Openmoko, revisitado

Por mim, continuo a usar o meu Neo Freerunner todos os dias como telefone normal. Mas em relação às funções avançadas, como por exemplo o acesso GPRS à Internet e MMS, é para esquecer. Entre hardware mal desenhado e mal testado, e software desenvolvido por pessoas que fizeram o seu melhor sem ter acesso verdadeiro a toda a informação necessária, o resultado é infelizmente caótico.

Não me lembraria de revisitar este assunto, não fosse o facto de andar eu a reciclar uma motherboard de Freerunner no meu projeto de veículo híbrido humano/elétrico. Já que aqueles 300€ não deram um bom smartphone, ao menos vão dar uma excelente plataforma robótica.😉

Descobri portanto um belo blog editado por Andy Green, que trabalhou no projecto Openmoko e que recolheu online as lições aprendidas durante o desenvolvimento do Freerunner (e do Wikireader). Para qualquer “developer”  de sistemas embebidos, é uma leitura fundamental. As minhas suspeitas sobre a pouca qualidade de desenvolvimento e teste deste produto, inferidas como utilizador acéfalo e como engenheiro de software a tentar “fazer coisas” com aquilo,  confirmaram-se. Foi mesmo feito à pressa e em cima do joelho. Isto sustenta a profunda desilusão que sinto desde que comprei o bichinho, ao ver que um engenheiro de produção de uma grande e experiente empresa (a FIC) pode perfeitamente originar uma spin-off sem pés nem cabeça (a Openmoko), mesmo quando apoiado por bons “hackers”. No final, é a organização de pessoas e recursos que tem impacto nos resultados, não há volta a dar-lhe. “Não se fazem omeletes sem ovos”, e “9 mulheres não têm um filho em 1 mês” são dois ditados que me vêm à cabeça, assim de repente, da minha própria experiência profissional. Mas enfim… chega de rezinguice.

Entretanto, outras pessoas reconheceram a pobre qualidade de execução mas grande potencial da ideia. Vai daí a “Golden Delicious” decidiu (para grande espanto meu) refazer a motherboard do Freerunner GTA02 como deve ser: não só com UMTS e todas as mariquices que hoje é normal nos smartphones, mas também com outras não tão comuns (Rádio FM, Altímetro, Bússola) e acima de tudo feito com tempo e qualidade. O GTA04 traz esperança de ver este “sabonete” a funcionar como deve ser para aqueles utilizadores que não se importam de largar mais algumas centenas de €uros para fazer o upgrade, reutilizando o resto dos componentes (caixa, LCD, antenas, etc).

Farei eu o upgrade?… não sei, é muito “pastel”. Desta vez vou esperar pelos resultados dos “early adopters”, e ver se vale a pena. Se valer, fico com mais uma motherboard de GTA02 para construir uma nova Trike, não é desperdício.😉 Entre os pormenores simpáticos da “Goldelico” contam-se uma lista de mail em que a equipa de desenvolvimento revela em relatórios frequentes as suas vitórias e dificuldades com total transparência, o que é uma diferença refrescante face ao processo excessivamente (e mal) controlado da Openmoko. A meu ver, a simplicidade e a calma triunfam sempre sobre a “sofisticação” e “dinamismo empresarial”…😛

Também da Goldelico há umas plaquinhas de expansão do GTA02, para quem gosta de robótica; têm mais e melhores sensores do que o original: acelerómetros, giroscópio, altímetro, termómetro, LED drivers, enfim, tudo o que dá jeito para navegação robótica. E cabem dentro da caixa original.🙂

Afinal, o projeto do Neo não morreu. Antes pelo contrário, o seu espírito está forte naquela parte da população da qual nunca devia ter saído: os hackers. Vamos ver onde nos leva desta vez.

~ por Vasco Névoa em Julho 7, 2011.

Uma resposta to “Openmoko, revisitado”

  1. Curiosamente, decidi seguir por mim próprio uma das lições de Andy Green: tal como ele, eu também montei o ambiente de cross-development na minha máquina para gerar imagens de rootfs para o GTA02. E tal como ele, também fiquei farto e frustrado do processo longo, tortuoso, e inchado. Para vermos o ridículo, a instalação total levava mais de 20 GB para construir uma imagem binária com uns meros 128MB. É literalmente a montanha que pariu um rato, e a probabilidade de erro é praticamente 1.
    Por esta razão decidi fazer todo o desenvolvimento do projeto em Python e Bash, linguagens interpretadas extremamente ágeis e que nada requerem de “extras” – faço desenvolvimento direto sobre o “target”, sem compilar nada. É uma maravilha.🙂 E diga-se de passagem que os 400MHz do GTA02 chegam perfeitamente para robótica em Python.

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