As duas faces do SW Livre

“No meio é que está a virtude!”, já lá dizia a minha avó!…

Há uns belos tempos atrás, quando eu era pequenino e só sabia mexer em SW Microsoft, comecei por curiosidade a brincar com essa coisa estranha chamada Linux. E é como se costuma dizer: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!”🙂 Hoje em dia sofro de urticária de cada vez que uso um PC sem acesso a SW Livre. É como se me obrigassem a voltar a andar de bicicleta com as rodinhas auxiliares de lado: parecem mais seguras, mas só servem para chatear e impedem a evolução da aprendizagem de quem quer andar cada vez melhor e com mais prazer.

No entanto, “A César o que é de César!”…

O SW proprietário teve o seu lugar na economia e a ele devemos a rápida ubiquidade dos computadores, que de outra forma teriam tido mais dificuldade em propagar-se (e talvez até em uniformizar-se desta maneira, quem sabe…). O Sr. Guilherme Portões (Bill para os amigos) sempre foi (e ainda é) um visionário de grande valor; pena é que apenas considera praticável o negócio do SW na forma “empacotada”, do tipo “one-size-fits-all”… ou seja, lado a lado com esse outro grande visionário, o Sr. Esteves Trabalhos (Steve para os amigos), tem como missão na vida formatar e homogeneizar o “consumidor” de modo a vender cada vez mais, com cada vez menos trabalho, criando uma dissociação quase total entre esforço e ganho, que pode ser interpretada por alguns como imoral. Nesse aspecto, o Bill ainda é um aprendiz comparado com o Steve: enquanto o primeiro ainda perde tempo com fundações beneméritas para alimentar o terceiro mercado (perdão, o “terceiro mundo”), o segundo pressiona o acelerador da homogeneização a fundo e sai-se com o uber-produto de consumo, o iPhone. Génios que ambos são, estes dois senhores (e muitos milhares por esse mundo fora) padecem de um mal tão generalizado que é praticamente invisível: falta de valores e de visão a muito longo prazo. Como toda a gente sabe, a economia de mercado só funciona bem se a corrupção e o monopólio forem modestos… mas isso já fica fora de tópico.😛

Entra então o SW Livre na equação.

Dado o enorme impacto que ele teve e tem todos os dias na melhoria de qualidade da minha vida pessoal e profissional, não pude nunca evitar admirá-lo simultaneamente como ferramenta técnica e social… pus-me então à procura desses loucos autores de programas que (pasme-se) oferecem o seu trabalho gratuitamente ao mundo. O que os motiva? Como é que isto começou? Será sustentável? Pode-se viver disto? Como??!…

Nas minhas leituras (“The Cathedral and the Bazaar”, “Just for Fun”, “Open Sources”), deparei-me com duas posturas ou “escolas filosóficas” que se opõem mutuamente: os Puristas e os Pragmáticos.

Do lado dos Puristas, temos esse grande campeão da Liberdade, Richard Stallman (RMS). Este hacker hippie por alturas dos anos 70 chateou-se com a nascente indústria de software porque lhe roubaram os colegas de trabalho e o “deixaram na mão”. Desde aí, tem vindo a combater energicamente a fábrica de consumidores homogeneizados e até estupidificados que é o SW proprietário, numa guerrilha incansável e interminável, rua-a-rua, empresa-a-empresa, cabeça-a-cabeça. Criou a Fundação do Software Livre e o primeiro sistema operativo livre, chamado GNU (Gnu’s Not Unix), com base nas APIs e ferramentas do UNIX. Infelizmente não conseguiu produzir um bom núcleo para esse sistema (mas aí apareceu o Linux para preencher a lacuna). Apesar das ferramentas e a licença GNU serem a base omnipresente do ecossistema do SW Livre de hoje, a sua obra política nunca estará terminada; mesmo depois de ele morrer haverá sempre pessoas a querer enriquecer rapidamente com o software e com o menor trabalho possível…

