Poupança de combustível com água e hidrogénio

Agora que está a doer na carteira do mundo inteiro, é mais fácil obter atenção para um assunto que me ocupa a mente já há 2 anos: a utilização de hidrogénio e / ou água nos motores de combustão interna como meio de aumentar o seu rendimento (reduzir o consumo de combustível).

Tanto quanto pude apurar até agora, estas são as maneiras de o fazer:

  • Dopagem da admissão com vapor de água (ver figura no fim da página deste link). Esta técnica é muito antiga, e pode considerar-se comprovada na prática. Diz-se que os Spitfires da Segunda Grande Guerra usavam esta técnica para aumentar a potência e baixar a temperatura de funcionamento dos seus motores. Também já li algo sobre a sua utilização em turbinas de gás de alto rendimento, e existem soluções à venda. É algo muito simples de fazer, com baixo risco, e supostamente com um retorno positivo bastante visível. Os benefícios anunciados são: maior rendimento (menor consumo); funcionamento mais regular e afinado do motor; limpeza dos depósitos de carvão presentes nos cilindros e válvulas; baixa de temperatura do motor, com uma redução das emissões de gases tóxicos e partículas, e também uma melhor conservação da saúde do motor; pequeno aumento da potência.
  • Dopagem da admissão com gás de Brown (HHO ou H2 + O2) (este é apenas um em muitos links). Em tudo semelhante ao ponto anterior, com a seguinte diferença: em vez de se misturar vapor de água na admissão, faz-se electrólise da água e envia-se a resultante mistura de hidrogénio e oxigénio para a admissão. Os efeitos esperados parecem ser os mesmos que a injecção de água, mas com alterações no rendimento bastante mais visíveis e proveitosos. Associada a esta técnica existe uma gigantesca quantidade de folklore e oportunismo, com inúmeras entidades a tentar vender “kits” mais ou menos sofisticados por essa web fora, tanto no estrangeiro como em Portugal. Os resultados variam substancialmente de caso para caso, e há muito quem não acredite. Estes kits podem ser perigosos de operar, já que facilmente podem ocorrer fugas apreciáveis de gás explosivo dentro do gabinete do motor; por essa razão, aconselha-se vivamente um cuidado extremo ao lidar com eles. Há também o perigo da má escolha do sal electrolítico, pois por exemplo a utilização de sal de cozinha (Cloreto de Sódio) ou água do mar nestas células gera gás de cloro, que é altamente tóxico. Existem alternativas inócuas, como o Hidróxido de Sódio (o componente principal da lixívia), que não geram subprodutos.
  • Substituição total do combustível por gás de Brown. Aqui entramos claramente na área do tabu científico. Existem várias publicações populares na web que explicam como artilhar um automóvel com uma bateria de células de electrólise que forneceriam o caudal de H2 + O2 necessário a fazer funcionar o motor de combustão. A primeira patente de um sistema deste tipo foi o “Carburador Electrolítico” de Charles Garrett, em 1935. Houve demonstrações supostamente com sucesso, mas no final de contas resta a dúvida se o sistema retirava a energia apenas das baterias eléctricas que o veículo levava… A ideia, na sua forma básica, é proibida pela lei física da conservação da energia. Senão vejamos: temos água líquida no tanque, usamos energia para a electrolisar, depois há uma combustão da qual sai energia mecânica e calor, e depois temos vapor de água quente. Nada impede de recolher esse vapor de volta para o tanque de água, fechando o circuito. Assim tínhamos um carro que não só andava a água, como ainda por cima só precisava de ser atestado de muitos em muitos meses, para compensar pequenas fugas. É apenas mais uma forma de “moto continuum”, ou “máquina de movimento perpétuo” – e portanto impossível pelas leis da termodinâmica. Se há saída de energia, tem de haver entrada! No entanto, os defensores deste sistema baseiam-se na chamada “super-electrólise”: um processo capaz de electrolisar água com um rendimento de Faraday muito superior a 100%. Apesar da proposição afastar imediatamente os cientistas, muitos crentes tentaram e ainda tentam criar sistemas de electrólise com rendimento supra-unitário. Stanley Meyer, um inventor americano paranóico e mediático, também demonstrou e patenteou na década de 1990 um processo de super-electrólise com recurso a estranhas ondas de corrente alternada, mas foi desacreditado publicamente no decorrer de uma longa e penosa guerra legal. É pena ter morrido antes de completar a sua obra, um “kit” de conversão universal de carros para água, pois por esta altura já saberíamos se era verdade ou não. Existem muitos seguidores de Meyer, tentando reproduzir a sua magia em caves escuras, mas aparentemente não têm a preparação científica nem a inventividade necessárias ao sucesso de tal empreendimento…
  • Água combustível. Esta é uma técnica que parece controversa, mas talvez não seja. Consiste em “carregar” de alguma forma a água líquida com Hidrogénio dissolvido, de modo a transformar a água num combustível (ou melhor, num transporte de combustível). Existem alguns indícios de que a água é capaz de dissolver H em quantidades visíveis… Mas não sei se serão suficientes para fazer funcionar um motor de combustão. Seja como for, a Austrália está cheia de gente que segue cegamente os ensinamentos “místicos” de um tal “Joe Cell” que faz funcionar os carros a água com uma célula de electrólise muito especial que supostamente “carrega” a água com energia. Nunca liguei muito a estes tipos, até ver um Neo-Zelandês aproveitar a coisa de um modo mais credível: Steve Ryan promete vender um método de “alterar” a estrutura da água e mostra uma motorizada a andar a água. O “conversor” dele parece-me apenas uma célula electrolítica de baixa velocidade em que os gases são permitidos misturar-se com a água…
  • Injecção de “plasma” de água. Outros houve que optaram por executar os seus processos “mágicos” sobre a água dentro do próprio motor, ou melhor, logo á entrada, através de injectores de água muito especiais. Estes injectores teriam a capacidade de alterar a estrutura da água de modo a fazê-la “explodir”, libertando a energia do Hidrogénio. Em 1983, Henry Puharich, um investigador americano das áreas mais estranhas da ciência, registou a patente de um injector para motores de combustão que correspondia grosso modo ao método do Stanley Meyer, mas totalmente efectuado no pequeno volume que dá acesso à câmara de combustão. Aplicando ondas eléctricas com um controlo muito específico dentro de um espaço geométrico bem estudado, estes injectores faziam a super-electrólise da água ao mesmo tempo que ela entrava no cilindro. Mais espantoso ainda, era o sistema que um anónimo de cognome “s1r9a9m9” afirma ter inventado, e que consistia aproximadamente em transformar o sistema de ignição do carro numa grande bobina de Tesla para aumentar enormemente a potência da “faísca” das velas. Segundo ele, isto chegaria para “incendiar” a água que entrasse no motor, e diz que meteu um Chevy Camaro V8 a andar assim, só com água. Também houve um velhote na américa que inventou um injector radioactivo capaz de alterar a estrutura da água, mas perdi o link…

