Instalar Linux num “PowerMacintosh G3”: Sangue, suor, e lágrimas…

Ando agora a pegar nas máquinas velhas que os MacIntoshianos mais abastados já encostaram à berma, e a meter Linux para fornecer computadores simples e fáceis de usar (mas actuais!) para os membros menos abastados da família. Mesmo sabendo que nada sabia sobre Macs, fui em frente. Software Livre para sempre!!😀


Meter o Ubuntu Hardy Heron (8.04) num PowerMac G3 “Blue & White” foi quase tão simples como em qualquer i386-compatível: meti o CD do Ubuntu na drive, arranquei-o, e a coisa foi. Apenas tive de fazer várias tentativas, por causa de uns pequenos problemas:

  1. O kernel arrancava mas o monitor ficava sem sinal; era preciso a opção de kernel “video=ofboot” para configurar a placa gráfica.
  2. O “yaboot” (bootloader do CD) não suportava o teclado USB genérico que eu estava a usar; tive mesmo de procurar um teclado Mac (USB na mesma) para poder escrever as opções na linha de comando do kernel…
  3. Depois de instalado, há que remover o “video=ofboot” da configuração do yaboot, senão o Xserver crasha.

Depois disso (e de esperar umas 6 horas) lá tinha o Hardy a bombar no G3 colorido. Nice. Também tive algumas surpresas com um cabo Ethernet parcialmente danificado e consequentemente uma cache apt-get corrompida, mas isso não tem nada a ver com Macs…😉


Peguei então no velhinho PowerMac G3 “Silk” e enfiei o CD do ubuntu, pensando que não deveria ser muito diferente. Afinal, também é um G3!… heheheh…. ignorância e ingenuidade… se não fosse uma série de consultas à internet, teria lixado este computador para além do ponto de não retorno. Felizmente o CD não arranca, senão tinha agora um belo pisa-papéis (se o instalador tivesse removido o MacOS).😦

Também fez diferença eu estar a usar a minha T-shirt de administrador de sistema, senão teria sido o fim.😉

Ora bem, fazendo uma história de 48 horas um pouco mais curta:

  1. Os Macs dividem-se em duas grandes gerações: “Old World”, e “New World”. Uma das grandes diferenças entre as duas está no “firmware” de arranque (vulgo “BIOS”, para os não-macintoshianos) – Os “Old World” têm um “Mac Firmware” e os “New World” têm um “Open FirmWare”. As distribuições Linux suportam bem o arranque dos “New World” através dum bootloader chamado “Yaboot” (em vez de GRUB ou LILO), mas não parece haver qualquer suporte para “Old World”… e ainda por cima este firmware antigo recusa arrancar todo e qualquer disco ou CD que não seja MacOS.
  2. O PowerMac G3 “Silk” é “Old World”… Conclusão: o MacOS tem de lá ficar sempre, nem que seja só para servir de bootloader. Felizmente, existe uma extensão (um Linux loader) para o MacOS que permite arrancar o Linux pouco depois de iniciar o MacOS9: chama-se “BootX”.
  3. Localizado um CD de instalação de MacOS 9.2, foi possível arrancar o dito e particionar o disco: 300MB para o MacOS9, e o resto livre para o Linux. Fiz então a instalação básica do MacOS9 e da extensão TCP/IP.
  4. Configurado o acesso à Net via Ethernet/DHCP, fui buscar o bootloader de Linux para estes OldWorlders: BootX. Instala-se como uma extensão do MacOS que corre ao iniciar o Sistema, permitindo escolher entre o MacOS ou o Linux, e permite carregar ramdisks e especificar parâmetros de linha de comando para o núcleo Linux, tal como no GRUB ou no LILO.
  5. Saquei um núcleo e uma imagem ramdisk dum CD Ubuntu antigo (5.10), pois as ramdisks posteriores não são compatíveis com o BootX, e meti-os no “System Folder” do MacOS, em “Linux Kernels”. Depois orientei o Bootx com as seguintes opções:
    1. “No video driver” – OFF;
    2. “Options/Set G3 cache” – ON (para que esta opção apareça, é necessário correr primeiro a aplicação “Utilities/GrabG3CacheSetting” que vem com o BootX);
    3. “Options/Force SCSI on” – OFF;
    4. “Options/Force video settings” – OFF;
    5. “Options/Use specified RAM Disk” – ON (indicar a “initrd.gz” através do botão “Choose”).
  6. Depois é carregar no botão “Linux”, e o instalador do CD há-de executar mais tarde ou mais cedo…
  7. Lembrar: quando o instalador perguntar como há-de fazer o particionamento do disco, escolher “Use free space”! Senão ele apaga o MacOS e fica-se com um grande pisa-papéis com uma maçã desenhada…
  8. A seguir à instalação (antes do reboot!), há que copiar o novo kernel e ramdisk instalados para o “System Folder” do MacOS9, para que o BootX possa usá-los. A repetir sempre que forem actualizados! O melhor mesmo é montar essa partição (de tipo “hfsplus”), e fazer um link de /boot para lá… assim a actualização é automática.😉 Também temos de acrescentar “root=/dev/hda8” (no meu caso a partição Linux é a oitava) nas opções do BootX para os arranques subsequentes. E já agora “quiet” e “splash” também, para ter um arranque mais bonitinho.