Do lado dos Pragmáticos temos uma outra personagem global e mais conhecida: Linus Torvalds (LT). LT apenas começou a escrever e desenvolver o Linux porque as alternativas nos anos 90 eram de má qualidade ou excessivamente caras. Ah, e porque se queria divertir (acho que só conheceu as raparigas mais tarde…)🙂 Ganhou a fama por ser o primeiro geek a conseguir criar e regular uma comunidade online (no tempo das BBS e dos modems 1,2kbit/s), criar e publicar um núcleo de sistema operativo de qualidade aceitável para PCs com API UNIX, e integrar as contribuições de estranhos com total imparcialidade. Ao cabo de 11 anos de controlo da comunidade do “kernel”, Linus é conhecido como o “ditador benévolo”. O núcleo Linux foi a peça mágica que veio completar o sistema operativo GNU e permitir a popularização que o SW Livre hoje goza. Nada obriga o SW Livre a executar exclusivamente num S.O. Livre (o Firefox não se importa com o Windows…); no entanto as plataformas livres são um ambiente mais natural para a integração de soluções completamente Livres.

Hoje em dia, estes dois ícones representam as duas atitudes possíveis dos defensores do SW Livre: Stallman personifica o combate eterno pelo Bem, a defesa dos direitos dos cidadãos, e a conservação da Liberdade, seja no sentido de liberdade de escolha ou no sentido mais lato da Liberdade civil. É aquilo que eu chamo de “Cidadão completo”, tão ciente das suas responsabilidades civis como por exemplo os pais fundadores da Democracia. O termo “Free Software” engloba esta noção de defesa da Liberdade, e é sagrado para Stallman, não podendo ser confundido nunca com esse filho bastardo do “Open Source”. Por seu lado, Torvalds apresenta uma atitude muito menos política, centrada apenas nos direitos de autor: “Eu faço o melhor núcleo de sistema operativo do mundo, e por mim qualquer pessoa o pode usar e alterar. Querem vender serviços e produtos baseados no meu SW? Força! Não podem é remover os créditos dos autores originais!” E pronto. Desde que toda a gente saiba quem realmente criou a tecnologia, podem empregá-la como e onde quiserem, vendendo apenas a mais-valia criada por cada um. Simples e justo. É o sistema de meritocracia a funcionar.

Curiosamente, estes dois públicos estavam bem representados aqui em Lisboa no I Fórum de SW Livre português. Quase se podia ver as etiquetas na testa das pessoas: a maioria dos académicos e investigadores alinhava com os Puristas, e os empresários tresandavam a Pragmatismo. Os programadores distribuem-se pelas duas categorias, dependendo do seu nível de empreendedorismo. No meio, algo perdidos sem saber muito bem o que se passava, estavam os homens das organizações estatais e afins: eles já perceberam que esta coisa do SW Livre é importante – mais que não seja porque é de borla e até funciona bem (ao que parece não sofre de vírus, sempre é menos uma dor de cabeça) – mas ainda estão divididos entre a defesa dos direitos de cidadania e a vitalidade da economia. E como apenas sabem aquilo que os lobbies lhes dizem… continuam a pensar que são objectivos mutuamente exclusivos. Mas o simples facto de estarem presentes no Fórum, e também a inevitável experiência prática com o SW Livre nas repartições já convertidas, já revela uma abertura e vontade de aprender e pensar pela própria cabeça. Não peço mais que isso!🙂

Por todo o lado e de todas as pessoas com quem falo (com muito poucas excepções), obtenho estas mesmas duas “vibrações”: Purismo ou Pragmatismo.

Uma terceira facção está a formar-se a pouco e pouco; chamemos-lhes os Moderados.

