A confusão nutricional é agora oficial

A pseudo-guerra à obesidade chegou aos governos e ministérios das finanças, e isto não é a única parte bizarra dos factos…

A Dinamarca passou a sobre-taxar alimentos com gordura saturada. Que mais posso dizer?… são idiotas.

O Reino Unido está a pensar fazer o mesmo. Para os políticos não faz diferença qual é o tipo de comida taxada, e se realmente tem efeitos benéficos na saúde pública; para já, neste contexto de crise, é preciso uma transfusão sanguínea para os cofres do Estado; e se depois se comprovar que estavam enganados podem sempre resolver taxar outra coisa qualquer. Entretanto toca a pagar. Já parece o Estado Português, devem ter aprendido qualquer coisa connosco.

A Alemanha está a pensar num imposto directo sobre a obesidade. Típico raciocínio germânico, frio e objectivo: “não sabemos ao certo o que causa a obesidade, mas se pressionarmos as pessoas gordas elas próprias vão encontrar a solução. Afinal, elas é que são responsáveis pela sua gordura”. Não concordo a 100% com este raciocínio, uma vez que o marketing das comidas “light” e do “fitness” estão na origem do problema e as autoridades até hoje só têm tornado a desinformação ainda mais enraizada (como por exemplo com os conselhos sobre o colesterol e a “roda dos alimentos” ensinada nas escolas). Há uma grande quota parte de culpa do Estado, que anda a regular e a atribuir fundos para as coisas erradas há décadas — e o problema não é só na Alemanha.

Felizmente, nem todos os países estão completamente enganados como estes acima….

A Hungria passou a taxar as comidas processadas com muito açúcar, cafeína, sal, hidratos de carbono. Estou absolutamente espantado pela positiva, embora não concorde com a “restrição por lei ou imposto” — as pessoas respondem melhor à educação do que à Lei ou à Taxação. Não é preciso violar a liberdade de escolha para levar as pessoas a escolher o que é melhor para si; basta informá-las e a maioria assim o fará.

Na Suécia a própria população tem vindo a adoptar de forma inequívoca a preferência por gorduras em vez de hidratos; o mais espantoso é que se trata do primeiro país ocidental em que uma investigação oficial apurou que a dieta “low carb, high fat” está de acordo com a ciência e a prática clínica actuais e dá benefícios mensuráveis para além de qualquer dúvida.

Um excerto que me deixou boquiaberto mas muito feliz: “On January 16, 2008, the National Board of Health and Welfare made their decision after carefully examining all of the evidence presented to them and declared publicly that a low-carb diet is “in accordance with science and well-tried experience for reducing obesity and Type 2 diabetes.”

Os Finlandeses estão aparentemente a seguir-lhes os passos, liderados pelos seus cidadãos diabéticos (tal como em outros países do mundo – um diabético que segue as recomendações oficiais e come muitos hidratos “lentos” não vive muito tempo nem tem saúde nem forças para demonstrações públicas).

Na América do Norte a guerra ainda está no início, com o governo a promover uma “roda dos alimentos” cada vez menos saudável e mais vendida à indústria, e com a população cada vez mais contente por encontrar as alternativas saudáveis (veja-se a enorme lista de blogs ligados ao movimento “low carb” linkados neste site como “The Best Blogs” — cada um deles com uma comunidade de seguidores e praticantes à sua volta). Ao menos ainda não fizeram a asneira de querer taxar ou proibir. Ainda.

Há aqui duas questões de fundo muito importantes:

1 – Há uma tentativa desesperada de controlar a obesidade “por atacado” ou seja, por meios sócio-económicos; anacronicamente nalguns países isso resulta em dificultar o acesso às gorduras, noutros o acesso aos hidratos de carbono. Portanto, é claro que esta malta da política anda às aranhas sem saber o que realmente causa a obesidade, e neste contexto ganha a indústria que tiver o melhor lobby. Quem se lixa é o mexilhão: nós.

2 – Estas medidas, ao entrar em vigor, vão intensificar o fosso entre as classes sociais, uma vez que as pessoas com menos meios vão fugir das comidas taxadas; mas como já vimos que a decisão é meramente político-financeira e não com base científica (senão seria igual em todos os países), prevejo que os países com a mania do “low fat” vão ficar a braços com um problema ainda maior de pobres obesos — e a sobrecarga do sistema nacional de saúde vai ser ainda maior. Neste momento já existe uma desigualdade bastante aparente entre a fatia mais pobre e o resto da população: os mais obesos (especialmente na obesidade infantil) são os mais pobres, porque a comida mais barata já é aquela que é rica em hidratos de carbono refinados. Sobre-taxem a “comida a sério” (a que tem gordura) e vão ver o tiro a sair pela culatra nos países activamente desinformados pelos interesses industriais.

Se no caso Alemão a razão é claramente estarem à rasca de dinheiro e não passar de uma tentativa de recuperar algum para o sistema nacional de saúde, no caso do Reino Unido eles parecem mesmo acreditar que a gordura engorda as pessoas e os hidratos é que são a salvação. Santa ignorância!!! No caso da Dinamarca, um dos maiores produtores de lacticínios na Europa, parece-me mais uma manobra de guerra industrial. Não acredito que um país com tanta tradição no leite e derivados tenha caído na esparrela da “gordura saturada é má” sem uma grande dose de lobbying de outras indústrias.

Este mundo ocidental está cada vez mais partido. Aliás, acho que a palavra certa é “esquartejado”; é isso que acontece quando uma pessoa é puxada em todas as direcções com a força de animais de carga, como se fazia na Roma antiga: desfaz-se grotescamente em pedaços.  Com tantos interesses industriais a envenenar os governos e a academia, tenho cada vez menos esperança na vitória da Ciência sobre a escuridão mercantilista. Sinceramente vejo isto tudo muito negro.

Se por um lado não concordo nada na taxação de comidas julgadas “menos saudáveis” (isso é um problema e uma liberdade do cidadão), por outro lado fico arrepiado com a possibilidade dos nossos governos tomarem a decisão estupidamente errada e ignorante de “proibir” a comida com muita gordura. Caramba, já é tão difícil encontrar leite gordo e natas gordas nos supermercados agora!! Com um imposto novo sobre este tipo de comida, as opções iam reduzir-se ainda mais, podendo chegar ao ponto em que é preciso uma decisão radical (como emigrar!) para evitar ser envenenado legalmente com a bênção do Estado!!!

Valham-nos países sensatos como a Hungria, a Suécia, e a Finlândia; espero que tornem a realidade suficientemente gritante para acabarmos com este “bullying” desesperado dos lobbies cerealífero e farmacêutico…

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~ por Vasco Névoa em Outubro 7, 2011.

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