Em vez de instalar o 5.10, eu podia ter feito algum trabalho manual e compilado uma imagem de ramdisk 8.04 compatível com o BootX… mas como isso ia levar mais alguns dias de investigação, resolvi ficar por aqui e fazer os upgrades pela maneira mais fácil. O caminho entre o 5.10 e o 8.04 tem apenas 2 saltos: upgrade para o 6.06 e depois para o 8.04. Portanto, depois de instalado o 5.10, é só lançar o “Update Manager”, e carregar no botão “Upgrade to 6.06″… se ele aparecesse!

  1. As versões mais antigas do Ubuntu (como esta 5.10) foram movidas para um repositório distinto, separadas das versões que ainda são suportadas – e isto tem de estar reflectido no ficheiro “/etc/apt/sources.list”. Substitui-se em todos os URLs do ficheiro: “old-releases.ubuntu.com” em vez de “archive.ubuntu.com”. Depois o update do sistema já funciona e já aparece o botão de upgrade para o 6.06.
  2. Chegados ao 6.06, nova paragem para fazer chichi: A Canonical abandonou o suporte oficial à plataforma “PowerPC” (obrigado Apple e Canonical!). Os repositórios “PowerPC” ainda existem, e são mantidos pela comunidade, mas com alguma “segregação”: agora vivem em “ports.ubuntu.com” em vez de “archive.ubuntu.com”. Em princípio, nós não deveríamos ser afectados por isto, pois todas as ferramentas foram actualizadas de acordo… ou talvez não. Alguém se esqueceu do pobre “Dapper Drake” em PowerPC. Para que o upgrade de 6.06 para 8.04 funcione, temos de acrescentar ao “source.list”: deb http://archive.ubuntu.com/ubuntu dapper-backports main/debian-installer . Senão o upgrader falha. Pode-se remover depois do upgrade.

E pronto! Depois de tanto esforço, é nestas alturas que me apetece fazer aquela ridícula dança da vitória: “Fallon is the champion!“…🙂

~ por Vasco Névoa em Maio 4, 2008.

6 Respostas to “Instalar Linux num “PowerMacintosh G3”: Sangue, suor, e lágrimas…”

  1. É obrigatorio a instalação do mac os 9?

  2. Como eu expliquei, se o Mac é “Old World”, tem de existir um MacOS instalado para arrancar o computador. No caso dos Macs “New World” ou mais recentes, nada disso é preciso. E se estivermos a falar de um Mac(Intel) dos novos, então não há qualquer diferença para um PC “normal”.

  3. Muito bom texto, me esclareceu varias de minhas duvidas…
    Eu tenho um PowerBook Wallstreet, e pretendo colocar o ubuntu, nele. Mas estou com uma duvida. Li em vários lugares que esse procedimento de colocar linux em “OLD World” é “perigoso”.
    Logo pergunto: Caso eu cometa algum erro na instalação o ubuntu, eu posso danificar o wallstreet de maneira inrreversivel? Só informando eu tenho os CDs de instalação do OS 9 e OS X.

  4. Oi Leonardo.
    O passo crucial para evitar a catástrofe é o aproveitamento correcto do disco rígido quando o instalador do Ubuntu pergunta como há-de particioná-lo.
    Aí temos de ter o cuidado de preservar as partições do MacOS e utilizar apenas o espaço libertado pelo passo anterior (o particionamento feito com as ferramentas do CD do MacOS).
    Se isso correr bem, temos sempre um sistema Mac pronto a correr na pequena partição de 300MB, mesmo que o Linux “dê o berro”…🙂
    Agora que já tive a oportunidade de usar este G3 antigo com Ubuntu, posso dizer que a máquina fica muito lenta. Embora seja utilizável, é um compromisso delicado entre a flexibilidade de escolha de software e um desempenho muito fraco. Fica o aviso.

  5. Muito Obrigado, pela respostas…

    Antes de mais nada vai ai a configuração atual do meu wallstreet:

    Powerbook G3 , 300 Mhz (PQD/Wallstree Serie II)
    http://www.everymac.com/systems/apple/powerbook_g3/stats/powerbook_g3_300.html
    Abaixo as alterações que eu fiz nele.
    HD= 80Gb
    Memoria= 512 Mb
    Sistema Atual : Mac OS 9 e Mac OS X 10.3.9 (panther), com auxilio do XPostFacto (XPF).

    Fiquei, bem mais confiante, para instalar o linux nele. Mas com isso vieram, mais duvidas…

    1- Você lembra a configuração, do wallstreet que vc viu? Eu acreditava que com o ubuntu, ficaria mais rápido, do que o OSX que estou usando.
    2- Como eu tenho um tamanho de hd razoável. Minha ideia seria, utilizar os três sistemas (OS 9, Panther e ubuntu). Isso é possível? Os três sistemas, trabalhariam amigavelmente entre si?
    3- O muit boot esta acessível, funcionaria normalmente?
    4- Se vc acha mesmo que o Ubuntu fica pesado, acho que uma opção para o ganho de desempenho, seria instalar o Xubuntu então. Se não me engano tem versao antiga com suporte para powerpc. Você teria alguma experiência instalando o Xubuntu num OldWorld? O processo seria idêntico ao que vc mostrou acima para Ubuntu?

    Sei que algumas perguntas, são simples, mas é melhor perguntar, do que ficar na duvida.
    Valeu

  6. Olá colega!
    Eu tenho aqui um G3 400Mhz (blue/white).
    Tenho tido problemas ao instalar ubuntu, fedora naquela máquina, pois não consiguo bootar (c). Agradecia ideias para poder instalar, pois não vejo o que raio se passa naquela máquina para não bootar pelo dvd do fedora ou cd do ubuntu.

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