A escola está obsoleta

Sir Ken Robinson alerta-nos que todo o sistema escolar está completamente obsoleto. A mega-estrutura estandardizada e omnipresente aniquila a criatividade das crianças com a pressa de as formatar para o mercado. Infelizmente, aquilo que era válido nos tempos da revolução industrial já não é válido na era da revolução da informação, mas a escola não se importa. E a crise recente poderia ter sido evitada, ou melhor ainda, poderíamos sair dela mais depressa e com mais segurança, se tivéssemos mais gente criativa, mais diversidade económica, e menos “clonagem” comercial – tanto em produtos como em modelos de negócio. A Escola, como existe hoje, está melhor adaptada para perpetuar a sua própria estrutura do que para satisfazer a necessidade de profissionais.

Carl Honoré é um convertido. Costumava ser um “trabalhólico” viciado em velocidade, mas viu-se forçado a reequacionar tudo no dia em que deu por si a tentar “espremer” em 60 segundos a leitura duma história de deitar ao seu filhote. Esta “anedota” é provavelmente sintomática de tudo o que está errado na nossa sociedade: andamos sempre a correr atrás da produtividade, e por isso não temos tempo para a nossa própria vida. E os filhos são “formatados” da mesma forma – apesar de nos custar deixá-los na escola, vendo as suas ilusões e inspirações coagidas em fila indiana, não temos outro sítio onde os deixar enquanto vamos para “o trabalho”. O mesmo trabalho que muitos de nós nem sequer gostam, que fazem apenas por necessidade de sobrevivência. Que mensagem estamos a transmitir aos nossos filhos? Que a vida é uma merda, mas é assim mesmo que tem de ser. Isto, meus amigos, é pura falta de imaginação e comodismo. Ainda bem que todas aquelas pessoas e instituições de que Carl fala foram capazes de recuperar o gosto pela vida.

PS Pirro revolta-se contra a tirania do sistema escolar e exulta-nos à recuperação da criatividade e à estimulação da diferença individual como única maneira de sobreviver às exigências do mundo real e globalizado. Ela defende a filosofia dos “unschoolers“, ou seja, que a escola é tão má e faz tão mal às pessoas, que o melhor mesmo é não a frequentar nem sequer seguir o seu currículo; Aprender é algo que as crianças fazem naturalmente e com gosto – gosto esse que é estragado pela escola logo em tenra idade. Mais uma vez, a individualidade é sacrificada em prol de uma homogeneização para a indústria. É uma voz radical que vale a pena ouvir para pôr toda a questão em perspectiva.

Dave Pollard conta-nos a fantástica experiência pedagógica que gozou no 11º ano, em que total liberdade (leia-se: não ter de ir às aulas) foi concedida a quem tivesse boas notas. Resultado: um grupo heterogéneo de pessoas lutou por essa oportunidade, e passado pouco tempo consistiam uma espécie de “tertúlia” académica invencível e indivisível, tão rica nos conhecimentos adquiridos em todas as áreas do currículo como fora dele, que foram acusados de “fazer batota”. A diferença era que eles estavam verdadeiramente motivados, apaixonados pela aprendizagem, e cobriam as matérias da escola em menos de uma hora por dia, deixando o resto do dia livre para explorar o resto do mundo. Este é o verdadeiro potencial humano, que a escola está a desperdiçar.

Pessoalmente, eu conheço uma rapariga “estragada” pela escola. Mas só quando comecei a estudar redes neuronais (a composição intrínseca do nosso cérebro) é que percebi a profundidade a que a lavagem cerebral pode chegar, e os estragos que a escola pode fazer nas pessoas sob o pretexto de as tornar “produtivas”. Ironicamente, foi numa aula que vi a feia realidade: Eu tive sorte, ela teve azar.

É um facto científico reconhecido que as redes neuronais podem sobre-aprender, ou seja, perdem a sua capacidade de interpretação e tornam-se meros gravadores. Isto acontece quando elas são expostas exageradamente à mesma informação – quando se “empina” a matéria. A vantagem principal das redes neuronais é a sua capacidade de identificar padrões em informação que nunca antes tínhamos encontrado – é isto que permite aos animais inteligentes sobreviver e adaptar-se em situações novas. E é disto que uma sociedade humana saudável precisa.

