Livre, Aberto, Gratuito…

A minha troca de galhardetes com o João Matos foi interessante, e tenho de admitir que os meus escritos baralham um pouco os conceitos que tão sagrados são para os mais puristas. Não querendo ser injusto nem ajudar mais ainda a confusão que já reina nessa web fora, decidi pôr as coisas em pratos limpos para que fique tudo muito claro.

Peço desculpa aos geeks para quem nada disto é novidade, mas muita gente haverá que vai gostar de passar a dar atenção a um conjunto de pormenores que se revela cada vez mais importante na vida de todos nós.

Passemos então às definições inequívocas, puras e duras:

  1. Livre” (“Free Software“): A obra intelectual que mantém e defende as 4 liberdades definidas por Stallman, a saber:
    1. A liberdade de usar a obra, independentemente do propósito, contexto, ou condições;
    2. A liberdade de estudar o funcionamento da obra e adaptá-la às nossas necessidades;
    3. A liberdade de redistribuir livremente a obra para ajudar o próximo;
    4. A liberdade de melhorar a obra, e contribuir as melhorias para a comunidade.
  2. Aberto” (“Open Source“): Um compromisso prático que surgiu a partir do SW Livre, mas que entra em conflito com ele por ser menos exigente na defesa da Liberdade. Centra-se no respeito pelos Direitos de Autor e na capacidade de fazer negócio, para além do mesmo espírito de entreajuda e Comunidade. As regras base são:
    1. Distribuição Gratuita – não se pode cobrar dinheiro pela (re)distribuição de uma obra Aberta; no entanto, nada impede a agregação dessa obra num pacote juntamente com outras obras que sejam vendidas.
    2. Acesso total ao Texto-Fonte – o texto-fonte da obra tem de estar disponível para permitir a compreensão e a contribuição.
    3. Obras derivadas – a obra deve poder servir de base para outras obras, obrigatoriamente nos mesmos termos que lhe deram origem.
    4. Integridade do Trabalho do Autor – a origem da obra ou de qualquer modificação deve manter-se claramente identificada. O autor pode exigir que obras derivadas sejam publicadas sob diferente denominação.
    5. Não discriminação – a obra deve estar disponível para todas as pessoas e grupos de pessoas, e também para aplicação em qualquer utilização ou campo (negócios incluídos).
    6. Manutenção dos direitos – os direitos distribuídos com a obra não podem ser reduzidos através de outros acordos, nem afectados em caso de a obra ser dividida ou separada da sua distribuição original.
    7. Não intrusão – os direitos dizem respeito apenas à obra em questão, e não devem interferir nem fazer exigências sobre outras obras distribuídas conjuntamente.
    8. Agnosticidade tecnológica – os direitos são conferidos independentemente da tecnologia de distribuição da obra.
  3. Gratuito” (“Freeware”): À borla. Simples.

As duas primeiras definições são praticamente iguais nos seus efeitos práticos, com excepção do ponto 7 da definição “Aberta”. Stallman considera que o SW Livre não deve ser “poluído” pela mistura com SW Proprietário ou Fechado, enquanto que a comunidade Aberta contenta-se com um compromisso prático.

De resto, ambas as definições implicam, directa ou indirectamente, gratuitidade. Para o Livre, é condição essencial que a obra não custe dinheiro porque isso limitaria o acesso ao grupo de entidades que pudesse pagar o preço. Para o Aberto, não faz sentido vender uma obra intelectual na sua forma compilada, quando a oferecemos publicamente na sua forma textual ou primária; qualquer idiota poderia fazer-nos concorrência com o nosso próprio produto reempacotado, e por isso resolve-se o problema removendo o preço de venda.

Feitas as definições, olhemos então para a realidade em que vivemos… é mesmo no compromisso Aberto que vivemos, e não na utopia Livre.

Quem usa uma distribuição GNU/Linux recente acaba mais tarde ou mais cedo por misturar SW Livre com proprietário. Por exemplo no Ubuntu, a instalação é sempre feita com o máximo respeito pelo SW Livre, e nada que não seja Livre está contido. Mas logo a seguir o que fazemos? Activamos os repositórios de SW Aberto e até mesmo Proprietário, pois a vida é muito mais fácil quando podemos usar o Adobe Flash Player, o Google Earth, os controladores nativos das gráficas nVidia e das várias placas de rede sem fios, e os codecs de áudio e vídeo que o resto do mundo ainda usa (mp3/mpeg/w.media), para mencionar apenas alguns exemplos…

Pessoalmente, vejo isto como uma fase de transição; não podemos simplesmente deitar fora tudo o que existe apenas porque é proprietário – isso é estúpido e impede o bom funcionamento da sociedade. Podemos sim, usar o que houver disponível, e trabalhar para um mundo melhor, dia após dia. A pouco e pouco, podemos substituir as “gaiolas douradas” do SW Proprietário (ou as gaiolas brancas/alumínio em que vivem os MacIntosh’ianos) por alternativas Livres, e estas tenderão a tornar-se tão boas ou melhores que o existente (tal como já se comprovou tantas vezes em tantas áreas). Na área dos media codecs, já temos bons substitutos como “Ogg-vorbis“(áudio) e “Ogg-theora“(vídeo), mas a adopção vai levar tempo. Na área dos flash players, há variadíssimas iniciativas, mas os plugins de browser ainda rebentam como tortos, é preciso tempo para amadurecerem. Na área dos controladores de dispositivos, há fabricantes de Hardware que começam a perceber a mensagem e já colaboram com Linux, uns ainda a medo, outros com pompa e circunstância como a ATI. Na área das distribuições GNU/Linux para telemóveis e PDA, o último ano tem visto uma tal explosão de iniciativas e adopção por parte dos fabricantes, que me arrisco a dizer que dentro de 1 ano quase todos os telemóveis correrão Linux… e os portáteis para lá caminharão dentro de 2 anos.

