O gene egoísta dos Vs

Tenho acompanhado a nova encarnação de 2009 da série “V” com algum interesse. Embora já pouco me lembre da versão de 1983, aquela cena da miúda a engolir um coelho vivo ou coisa do género ficou gravada no meu córtex visual infantil e vai daí quis saber como acabava a história. Mas hoje ganhei um novo nível de respeito pelos argumentistas deste programa televisivo enquanto lia mais um capítulo do livro “O gene egoísta” de Richard Dawkins.

Assim sendo, há uma quantidade de pormenores técnicos na série que me deixam a franzir o sobrolho, como por exemplo por que raio é que o “Tyler” (o miúdo humano que está a ser preparado como “zangão” para fertilizar a nova rainha dos extraterrestres) só tem metade dos genes que um ser humano normal teria. Tal como o próprio “geneticista de serviço” na série comentou, parecia-me algo bastante improvável.

No entanto, eis que leio uma explicação de Dawkins sobre como os “zangãos” de várias espécies de insectos sociais sofrem exactamente desta mesma condição: têm todos apenas os genes maternos (e apenas metade deles), e portanto não têm pai! Isto resulta numa quantidade de “deturpações” interessantes no jogo genético simétrico a que estamos habituados, como por exemplo uma relação genética de parentesco entre filhos da rainha de 3/4 em vez de 1/2 entre irmãos como acontece connosco.

Outra consequência menos evidente é que se gera uma competição interna na colmeia entre rainha e descendentes, estando a rainha predisposta a gerar 50% de machos e 50% de fêmeas, e as operárias predestinadas a subverter esse jogo e desviar as proporções para 3 fêmeas para cada 1 macho, interferindo na alimentação e outros factores ambientais à volta da rainha. E este aspecto também acaba por aparecer na série, na forma do conflito entre as 3 sucessivas gerações de rainhas que agora lá se vêem.

Eu sei que é “apenas uma obra de ficção”, mas o facto é que estas obras medem a sua grandeza tanto pela sua ousadia e imaginação como pela proximidade à nossa realidade. Afinal de contas, Ficção Científica é apenas Crítica Social vestida com naves espaciais.😉

Outro golpe de genialidade no enredo é a meu ver a exploração da auto-manipulação biomédica e genética de uma espécie extraterrestre altamente evoluída. Isto permite-lhes enveredar por assuntos tabu ou eticamente reprováveis na nossa sociedade com total à-vontade, indo a limites impensáveis sem nos fazer confusão nenhuma. É a “guerra” entre uma espécie que tem o poder de fazer de Deus e a sua própria natureza, com muitas emoções humanas à mistura.

Transplantar as emoções humanas para os “lagartos” como efeito secundário do seu próprio plano de conquista terrestre é também um truque de primeira classe, e embora siga de certa forma a receita da “Guerra dos Mundos”, funciona muito bem a dinamizar a acção. Esta série é um campo experimental de teses sobre Religião, estrutura Social, Poder, Família, Sobrevivência, e Ética. As partes de ficção científica são só para disfarçar.🙂

Como crítica à série, já que eles têm obviamente alguém que percebe de genética a trabalhar para eles, podiam ter aproveitado essa informação logo que ela aparece à frente do biólogo para fazer extrapolações sobre os planos maquiavélicos dos “Visitors” e com isso ganhar vantagem estratégica na guerra… mas enfim, talvez isso fosse demasiado “pesado” para a audiência.😀

E pronto, para aqueles que não ligam peva a estas coisas, há sempre a Morena Baccarin (a “Inora” de “Firefly” e “Serenity” ou a “Orisi” da última temporada de “Stargate SG-1”) que apesar de já não ser tão suculenta como há 6~7 anos atrás nessas outras séries ainda fica muito bem no papel de rainha má; e também a Elizabeth Mitchell (a “Juliet” de “Lost”) que continua a dar cartas no que toca a desempenhar um papel de difícil equilíbrio entre a fragilidade materna e a dureza da agente operacional (agente dupla, ainda por cima!).

Aahh… …as mulheres decididas. Sempre um prazer.😉

Elizabeth Mitchell

~ por Vasco Névoa em Fevereiro 23, 2011.

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