Aposto que muitos de vocês conhecem pessoas assim: “marrões” que absorvem a matéria como esponjas, para as debitar no exame e esquecer tudo a seguir. São sempre aqueles que perguntam exactamente quais os capítulos que saem no teste, e procuram desesperadamente os apontamentos de anos passados e testes resolvidos – tudo o que lhes possa apontar quais os parágrafos a decorar e as respostas-tipo. E depois fazemos-lhes uma pergunta de interpretação, e sai disparada uma resposta ipsis verbis do livro, engatilhada na ponta da língua. Não adianta insistir alterando a pergunta ou raciocinando por absurdo: eles vão sempre convergir para aquele pedaço de informação, atómico, indivisível, omnipotente na sua capacidade óbvia de satisfação da pergunta. Afinal, o que é preciso é ter boas notas. E o pior é que também há muitos professores assim.

É claro que estas pessoas são incapazes de compreender aquilo que estão a debitar. E portanto, incapazes de contribuir para o ensino ou evolução da arte estudada (nem sequer para a sua simples aplicação). E isto é uma pena muito maior do que se pensa – não é um caso de triste incompetência, mas sim um caso de homicídio intelectual em massa! Durante muito tempo guardei muito pouco respeito por estas pessoas; não são preguiçosas nem parecem ser burras, e no entanto recusam-se a pensar. Tudo o que sabem é inútil. São tão inertes como uma enciclopédia, e ainda por cima o caruncho da memória come-lhes as páginas. Findo o meu curso superior, a melhor aluna da minha turma foi servir cafés num escritório, e mais tarde trabalhar na caixa de um supermercado. Era suposto ser uma Engenheira. Eu que nunca fui grande coisa na escola (e ainda não sou), fui fazer algo que me divertia e relativamente bem pago. O que correu mal então?

Eu tenho uma teoria: a escola falhou completamente ao indivíduo.

Onde estaria a minha colega hoje em dia, se a escola lhe tivesse dado a mesma oportunidade que deu a Dave Pollard? E onde estaria eu??!!…

No caso da minha amiga, penso que ela simplesmente activou os mecanismos de sobrevivência: desde muito cedo que não havia qualquer ressonância ou empatia entre ela e as matérias dadas, ou o método pedagógico usado; nada daquilo fazia grande sentido nem guardava grandes mistérios desejados; logo, para sobreviver, tinha apenas de decorar e satisfazer o ego dos professores.  E assim fez; tornou-se exímia na arte de agradar à classe dirigente, e lá fez a escolinha toda e tirou o seu curso com boa nota, sem sequer compreender nada daquilo que decorou. Absolutamente nada. Rapidamente deixei de lhe fazer perguntas técnicas, pois a minha curiosidade apenas gerava conversas estranhas e embaraçosas.

Felizmente, o seu curso de médica dentista contém uma forte componente de trabalho manual, o que a meu ver está a ser fundamental na sua recuperação intelectual; é através da prática real que ela, sem ter de pensar nisso, acaba por converter todos aqueles pedaços de informação em conhecimento vivo. Ela mesma confessa que tem frequentemente momentos de “Aah!… que giro!… então era isto!…”, ou seja, nunca durante o curso teve a oportunidade de construir, visualizar, e simular na sua mente a matéria que lhe apresentaram. Nada podia estar mais longe de mim, que páro a aula do professor naqueles instantes em que a lição não “encaixa” no meu “simulador” pessoal… é para isso que existem as dúvidas. É para ensinar que os professores lá estão.

Podem então os defensores da Escola afirmar que a estratégia é um sucesso? Que apesar de estarem a produzir macaquinhos amestrados aos milhões, eles são capazes de se adaptar à realidade e tornar-se produtivos?

Eu discordo. Acho que esta rapariga também teve sorte, na medida em que ainda sobrou alguma iniciativa no fim do processo – o suficiente para o seu cérebro “voltar a pegar” por volta dos 27 anos. Isso, e a falta de dentistas no Reino Unido, fizeram com que esta profissional inexperiente e insegura fosse paga a peso de ouro. No entanto, ainda tem um longo caminho de desintoxicação pela frente. Infelizmente, outros não têm tanta sorte; ou saltam fora do sistema de ensino (ainda bem para eles, agora que penso nisso), ou ficam tão deprimidos que se suicidam (ou pelo menos tentam, ou andam sempre a pensar nisso), ou simplesmente chegam ao fim com o estigma mental de não prestarem para nada, de serem apenas mais um “canudo” nas caixas de supermercado, ou seguem em frente mesmo após a morte cerebral e tornam-se funcionários públicos.

O que está mal não é ser caixa de supermercado; o que está mal é sê-lo sem ter vontade de o ser, principalmente depois de tantos anos a estudar em sacrifício. Sacrifício esse que não faz sentido existir.