Meus amigos, a “guerra” do SW Livre está ganha. Leiam as notícias. Basta não parar de fazermos aquilo em que acreditamos. É uma questão de tempo até o SW Proprietário voltar a ser a minoria (sim, voltar, pois no princípio tudo era Livre). Para mim, não faz sentido discutir os pormenores extremamente específicos das diferenças entre as definições Livre e Aberto; faz sentido sim, unir a Comunidade Colaborativa, sem bandeiras demasiado orgulhosas, e partilhar e contribuir, sempre com respeito. Na nossa família, na nossa comunidade local, na nossa escola, na nossa empresa, no nosso Estado, há sempre oportunidades de aplicação do SW Livre como gerador de melhoria de vida. Basta estar acordado.

O nosso respeito deve incluir aqueles que vendem sem nada partilhar; lá porque eles hoje ainda não aprenderam a formular um modelo de negócio que não dependa da restrição artificial de um recurso livre, não quer dizer que amanhã não se reinventem e não encontrem maneiras valiosas de contribuir!

“Adapt or Die”, já lá dizia Darwin!…😉

~ por Vasco Névoa em Novembro 1, 2007.

2 Respostas to “Livre, Aberto, Gratuito…”

  1. incorrecto, incorrecto…

    “Stallman considera que o SW Livre não deve ser “poluído” pela mistura com SW Proprietário ou Fechado”
    conheces a LGPL?

    “De resto, ambas as definições implicam, directa ou indirectamente, gratuitidade”
    é falso, nem em BSD nem em GPL

    “Para o Livre, é condição essencial que a obra não custe dinheiro…”
    é falso! podes mostrar onde esta na GPL a clausula que impede a venda?

    “Feitas as definições, olhemos então para a realidade em que vivemos… é mesmo no compromisso Aberto que vivemos, e não na utopia Livre.”
    Não vivemos no aberto, essa não é a realidade. vivemos no fechado.
    O software livre não é utópico. ou não conheces o significado de utópico ou não chonheces a realidade do software livre.

    “Por exemplo no Ubuntu, a instalação é sempre feita com o máximo respeito pelo SW Livre, e nada que não seja Livre está contido.”
    Falso. O ubuntu traz software non free. dai ter sido criado o gobuntu

    enfim, que as tuas previsões se cumpram!

  2. Ok, tinha-me esquecido da LGPL… mas acho que foi um compromisso que ele se viu obrigado a fazer, por força do mercado. Caso contrário, o SW Livre ficaria votado ao esquecimento.

    Tens razão, é o mercado que “obriga” à gratuitidade, e não as licenças, mas o discurso da FSF é perfeitamente aéreo nesse aspecto. A GPL diz que se pode cobrar o que se quiser: “You may charge any price or no price for each copy that you convey, and you may offer support or warranty protection for a fee.” No entanto, não conheço ninguém que cobre valores superiores a uma “taxa de distribuição”, valor tipicamente pequeno que inclui os custos dos CDs/DVDs/manuais em papel/envio por correio/etc ou um pequeno lucro… Tens de concordar que é contra o espírito da partilha cobrar valores altos, mesmo que os lucros sejam para a FSF ou de outra forma ajudem o SW Livre. Por outro lado, penso que toda a gente tem a presença de espírito de não cobrar os valores avultados que normalmente se vêem no mercado Fechado, pois ficaria imediatamente sem clientes assim que as cópias grátis começassem a circular… Aquilo que faz sentido é oferecer o SW Livre, e cobrar pelo serviço de mais-valia (suporte/treino/consultoria/etc).

    Uma sociedade em que todo o SW é Livre é uma utopia, porque isso implicaria que todas as pessoas de grande valor técnico fossem altruístas (quando o contrário é mais verdade), e que toda a gente fosse capaz de entender que há maiores ganhos a médio/longo prazo para toda a gente se o modelo de partilha for preferido ao modelo de restrição (impossível, as pessoas com essa capacidade são uma minoria). Isto é uma mudança cultural muito radical, que eu não vejo maneira de acontecer nos próximos 50 ou 100 anos… No entanto, vejo já neste momento acontecer aquilo que eu chamo o compromisso Aberto: há uma mistura de Fechado com Aberto/Livre, e as pessoas estão a ganhar interesse (comercial inclusivé).

    Quanto ao Ubuntu, o que eu disse é correcto. Apenas quando activas os repositórios extra é que podes instalar SW non-free. E como eu disse, é isso mesmo que toda a gente faz, por razões práticas. O Gobuntu cumpre o espírito Livre à risca, e não permite (a priori) a instalação de non-free; por essa razão o próprio Mark Shuttleworth avisa os potenciais utilizadores:
    “Please note that because running Gobuntu on most laptops and many desktops will be difficult, Gobuntu is intended for experienced Linux enthusiasts at this time.”

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