Alguns exemplares também se encontraram lá no fórum, mas esta espécie ainda é um pouco rara, ou pelo menos mais modesta nas suas afirmações. São pessoas que sabem que o mundo não funciona a preto e branco (é mais para os 16 milhões de cores), e que os favoritismos devem ser temperados com bom-senso. São os consultores que constroem sistemas híbridos, escolhendo os melhores componentes de cada tecnologia, sem olhar demasiado ao facto de serem SW Livre ou Proprietário, pensando apenas no bem do cliente final. São educadores que escolhem SW Livre porque os programas são bons, inovadores, e fáceis de usar, e não apenas porque são gratuitos. São administradores de sistemas que conhecem igualmente bem o Windows Server 2003 e Red Hat Linux Enterprise Server e sabem integrá-los de modo transparente e sem problemas para os utilizadores. Enfim, são pessoas capazes de ver o mérito onde ele está, e que sabem que o crescimento social e cultural faz-se dia após dia, cabeça a cabeça. Não vale a pena enveredar por fundamentalismos que ninguém tem paciência para ouvir, nem vale a pena tentar ignorar a força económica real e intransponível que o SW Livre já é.

Alguns exemplos de vitalidade portuguesa que apanhei literalmente do ar, no Fórum: “Ângulo sólido” e “Log”. (Muitas mais haverá por aí; podem acrescentá-las em comentário a este artigo, ok?)

No meio está a virtude. 🙂 Encontremo-nos então no meio, enquanto resolvemos os problemas sociais/governamentais/de negócio que temos, com soluções de TI bem pensadas e com qualidade e bom-senso acima de tudo.

A libertação virá por si própria, pois o SW Livre é um gerador de valor inegável. Os agentes económicos tratarão disso, apenas temos de fazer o que gostamos de fazer: usar, produzir, e ensinar a melhor tecnologia todos os dias.

Há um autor que eu admiro bastante, apesar de ser Americano🙂 : Doc Searls, o “Public Relations” do Open Source. O blog dele é uma lufada de ar fresco em vários aspectos, mais que não seja porque tem sempre a aproximação simples e directa de alguém que não saberia programar para salvar a vida, mas que consegue sempre usar o software das formas mais eficazes e melhor adaptadas. É um pensador-livre, alguém que observa a evolução actual, lê os sinais da paisagem, e infere o futuro com muito jeito. Mais do que isso, é uma das figuras de referência da comunidade, tendo o seu discurso uma grande influência inspiradora no rumo que o Open Source toma. A sua visão do Software como um recurso natural ubíquo, uma matéria-prima natural para negócio, dá muito que pensar e é um desafio permanente aos empreendedores que amanhã irão disromper o mercado.

Um extracto interessante, apenas para dar o tom:

“Several years ago I was talking with Tim O’Reilly about the discomfort we both felt about treating information as a commodity. It seemed to us that information was something more, and quite different, than the communicable form of knowledge. It was not a commodity, exactly, and was insulted by the generality we call “content”.

Information, we observed, is derived from the verb inform, which is related to the verb form. To inform is not to “deliver information”, but rather to form the other party. If you tell me something I didn’t know before, I am changed by that. If I believe you, and value what you say, I have granted you authority. Meaning, I have given you the right to author what I know. Therefore, we are all authors of each other. This is a profoundly human condition in any case, but it is an especially important aspect of the open source value system. By forming each other, as we also form useful software, we are making the world. Not merely changing it.”

Bom, o texto já vai longo… acabo por aqui. Espero que os links sejam suficientes para vos entreter durante umas semanas a ler.😉

~ por Vasco Névoa em Outubro 24, 2007.

11 Respostas to “As duas faces do SW Livre”

  1. não li tudo, simplesmente porque falas no meio como virtude numa disputa de software livre e fechado. Não vejo virtude em não partilhar, mas sim egoísmo.

  2. Li o texto quase todo (tenho que admitir que algumas linhas saltei em busca da tua linha de pensamento principal) e no fim disto tudo, perguntei-me o que te vou perguntar agora:

    O governo português esteve a vender computadores ao desbarato para alunos e professores. Porquê o Vista? Porque não um compromisso “nós damo-vos um computador quase de borla, e vocês fazem um esforço para se adaptarem?”
    Perdeu-se uma oportunidade de ouro de modelar as mentes dos futuros portugueses e virá-los para o open source.
    Não seria uma medida politicamente correcta, mas mesmo assim foi uma oportunidade perdidade de penetração no mercado para o Linux