Seja qual for a verdade dos factos, penso que esta área carece de explicações mais claras e completas por parte da comunidade científica e de engenharia. Até hoje, não consegui encontrar informação relativa a estes assuntos emitida em quantidades aceitáveis por entidades credíveis, o que me leva a especular que simplesmente não existiu até agora interesse suficiente na matéria para que se fizesse uma investigação completa. Aliás, esta matéria é economicamente polémica, e como tal parece permanecer uma área “tabu” da investigação, que “mancha” a reputação de todos os que se atreverem a investigar. Por essa razão, toda a área parece estar nas mãos de pessoas que não têm a preparação científica necessária para produzir as desejadas (e credíveis) explicações…

Eis as questões que eu considero as mais importantes a responder:

  1. Qual é o comportamento do vapor de água dentro da câmara de combustão? Que mecanismos actuam durante o ciclo? É um fenómeno apenas macroscópico (um gás com rendimento termodinâmico diferente)? É uma reacção química catalítica (os elementos naturais H e O actuam directa e temporariamente em recombinações químicas sobre a combustão)? Haverá fenómenos sub-atómicos (e/ou quânticos) provocados por concentrações de energia extremamente localizadas, apenas detectáveis “estatisticamente”?
  2. Há alguma diferença entre a dopagem da combustão com vapor de água e com gás de Brown (H2 + O2)? O rendimento energético é o mesmo, ou o facto de usarmos energia eléctrica para dissociar H2O (“armazenando” energia nos gases) altera o balanço final face ao simples vapor?
  3. O gás de Brown existe mesmo, na sua forma esotérica defendida pelos seus “fãs” (HHO, em vez de H2 + O2)? Teria Rugero Santilli razão ao pensar na ligação magnética como mecanismo molecular?
  4. As pontes de Hidrogénio (ou outros mecanismos) permitem “soluções aquosas” de H? A água pode mesmo conter H livre (e talvez O) suficiente para “pegar fogo”? Qual é a percentagem de H, H2+O2, ou HHO que é possível armazenar em diluição?
  5. É possível iniciar processos quânticos com recurso a mecanismos de electrólise ou ressonância electromecânica? Quais e em que condições?
  6. Qual é a influência da ressonância mecânica sobre a estrutura atómica da água? Qual é a relação entre a Sonoluminescência e a “Super-Electrólise” de Stanley Meyer? Qual é a relação entre a Sonoluminescência e a “Fusão Fria” que nunca foi comprovada? Podem estas três coisas ser apenas aspectos diferentes de um só conjunto de mecanismos físicos?

Enfim, estas são as ocupações mentais de um pseudo-meta-físico…🙂

Espero que haja alguém com a preparação e a paciência necessárias a uma resposta segura por entre os meus leitores. Ou pelo menos que eu ponha alguém a pensar no assunto…

~ por Vasco Névoa em Junho 1, 2008.

Uma resposta to “Poupança de combustível com água e hidrogénio”

  1. Peço desculpa aos meus leitores, mas resolvi desactivar os comentários neste post.
    Este artigo não tem a intenção de servir de fórum para pessoas que aplicam kits de electrólise nos seus carros, e a pouco e pouco era o que estava a acontecer.
    A intenção era chamar a atenção para o facto de existirem muitos técnicas interessantes à volta do hidrogénio que mereceriam maior escrutínio pela classe científica.
    Para aqueles que querem discutir a aplicação prática, dirijam-se ao fórum nova energia.

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