Manual do Design Sustentável

Este livro é de longe o texto mais importante e fundamental que já li em toda a minha vida. Não exagero quando digo que “Cradle to Cradle: remaking the way we make things” é a primeira pedra do edifício do futuro da Humanidade.

(via Rodrigo Melo, um outro grande interessado em Engenharia Sustentável – obrigado!)

Neste livro o arquitecto William McDonough e o químico Michael Braungart explicam-nos o desespero da indústria actual e falam-nos da solução positiva do Design “Cradle to Cradle” (“Do Berço Ao Berço”), apresentando as provas práticas dos projectos já feitos na área. Compilei também uma playlist youtube com os melhores vídeos que pude encontrar sobre o assunto. Alguns deles são verdadeiramente chocantes, como as revelações sobre os brinquedos da Mattel, os travões da Volkswagen, ou a qualidade do ar em edifícios de escritório.

A edição original americana do livro, para além de explicar o conceito de indústria limpa, também é ela própria exemplo de um produto eco-sustentável (“eco” de Ecologia e também de Economia) pois é impresso em folhas de plástico reutilizável e tinta lavável, ambos 100% não-tóxicos.

Para abrir o apetite para o livro e para os vídeos, construí um pequeno resumo em forma de entrevista fictícia.😉 …

– O que quer dizer “Cradle to Cradle“?

– A indústria, tal como tem sido desenvolvida desde a revolução industrial, está montada como uma máquina unidireccional que empurra materiais desde o berço até à sepultura (“Cradle to Grave”); o berço está nas matérias-primas que extraímos do ambiente terrestre e a sepultura são as lixeiras, aterros, incineradoras, e oceanos. Nós estamos a trabalhar há muito tempo para mostrar às pessoas que a nossa indústria pode e deve montar-se em ciclo fechado, com todos os materiais a serem infinitamente reutilizados dentro do processo industrial ou dos processos naturais, aumentando a qualidade de vida de todas as espécies vivas e nunca mais precisando de gerir a situação dos resíduos.

– Em que é que isso é diferente dos “3R” (Reduzir, Reutilizar, Reciclar)?

– A cultura actual de eficiência industrial promove a sensação de culpa. Tipo “somos a espécie dominante no planeta, temos a responsabilidade de guardiões do ecossistema, mas infelizmente dependemos duma indústria suja para satisfazer as nossas necessidades e isso arruína tudo”. Há uma convicção de que a espécie Humana é uma doença do planeta, e que este ficaria melhor sem nós. É este raciocínio que nos leva a querer “Reduzir” a produção, “Reutilizar” os produtos, e “Reciclar” os resíduos. Esta carga emocional leva muitas pessoas e empresas a evitar o problema e a inventar meios fracos ou até cínicos de compensação. A nossa mensagem é que nada disto é necessário, se a indústria estiver bem desenhada. De facto, verifica-se que poderemos ser tão perdulários quanto quisermos com os materiais e energia dentro do ciclo fechado “Cradle to Cradle” sem provocarmos consequências nefastas no ecossistema e na saúde pública. Basta desenhar melhor os produtos e os processos.

– Então não vale a pena continuar com os 3R e com a optimização energética, como por exemplo o “upgrade” das centrais energéticas e das fábricas e a hibridação dos transportes para aumentar a sua eficiência energética?

– Numa indústria de ciclo natural, nada disso é crítico nem necessário. O actual sistema dos 3R é apenas benéfico como medida temporária enquanto convertemos a indústria. Se não amontoarmos a nossa matéria-prima em lixeiras nem a incinerarmos, e se utilizarmos bem a energia que nos chega do Sol, temos mais recursos do que precisamos. De futuro não pode haver ligação entre energia e poluição, nem entre produtos e poluição. A poluição tem de passar a ser um conceito apenas histórico. Uma árvore de fruto produz milhares de vezes mais flores e frutos do que aquelas que efectivamente germinam e se tornam árvores novas, e no entanto ninguém considera isso desperdício ou problemático. A Natureza “desperdiça” materiais e energia porque tudo faz parte de um ciclo, não há acumulações em “lixeiras”, tudo é útil para alguém. A mensagem principal é que temos de escolher fazer as coisas correctas; é estúpido continuar a fazer as coisas incorrectas, principalmente se as fizermos com maior eficiência!

– Isso parece bastante utópico. Como se faz?

– Basta olhar com atenção para os exemplos da Natureza, e incorporá-los no nosso design. As formigas existem em maior número e massa do que as pessoas no planeta, e apesar de também construírem sociedades complexas e movimentarem enormes quantidades de recursos naturais, não são um problema para ninguém. Nós somos a única espécie que produz resíduos incompatíveis com a saúde, seja a nossa ou a das outras espécies. Na maioria dos casos os próprios produtos são perigosos logo ao saírem da fábrica, ou seja, estão mal desenhados. O primeiro passo é redesenhar os produtos para que não incluam matérias tóxicas. O segundo é desenhá-los por forma a serem eles próprios “nutrientes” de uma das duas cadeias planetárias: a biológica e a tecnológica. Os produtos humanos devem poder usados em total segurança e no fim da sua vida útil ser digeridos por uma ou mais espécies vivas; as partes não digeríveis devem poder ser reutilizadas como matéria prima industrial de primeira qualidade, sem custos excessivos. É este o design que perseguimos, e temo-lo feito com sucesso em várias indústrias. E funciona tanto para tapetes e sapatos como para automóveis e edifícios e mobília.