  3. Só para dizer, como utilizador digamos “quase obrigado” Windows, mas apaixonado pelo tema free e open source ( sou um curiosíssimo utilizador Ubuntu com muito ainda para aprender )que foi uma leitura que me deixou extasiado. Excelente, excelente…

  4. Ao João Matos, respondo com o chapéu de Moderado na cabeça:
    Egoísmo e Partilha são noções abstractas, e como tal dependem muito de quem faz o julgamento. O melhor mesmo é evitar os caminhos trilhados e avaliar caso-a-caso. No fim de contas, todos temos de comer. E isto obriga-nos a ganhar dinheiro. Se tudo o que fazemos é partilhar o nosso trabalho, viveremos da caridade e/ou morreremos à fome. Concordo contigo, partilhar é preciso; mais que isso, é vital para uma economia competitiva e de progresso sustentável. Mas tens de vender alguma coisa! No meu sistema de valores, só há uma coisa que aceito vender: Trabalho, seja na forma de horas, ou de materiais modificados. E a “informação” não é “material”, pois pode ser replicada infinitamente sem custo nem esforço. Logo, não aceito vender SW (que é informação). No entanto, tens de traçar a linha algures… o que vendes, e o que dás? a isto chama-se definir o modelo de negócio, e é incontornável!… E nesta altura da História, é inevitável ter de fazer compromissos, porque ainda é difícil estabelecer um bom modelo de negócio com base em SW Livre. Com o tempo e a experiência, arranjamos melhores modelos, e descartamos totalmente a praga proprietária, mas tem mesmo de ser um processo natural de melhores escolhas, senão não se aguenta em pé!

    Ao Ricardo Matos:
    Acho que, apesar de muitas batalhas perdidas, a guerra já está ganha. Haverá muitas mais oportunidades desperdiçadas, acredito, mas também não faz mal. É aqui que o SW Livre é radicalmente diferente do Proprietário: não estamos a conquistar um mercado; estamos a construir uma sociedade melhor. Temos tempo. A pressa é relativa…😉
    Lendo os sinais da paisagem, arrisco-me a afirmar o seguinte: dentro de dois anos, quase todos os telemóveis e PDAs correrão Linux, e os portáteis serão vendidos com o Linux em pé de igualdade com o Windows ou o Mac. Basta ver o número de iniciativas de SW Livre lançadas ao longo do último ano entre os fabricantes de telemóveis, e o sucesso que o Ubuntu (como distribuição “user-friendly”) está a ter entre os utilizadores de portáteis… se até já rouba clientes à Apple, então estamos no bom caminho!!!🙂

    Ao FLamarro:
    Obrigado! Enquanto houver quem leia com tanto prazer, irei ter igual prazer em escrever!🙂

  5. Umm… apaixonado, como sempre.

    Exagerado?Não diria, mas … e tendencioso? Será?

    Vejamos, … na minha multitude de personalidades, digamos que agora desperta Kevin Lomax, a personagem interpretada por Keanu Reeves em Devil’s Layer.

    Acho interessante o paralelismo feito em relação ao SW livre e os conceitos da democracia e responsabilidade e respeito individual. Parece-me que deixaste claro a existência de uma ligação inegável entre os dois. Não conhecendo concretamente os autores do conceito (SW Livre) não vou questionar essa relação. Aceito-a portanto, ie, dar-te-ei o “right to author what I know”🙂 .

    Falemos então de responsabilidade individual! Neste contexto podem buscar-se muitos exemplos dessa (falta de) responsabilidade.

    Sei lá…podemos falar da separação de lixo nos contentores correctos. Qual será a percentagem da população portuguesa, já há muito imersa numa campanha de informação/aculturação sobre o assunto, que cumpre com este ritual de separar, lavar e colocar o lixo nos respectivos contentores?

    Responsabilidade individual – 0 : Conformismo/comodismo/individualismo-1.

    Recordo os vários vizinhos que já tive, e claras mostras de responsabilidade e respeito dados por estes Sr/Sra’s. Tanto de vez em quando “alguem” acabava por ter de chamar a mui nobre PSP para intervir, afinal o dia de trabalho começaria dentro em pouco.

    Pergunto-me, quantos de nós somos vizinhos de vizinhos assim?

