Assim é que se faz!

Quando algo não funciona, há tipicamente duas escolhas que podemos fazer:

  1. Praguejar obscenamente sobre a cena e contar a toda a gente;
  2. Respirar fundo, identificar o problema, e ajudar alguém qualificado a resolvê-lo.

Apesar de a 2ª escolha ser aquela que maior satisfação traz a médio e longo prazo para toda a gente, a malta costuma escolher a 1ª. Parece que há uma epidemia geral de “imediatismo”: ou me dão o que eu quero agora, ou então não estou interessado. Acho que todos precisávamos de um curso intensivo sobre “delayed gratification” (recompensa adiada).

A história que vos trago hoje está a desenrolar-se neste momento, e é um óptimo exemplo de como se deve encarar um problema difícil. O exemplo vem do projecto Openmoko, cujas ambições excedem largamente (em várias ordens de grandeza) as suas capacidades. Parece-me que é assim com todos os projectos “com alma”…😉

Desde que o Neo Freerunner (o actual PDA/smartphone desta empresa) foi lançado que tem uma série de coisas que funcionam mal. A pouco e pouco os erros e omissões vão sendo corrigidos. Mas poucas coisas falharam tão notoriamente e durante tanto tempo como o acesso WiFi deste dispositivo. Muita gente se tem queixado, muitos “tickets” foram abertos pela comunidade, mas em muitos meses nada se avançou. O problema prende-se com um módulo de Hardware “mobile wireless” da Atheros que não se comporta à altura das expectativas (estou a ser simpático). Este módulo é na verdade programado com Firmware, mas este é 100% “closed-source” e considerado pela Atheros como parte do Hardware – e portanto a Openmoko não só não tem acesso ao código-fonte do Firmware, como ainda por cima não tem meios nem permissão para actualizar ou alterar esse Firmware de qualquer forma. Eles próprios são obrigados a trocar fisicamente o “chip” se quiserem trocar a versão do Firmware.

Ora, esta é a situação-protótipo que levou à criação do movimento Open Source: existe um módulo de software (ou firmware) que tem problemas graves, os utilizadores estão descontentes, e o fornecedor está-se borrifando para eles. Se alguém qualificado tivesse acesso ao código-fonte, os problemas eram resolvidos e ninguém se chateava. De outra forma, temos o impasse que se vive agora, em que o fornecedor chantageia os clientes para comprarem o último modelo (arriscando-se a cair novamente na esparrela).

A atitude que eu quero focar como exemplo brilhante é a do empregado Openmoko que pegou agora no problema, Werner Almesberger. Na ausência de acesso ao código e sem as ferramentas sofisticadas que uma empresa maior poderia fornecer, ele decidiu agarrar o touro da Atheros pelos chifres e não o vai largar até o fazer ajoelhar. Munido apenas de uns PDAs, alguns “Access Points” WiFi, e uma mão-cheia de “scripting” esperto, ele está a compilar e analisar estatisticamente uma grande quantidade de informação de teste. Esta forma de análise de “black box” (ou “teste opaco”, por não vermos o interior do sistema) consome grandes quantidades de tempo e paciência e requer uma estratégia muito consistente, mas é recompensadora pois traça uma imagem fiel e realista daquilo que efectivamente se passa.

Até agora ele já descobriu várias “dificuldades” do módulo Atheros, incluindo falhas lógicas das máquinas de estado (o vulgar “bug”), problemas com as rádio-frequências, e alguns “crashes” puros e duros do Firmware. Com esta informação na mão, torna-se bastante mais fácil “apertar os calos” da Atheros de uma forma positiva e objectiva para levá-los a cumprir a qualidade esperada dos seus produtos e serviços. Por outro lado, também se podem delinear “workarounds” (soluções alternativas) para o problema, caso não haja colaboração. E tudo isto sem ter acesso ao código…

Em suma, há várias maneiras de esfolar o gato (desculpem a expressão). É preciso é positivismo e dedicação.

Tenho plena confiança que o sistema WiFi dos Neos irá funcionar dentro em breve. E aí o Sean poderá voltar a sonhar com a revolução popular das telecomunicações (ver Q7).🙂

~ por Vasco Névoa em Janeiro 23, 2009.

2 Respostas to “Assim é que se faz!”

  1. Olá Vasco. Para além de ler o teu blog também te “conheço” do forum NovaEnergia. Queria só dizer uma coisa, quando o OpenMoko estava a ser projectado, deviam ter pensado melhor no chip wifi que queriam por, porque apesar de não conhecer nenhum open-source existem alguns que as empresas são mais … Open Source friendly digamos assim. Era nessa altura que se devia ter evitado aquilo que agora está a acontecer…

    Mudando de assunto, e o teu motor, como vai? Espero que não te falte muito para começares a por as “mãos na massa”🙂

  2. Tens toda a razão, Helder.
    E efectivamente houve muita conversa sobre esse assunto nas mailing lists (e continua a haver, pois o mesmo problema se estende a outros componentes do hardware Openmoko, como por exemplo o controlador de memória flash e LCD “Glamo”).
    Infelizmente, a Openmoko é uma empresa pequena e sonhadora, e teve de fazer alguns compromissos de escolha para conseguir meter um produto cá fora e ganhar algum dinheiro para poder continuar a trabalhar. Não sei porque é que escolheram este Atheros AR6001 em vez de outros mais apropriados (supondo que tens razão e eles existem mesmo🙂 ), mas é muito provável que as razões sejam pragmáticas e talvez incontornáveis (preço / suporte / consumo / complexidade / etc.)…

    Quanto ao meu motor-roda… isso é uma outra telenovela por si só!!! Aconselho a seguir o blog respectivo.🙂

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