– Como identificamos os processos e os materiais correctos?

– Foi com este fim que desenvolvemos bibliotecas de materiais e uma base de dados continuamente trabalhada, onde as empresas podem procurar materiais alternativos aos tóxicos e informar-se correctamente sobre as consequências de cada material. Além disso, a longa experiência industrial dá-nos um pouco mais de tolerância que a Natureza, pois podemos utilizar algumas matérias perigosas em segurança. Por exemplo, baterias eléctricas com Cádmio são um mau design porque o metal pesado pode facilmente libertar-se para o ambiente (e aqui estou a falar tanto de leitos de água como quartos de criança); no entanto um painel solar com Cádmio é perfeitamente seguro dado que está sequestrado de forma estável e só poderá ser recuperado em fábrica. O mesmo se passa com o Chumbo nos circuitos electrónicos. O maior problema que temos de resolver é a contaminação; a maior parte dos produtos está carregada de aditivos tóxicos, principalmente os plásticos. Os mais preocupantes são os cancerígenos e os disruptores endócrinos, que infelizmente são bastante comuns em brinquedos. Até o aço dos automóveis é de difícil reutilização porque está carregado de químicos nocivos da pintura, o que torna o processo demasiado caro ou poluente. Felizmente consegue-se redesenhar os produtos de forma saudável, e a maior parte das vezes até fica mais barato! Quanto aos processos, a inspiração está na Natureza à nossa volta: um produto acabado não-tóxico é uma matéria-prima valiosa para outro (ou o mesmo) produto. Aqui está o verdadeiro desafio aos designers, quer sejam engenheiros, arquitectos, ou quaisquer outros criadores – mas felizmente já há muito trabalho feito e pessoas a trabalhar neste campo.

 

É incrível que estes dois senhores já andem a trabalhar nisto desde 1984 e a falar disto em público há mais de 7 anos e só agora ouvi falar. :(…

Depois disto, o que resta? Talvez certificar-se como produtor sustentável, tal como as restantes empresas que já usam com orgulho o selo “Cradle to Cradle”…

Mesmo que se ignore a certificação, pode-se sempre absorver e aplicar os princípios base desta filosofia na concepção de novos produtos e da sua cadeia de produção… no fim, todos ganhamos.😉

Este é um livro incontornável para os cépticos que não acreditam que é possível desenhar produtos e serviços sem impacto negativo ambiental e humano, para os cínicos que não acreditam numa indústria eco-responsável e simultaneamente lucrativa, e para todos nós que ansiamos por respostas sobre o caminho a seguir para podermos um dia orgulhar-nos de todas as nossas criações sem ter de pedir desculpa à mãe natureza.

William McDonoughWilliam McDonough

~ por Vasco Névoa em Fevereiro 21, 2010.

6 Respostas to “Manual do Design Sustentável”

  1. Acabei de descobrir um artigo extremamente revelador sobre o William McDonough e o seu império Cradle-to-Cradle. Ao que parece, Bill é um auto-enamorado idealista que está mais preocupado com a sua Propriedade Intelectual do que propriamente em mudar o mundo para melhor – e isto para mim é um pecado mortal. Tristemente, muitos dos projectos que ele menciona em público falharam tanto por incompetência técnica como por ganância.

    É pena descobrir que o ídolo tem pés de barro – e ainda por cima mal-cheirosos; no entanto, a verdade permanece: ele foi, e ainda é, um arauto da mudança que temos de concretizar, e trouxe para a ribalta dos mercados o problema da manufactura sustentável. As ideias (discutivelmente “dele”) têm valor por si próprias, e não devem ser impedidas de circular e florescer. Apenas não podemos contar com ele para implementá-las na prática, mas isso não é problema, já que na realidade o trabalho sempre teria de ser feito por toda a população de qualquer forma.🙂

  2. Oi visite o meu blog de design-consumo e meio ambiente.Desde já agradeço a visita.Até mais.

  3. Numa surpreendente manobra de positivismo, nasceu na Califórnia o Instituto de Inovação de Produtos Verdes, fundado com a ajuda de McDonough e Braungart, mas também com muitas personalidades influentes e endinheiradas por trás. Dá gosto ver nascer iniciativas non-profit ao nível estatal para impulsionar a agenda da sustentabilidade industrial.🙂

  4. Mais um livro para comprar:

    http://www.amazon.co.uk/gp/product/0137143923/ref=ord_cart_shr?ie=UTF8&m=A4MAXBOL4G9OC

    Não consigo mandar-lo vir da amazon😦

  5. Oi Passe lá no meu blog de design sustentável,obrigado, até mais.

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