O caminho da felicidade

Sim, este vai ser mais um daqueles textos lamechas e generalistas de psicanálise barata… ou talvez não.

Toda a gente quer ser feliz, não é? Parece-me óbvio; aliás, é tão óbvio que até os Norte-Americanos enfiaram a “procura da felicidade” na sua Constituição (ou na carta de direitos, ou lá o que é). Anyway, toda a gente quer ser feliz.

Mas alguém sabe realmente o que é a felicidade? À parte do Eddie Jillette, que diz que “Happiness is a girl with freckles on her tits“, acho que ninguém na realidade sabe.

Falando agora a sério, e segundo alguns especialistas, existem 3 níveis ou tipos de felicidade:

  1. Recompensa Imediata (“Play”);
  2. Compromisso (“Flow”);
  3. Missão (“Meaning”).

Os nomes em Português são traduções minhas. Os nomes em inglês são do Martin Seligman. A mensagem dele é: a felicidade douradora, aquela que mais perseguimos, tem origem na profundidade daquilo que fazemos; se a nossa acção é superficial (“Play”), a recompensa é instantânea e efémera; se nos comprometemos intensamente com um desafio (“Flow”), o tempo pára e não mais nos preocupamos com nada; mas para nos sentirmos felizes mesmo depois de terminarmos, então tem de haver um significado profundo nas coisas que fazemos.

Pessoalmente, passei grande parte da vida em “Flow”: fosse a construir coisas estranhas com o Lego ou o Meccano em criança (ou a esmigalhar, esventrar, curto-circuitar e pegar fogo a coisas que não devia), ou a dominar o PC Phillips 8088 em Turbo Pascal na época do MS-DOS, ou a aprender Electrotecnia, Termodinâmica, e Programação de Autómatos na escola, ou a mergulhar nos 300.000 registos de um certo ASIC que não merece ver o seu nome repetido aqui, tudo o que fiz era sempre um passo intermédio no caminho para outro sítio, e cada novo desafio era um mundo sem fundo a absorver.

Na realidade, nunca fui muito de Gratificação Imediata. Gostei muito mais de montar a rede informática e desbravar as configurações de “multiplayer” do “Quake II“, do que jogar nesse mesmo “torneio” improvisado lá na sala do ISTC (e atenção que foram 9 horas seguidas de jogatina, sem intervalo de casa de banho – o meu cortex visual ficou arruinado, incapaz de dormir nessa noite; só via corredores escuros e explosões quando fechava os olhos – muito pior que uma bebedeira). O jogo foi uma experiência boa, mas como tantas outras (como o salto de uma ponte de 42m de altura sobre o Paiva ou o pêndulo livre da “Expo 98”), para nunca mais repetir.

Acabei o curso, e nunca mais joguei um jogo de PC… simplesmente não me excita. Aquilo que guardo como uma vitória foi o facto de ter mostrado aos meus colegas o conceito de “Campus LAN party” (ou pelo menos um rascunho); de fazer algo novo e diferente, relativamente difícil em 1997, e estar “na linha da frente”. Penso que é esta a sensação que a maioria dos empresários que eu conheço sente: o domínio, o poder de saber fazer, a vertigem da corrida no mundo real. E é daqui que nascem os “trabalhólicos”…

Chega-se no entanto a uma altura da vida em que nos perguntamos o que andamos aqui a fazer. É mais ou menos nessa altura que a malta se afoga em cerveja, tremoços, televisão, e jogos de futebol e PS3; tudo serve para aumentar o prazer de viver, que normalmente anda pelas ruas da monotonia, e a barriga cresce e o cabelo cai. As mulheres, essas, costumam decidir que está na hora de ter filhos. É a fuga para a frente, generalizada. Na realidade, falta-nos a peça-chave da felicidade: o significado.

Há quem simplesmente se adapte e passe a considerar a sua existência perfeitamente idílica; tal como nos diz Dan Gilbert, todos nós temos um grande pedaço de cortex frontal dedicado precisamente à sintetização da felicidade a partir miséria em que vivemos. Infelizmente, essa maquinaria cerebral também exagera no outro sentido, tornando possíveis os abusos da ganância e da injustiça – temos de nos precaver contra as fantasias do nosso “simulador de escolhas”, e nunca perder de vista os nossos valores.

Outros aceleram em frente, e quanto mais depressa melhor. Assim não há tempo para pensar se todas aquelas decisões que tomámos e aquelas que evitámos tomar realmente importam ou não. Carl Honoré mostra-nos aquilo que andamos  a perder quando corremos como ratos no labirinto da sociedade “moderna”, e aquilo que podemos ganhar quando desaceleramos e gozamos cada momento da vida.

Podemos sempre fazer como o investigador bioquímico Matthieu Ricard: salta-nos a tampa, fugimos para o Nepal em busca da felicidade e tornamo-nos monges budistas. Ele explica como qualquer um de nós pode treinar a sua mente por forma a eliminar os aspectos negativos da personalidade, e até no limite, alterar instintos. Mas por mais tentadora que seja a ideia de meditar no meio das neves elevadas, não precisamos de ir tão longe (nem tão fundo) para encontrar o nosso significado. Aliás, acredito nele quando diz que a felicidade está mesmo à mão, basta identificar aquela fracção de segundo entre o estímulo exterior e a nossa resposta e interpor uma atitude positiva. Com o treino, tornamo-nos pessoas diferentes – e é por isso que é muito importante pensarmos sempre em quem queremos ser, em vez de em quem somos ou fomos.

Bom, seja como for, o Ted é um sítio maravilhoso, cheio de coisas boas e pessoas espantosas. Enjoy.

~ por Vasco Névoa em Junho 1, 2009.

2 Respostas to “O caminho da felicidade”

  1. Play, gostava de conseguir apreciar a viagem sem saber o destino!

    • Man, na minha opinião podes e deves fazê-lo. Já leste “O Presente” (The Present)?🙂
      Mas “Play” não é a nossa maneira de viver o presente, ou de apreciar a viagem; “Play” é aquilo que fazemos para esquecer que estamos em viagem, para ocupar o tempo enquanto não chegamos ao destino…
      Acho que aquilo que tu queres é mesmo o “Flow”, ou seja, estar embebido em cada pormenor da viagem, apreciando cada momento, mas com consciência da realidade…
      Estou certo ou estou errado?🙂
      A cada um o seu estilo… eu não me motivo sem um “plano de fundo”.

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