Um admirável mundo novo

Lembro-me de, por alturas do 5º ou 6º ano de escolaridade, andar fixado no problema das cidades.

Tudo começou com um desenho inocente duma cidade redonda, e a intenção era desenhar uma rede de estradas que minimizasse os deslocamentos. É claro que isso incluía especificar zonas pré-destinadas para residência, indústria, agricultura, lazer, etc… Desenhei cidade terrestres e submarinas, e tentava torná-las auto-suficientes. Claro que não tinha capacidade nem experiência para um problema tão complexo, e acabei por desistir. Nunca mais pensei nisso até recentemente, por causa da sustentabilidade e da política (duas coisas em péssimo estado hoje em dia).

Tenho chegado frequentemente à conclusão que os estados-nação são organizações demasiado artificiais para resultarem bem; a união “à força” de muitas regiões diferentes debaixo de um só governo gera muitos dos problemas que pretende resolver, como as injustiças do centralismo e os conflitos do separatismo. É por isso que me agrada o potencial das cidades-estado. Quando se fala de cidades-estado, vêm à memória os tempos medievais; mas o modelo não tem de ser tão militarizado e competitivo como era nesse tempo. Penso que a situação actual de nações-estado é perfeita para executar um plano de descentralização absoluta, gradualmente até chegarmos em segurança às cidades independentes, tanto económica como politicamente – juntamente com as suas grandes áreas circundantes de onde provêm os recursos naturais, claro.

Porque me lembrei agora disto? Porque o 7º Programa Quadro de Investigação e Desenvolvimento Europeu (FP7 para os amigos) está a albergar um número elevado de projectos de estudo e prova de conceito de sistemas sustentáveis, e entre eles, aparece a cidade-modelo de Masdar, no Dubai: um idílio que não produzirá dióxido de carbono nem resíduos.

masdar

Sim, é certo que a cinematografia (e ainda mais, a literatura) estão cheias de histórias apocalípticas sobre tais projectos de sociedades utópicas falhadas (THX1138, 1984, etc.), mas essas histórias são exercícios de estilo baseadas em pressupostos simplistas – e é aqui que entra a diferença: a Engenharia é a arte de concretizar o sonho com base no realismo.

Também é certo que muitos resíduos e dióxido de carbono irão ser produzidos na preparação da própria cidade; mas é preciso ter em conta duas coisas: 1 – que esta é a primeira instância, e por isso será a mais errada e custosa a todos os níveis, e que as posteriores irão exigir um custo ecológico bastante mais baixo; 2 – que a engenharia se guia inevitavelmente por critérios económicos (que aqui incluem o impacto ambiental, para além do financeiro) e portanto a cidade terá de ser capaz de dar “saldo ambiental” positivo quando se considera o conjunto (planeamento + produção + exploração).

Por mim, torço para que Masdar nos traga algumas lições positivas e dê o exemplo ao resto do mundo. Só espero que não seja apenas um enorme golpe publicitário de um dos maiores produtores de petróleo mundiais…😉

~ por Vasco Névoa em Julho 8, 2009.

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