Felizmente, eu não sou o único a pensar assim; aliás, em Portugal, estou cerca de 40 anos desactualizado.🙂 Os verdadeiros heróis da Revolução foram aqueles que durante a ditadura albergaram e desenvolveram, com grande coragem e fé, um movimento  pedagógico “subversivo” dentro da própria escola; chamara-lhe “Movimento Escola Moderna“, um termo suficientemente amorfo para não causar demasiados problemas com a PIDE.

Esse movimento, tal como os “unschoolers” e os “home schoolers”, sobrevive até hoje e parece estar bem de saúde. Existem bastantes escolas destas em Portugal que aplicam os princípios de Democracia e Cidadania (acima do currículo!) desde a primária, o que se traduz na defesa da autonomia e colaboração de cada criança, e na potenciação dos seus interesses pessoais como mais-valia para a sociedade. Vale a pena dar lá um saltinho e ler alguns dos artigos que relatam experiências e métodos do mundo real.

Em suma, a escola como a maioria de nós a conhece, está irremediavelmente partida. Embora algumas pessoas escolham deitá-la fora, ainda há esperança para o sistema – desde que ele não se esqueça que está cá para servir a sociedade, e não o contrário.🙂

~ por Vasco Névoa em Junho 2, 2009.

2 Respostas to “A escola está obsoleta”

  1. Embora ainda não tenha analisado os links que foram colocados, concordo em grande medida com o texto. A escola está desactualizada, e grnade parte dela deve-se a pessoas também desactualizadas. Eu sou licenciado em ensino,e para grande tristeza minha, não estou a leccionar. Mas passei um ano de estagio a observer estes factores, em que a infromação era debitada. Os professores muitas vezes esquecem-se que estão a lidar com pessoas e não com sorvedouros de inrfomação ou automatos. E actualmente, os unicos casos em que a escola formal desvia são os casos dos CEFs e EFAs, em que os curriculos, apesar de terem de cumprir algumas alineas, tem maior flexibilidade.

    A escola está construida para um individuo iniciar-se no primeiro ano e terminar no 12 sem se questionar, sem ter um papel activo na aprendizagem que nao o absorver. Muitas das vezes, as perspectivas do ensino-aprendizagem são ignoradas em função do curriculo e da falta de vontade de ensinar e não tanto de aprender.

    O curriculo deve ser um guia, e não uma certilha de principios. Mas neste momento os resultados são o que importa e não a quaildade. Se assim fosse, duvido que a escola actual e formal não pudesse reinventada por quem quer la estar.

    Para terminar, quero só deixar uma nota analoga a comparação aqui indicada. Durante a minha carreira escolar, pré-universitária, fui um aluno que seria visto como exemplar, dado que boas notas e comportamente consequente. Mas não era amorfo, era interessado, pois escolhi aquilo que gostava. Quando entrei na faculdade, e contra todas as indicações, escolhi o ensino porque gostava de poder dar algo e ajudar as construir vidas e sonhos nos jovens.
    No final da faculdade, acabei com a chamada media normal, e tive um colega com uma media superior: A diferença foi que eu dava as aulas com uma folha com tópicos, e por vezes 50% da aula éra off-topic, para poder ir de encontro ao que os alunos queriam, enquanto que ele tinha tudo estruturado ao nivel quantico(!) mas se a pergunta fugisse da matéria, as ligações atómicas quebravam-se e gerava-se o caos…
    No entanto, na graduação anual do concurso dos professores, vai ficar sempre a minha frente. Portanto a escola e o sistema escoalr também não querem mudar…

    • Compreendo-te, Dash. É também parte da razão pela qual eu próprio não estou no ensino, apesar de já ir no meu 2º mestrado.
      Tenho muito pouca fé no sistema, apenas tenho fé nos poucos exemplos positivos que vejo.
      Apenas quero clarificar uma coisa: eu não tenciono atacar os alunos que têm boas notas; quero sim chamar a atenção para a armadilha em que alguns desses alunos caem ao sistematizar a aprendizagem em função exclusiva dos resultados escolares; isso é o erro grave que quero mostrar aqui: empinar matéria para satisfazer critérios de avaliação não nos dá ferramentas válidas para encarar o mundo fora da escola.
      O sintoma claro de que algo não está certo é visível quando testamos o conhecimento de alguém: se a pessoa responde sempre com a mesma ladainha às perguntas, sem ter capacidade de abstrair e construir novo conhecimento, então a escola falhou completamente e essa pessoa foi mesmo transformada num autómato.

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