    Responsabilidade individual – 0 : Conformismo/comodismo/individualismo-2

    Ummm… vejamos…. ahhhh… lembro-me de qualquer coisa… errr… como se chama essa “coisa”, que devido à escassez associada a uma terrível falta de memória, se me escapa aqui por baixo da língua….SIM: referendo! Pois é isso mesmo. Lembram-se? Referendo?🙂 este vale por 2. Primeiro porque nem sempre os há. E depois, quando são feitos, … a malta vai pra praia, que o calor é bom é pra curtir à beira-mar, rodeado por duas dezenas de famílias barulhentas, 2 equipas de football de praia e uma de volei, … e não esquecer o meu preferido : Freezbie.

    Portanto:

    Responsabilidade individual – 0 : Conformismo/comodismo/individualismo-4

    Epa… isto não está certo! De certeza que se consegue arranjar um “ponto de honra” pra equipa da Responsabilidade individual… mas não sou eu que o farei (eu, aka, Kevin Lomax)

    Resumindo:

    Queremos mesmo responsabilidade individual? Se calhar não queremos. É que dá muito trabalho ser-se responsável. E ter de tomar iniciativa para o ser, ainda é pior! Se vivêssemos num aquário de “Responsabilidade”, então seriamos um ser estranho se também não pregássemos a mesma reza. Mas o contrário também é verdade. Aliás, é mais verdade, pois como sabemos, o universo evoluí para o caos (irresponsabilidade), e portanto so naturalmente irresponsáveis. Como vem sendo moda dizer: “está nos genes”.

    Ora bem, … começamos a falar da natureza humana (um tema em torno do qual se desenrola o filme do qual faço parte), o meu tema favorito (agora estou a interpretar o papel de Al Pacino, Lucifer)🙂 .

    “This is a profoundly human condition(…)”, peço desculpa por saltar para o fim do artigo, mas estou a tentar seguir uma linha de racioncinio. Pra quem me conhece bem, sabe que funciono um pouco assim, saltito de um lado pro outro (desculpem, agora já estou a ser o Rui Batista). Pois, natureza humana. Penso que foram vários os filósofos que tentaram descrever esta natureza, e nela sempre se encontraram ponto sórdidos, em algumas religiões (falo especificamente na minha, ie, Lúcifer … vá não se percam) são considerados pecados. Luxuria, Avareza, Preguiça, Ira, Inveja, Vaidade, Gula.

    Bem, mas verdade seja dita, é que isto só são pecados porque alguém assim o escreveu, eu (quem sou eu?) não ratifiquei nenhum deles. Aliás, e que tal o egoísmo? Ou a indiferença? Ou mesmo a sede poder? Onde todos os dias podemos encontrar estes outros pecados?

    É que, quer queiramos quer não, esta é também a nossa natureza, a nossa condição, a nossa “humanidade”. E que mais se pode esperar de um homem do que ser … humano?

    Assim sendo, bem vindos SW não livres, mas em que eu carrego num botão e tenho a última geração de bugs instalada no meu PC, garantindo assim a compatibilidade com todos os restantes membros do meu aquário… não sou um “freek”.

    Oh diabo (portanto, agora não sou o Diabo)…parece-me que… sim, é mesmo, é o Word da Microsoft onde estou a escrever isto! Ok, apanharam-me (Rui Batista), eu sou um Conformista irresponsável, ou como diria o Kevin Lomax (eu, portanto): “és apenas humano”.

    E sou porra! Conheço Ubuntu, e até já o instalei. Pois, mas agora tou a escrever no Word da Microsoft. Ah, pois, e tenho o Windows XP … e não é nenhum VMWare a correr em cima de outro SO qualquer. Essas orgias de SOs ainda me fazem muita confusão.

    Antes de abandonar o o tema da condição humana, vou só marcar mais um ponto.

    “Eu faço o melhor núcleo de sistema operativo do mundo, (…)vendendo apenas a mais-valia criada por cada um.” Meritocracia? Ooohohohoh… santa inocência (também podia ser um pecado, afinal é usado para nos desculparmos estupidamente, quando não temos mais desculpas, … eu ratificava esse). E que tal uma estratégia bem ponderada para divulgar o dito SO, e que afinal até teve a participação (à borlix) de tanta gente?

