problemas. No entanto, é possível e acontece agora haver um sobre-crescimento desta espécie que adora amidos e açúcares e habita o nosso estômago, e isto leva ao aparecimento de gastrites, úlceras, e refluxo gástrico. O refluxo gástrico é causado pelo excesso de pressão de gás proveniente da actividade destas bactérias e está directamente ligado ao consumo excessivo de amidos. Esta pressão pode mesmo causar deformação da válvula de entrada do estômago, e a situação torna-se muito difícil de inverter. Felizmente, cortar nos hidratos de carbono é fácil quando se sabe como.

A solução final é no mínimo anedótica. E deixo-a aqui em jeito de prémio para os leitores que tiveram a paciência de ler isto tudo.🙂 Aqui há uns tempos comecei a tomar alguns suplementos, nada de muito avançado, como medida geral de saúde. Uma pequena experiência apenas. Resolvi tomar um multivitamínico e um óleo de peixe por causa do ómega-3. Tudo bem durante uns tempos, mas às tantas começou a diarreia contínua. No capítulo das diarreias até nem era muito má, suportava-se bem. Mas continuava a ser uma diarreia, o que é uma merda. Depois de muitas voltas à cabeça e à barriga, lá resolvi parar com o óleo de peixe. Foi uma semana e meia de diarreia persistente, o que constituiu muito provavelmente um “reset” completo da flora. E quando parou, pararam também as hipoglicémias. Definitivamente.

Ora, andava eu ao fim de 5 anos de sofrimento já a ler coisas radicais como “transplantes fecais” e coisas do género, e afinal só precisava de uma bela caganeira?!… já podiam ter dito, caraças!!🙂

Falando agora a sério, o que se passava era sem dúvida um caso de “flora intestinal errada” (disbiose), o que pode perfeitamente acontecer com muita frequência no ambiente urbano e altamente industrializado em que vivemos. Seja pelo excesso de ingestão de amidos refinados (açúcares e farinhas), seja pela excessiva higiene e consequente falta de exposição a uma boa variedade de bactérias ingeridas, muitos adultos acabam por deixar morrer as bactérias comensais “boas” e desenvolver as “más”. E com a “moda” de amamentar os bebés ao peito o menor tempo possível, esta tendência vai-se tornando cada vez mais precoce. Estas depois estabelecem-se de forma persistente e robusta, e não nos abandonam só com duas cantigas. O resultado final é que as bactérias do intestino acabam por controlar não só a nossa saúde como também as nossas emoções e muito provavelmente desejos alimentares.

A imagem comum das bactérias é a de agentes patogénicos a eliminar à primeira vista. O que eu quero deixar bem claro é que algumas delas (para cima de 500 espécies segundo algumas fontes) fazem parte da nossa saúde e das ferramentas digestivas e metabólicas com que enfrentamos o mundo. Elas já cá se encontravam antes de nós, e provavelmente ainda continuarão caso o mundo chegue ao fim. Nós os animais evoluímos na presença delas, mergulhados nelas, e elas fazem parte do nosso sistema natural. Por isso é absolutamente vital para a saúde a longo prazo tratar bem delas. São elas que nos permitem digerir uma dieta omnívora e basicamente caótica e oportunista (tal como nos agrada mais). Nas raras ocasiões em que tomamos antibióticos, devemos também procurar restaurar a flora intestinal através da toma de pró- e pré-bióticos logo a seguir, antes que as bactérias mais “ruins” se desenvolvam demasiado sobre o intestino “deserto”. Uma vez dada a vantagem de desenvolvimento a um conjunto de espécies benéficas, elas irão defender-se por si próprias contra o assalto das espécies parasíticas… desde que não voltemos a abusar da comida-veneno (porcarias industriais).

Pessoalmente passei a tomar kefir natural feito em casa, na esperança que fizesse alguma diferença, embora sem grandes resultados. Aquilo que aprendi tanto da minha experiência de lidar com o kefir como com este episódio foi que as bactérias comensais se fixam ao nosso intestino também dentro de estruturas polissacarídeas (tal como no kefir) que servem de protecção contra quaisquer ataques, desde os antibióticos aos assaltos de pró-bióticos concorrentes. Por isso à vezes a única maneira de nos libertarmos dessa corja é mesmo através duma forte limpeza orgânica…

~ por Vasco Névoa em Janeiro 23, 2012.

7 Respostas to “Eu e as minhas bactérias”

  1. Por cá vou seguindo a tua aventura na senda da saúde “perfeita” e ao mesmo tempo aproveito para louvar o teu espírito de perseverança e de insatisfação.
    Se não é indiscrição, podes informar-me o número de telefone, ou morada, da tua médica? Onde é que arranjas o kefir?
    Aguardando nova aventura …

    • A médica chama-se Minnie Freudenthal, e até há uns tempos atrás dava consultas no Instituto Cardiovascular de Lisboa e na Clínica do Rosário em Cascais. Neste momento não sei, perdemos um pouco o contacto dada a minha saúde robusta.🙂

    • O kefir é uma cultura bacteriana viva e por isso é bastante difícil de encontrar em lojas. Pode-se encomendar “grãos de kefir” (uma forma liofilizada deste fermento) em algumas lojas online, mas não te sei dizer quais, é preciso procurar. O meu foi-me arranjado por um amigo de um amigo de um amigo…🙂 Ouvi dizer que também aparece às vezes no Lisboa Freecycle, é uma questão de experimentar. Posso oferecer uma pequena quantidade neste momento (para uma ou duas pessoas).

  2. Acrescentei um parágrafo sobre as alergias e outro sobre a H. Pylori.

  3. Lol!
    Saiste-me cá um especialista!
    A Dra Minnie está óptima e recomenda-se, devias ir lá contar-lhe as tuas aventuras baterianas🙂 Ela ia adorar!

    Para mim és a prova de que quem lê os sinais do corpo e não se conforma com as respostas habituais, pode bem encontrar as soluções e quem sabe ter respostas para mais do que o problema inicial!
    Afinal, corpo, mente e alma são parte da mesma coisa. Por isso, Nemo, keep up the good work, still getting younger right?🙂

    Bjo
    M

    • LOL!… é verdade… considerando que há 5 anos atrás eu engolia qualquer coisa que estivesse na mesa à minha frente sem qualquer critério e nem sequer sabia a distinção entre hidratos / proteína / gorduras… eu diria que houve uma pequena evolução!!😀
      Ainda bem que a Minnie está bem. E outra coisa não se esperava de uma senhora da idade dela que tem “tomates” para andar montada numa moto de grande cilindrada (que deve pesar 4 vezes o que ela pesa) todos os dias!!😀 Grande Minnie!

  4. Vasco, obrigado pela tua solícita resposta.
    António

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