    É quase tão bom como a estratégia das “piratices” que sempre existiram em torno do SW da Microsoft. Mas afinal o que há para criticar? É apenas Humano.

    Sigamos para outra vertente.

    Aquando da minha Pós-grad. em Gestão de Projectos, foi-me introduzido um conceito interessantissímo no contexto da gestão de risco. Uma estratégia muito utilizada nesta área designa-se por “transferência de responsabilidade”. O que é? Bem, um exemplo, os seguros. Ao pagar-se um seguro estamos a transferir para a seguradora a responsabilidade de agir no caso de o o risco (algo que pode ou não vir a acontecer) se transformar num problema. O que é que isto tem a haver com o SW não livre? TUDO.

    So percebi isso quando coloquei a questão sobre o papel o SW livre no mercado dos sistemas de informação, ao Sr Mira Amaral (Dr, só para o meu dentista e hematologista) durante uma palestra que estava a dar no Instituto Superior de Gestão. O fulano, perdão, Sr, bufou umas quantas respostas quase ilegíveis (deve ser difícil articular os sons correctamente por entre aquela espuma “bocal” que caracteriza os discursos do fulano), mas ficou claro que a estratégia usada é mesmo essa: transferência de responsabilidade. Paga-se um balburdio, não para ter algo a funcionar correctamente e sem problemas, mas simplesmente para que, quando as coisas derem “bronca”, seja possível enterrar o fornecedor do serviço.

    Que horror, há tanto tempo que não escrevia tanto. Já me doí a cabeça… deve ser de ter tantas personalidades irrequietas.

    Hasta

  6. ao autor: livre é diferente de gratuito. se não compreendes um novo conceito económico no software livre, então informa-te, pesquisa.

    ao www: que os teus males (conformismo, etc), não sejam os de todos, já que desse mal sofremos, que a luta pelo software livre remova também esse mal.

  7. WWW:

    A (ir)responsabilidade civil é o grande problema da nossa sociedade, seja nacional ou internacional. Quando nem Pais nem Professores nem Políticos servem de exemplo, estamos mal… É portanto o maior desafio de crescimento que se apresenta a cada indivíduo e à sociedade em geral. Mas esse tema é demasiado lato para discutir aqui. Vou partir do princípio que, em média, existem 80% de pessoas irresponsáveis, preguiçosas, e comodistas (aqueles que eu chamo “carneiros”), e 20% de pessoas laboriosas que empurram a sociedade para a frente, mesmo que ela não esteja para aí virada. Mesmo que o número esteja mais perto dos 10%, ainda funciona. Apenas digo isto: mudar o mundo é fácil: comecem por vós mesmos, e o resto virá.

    O argumento da “transferência de responsabilidade” funciona muito bem, mas ao contrário do que disseste!! Foi precisamente isso que me trouxe ao SW Livre: É que, ao contrário do que se espera, ao comprar um SW Proprietário e assinar implicitamente a sua licença, NÃO estamos a transferir a responsabilidade para o autor do SW!… Isto fica claro ao ler o conteúdo das licenças proprietárias: temos direito a usar o SW (em condições muito limitadas), e caso aconteça algum problema, azar, desenrasque-se sozinho!!! Os autores de SW proprietário NUNCA são responsáveis por danos ou perdas ocorridos por causa da utilização do SW. Isto inclui, por exemplo, o caso de comprares um servidor de base de dados de última geração à maior empresa do mercado, e num crash ele perder toda a informação comercial da TUA empresa!! Se não tiveres backups… azarete! Ficaste sem clientes… Nenhum tribunal te vai dar razão, pois “assinaste” uma licença de utilização que te remove todos os direitos espectáveis (incluindo o de barafustar)!
    Ora, o que quer isto dizer? quer dizer que NÃO HÁ DIFERENÇA de responsabilidades entre SW Proprietário e Livre: nem um nem outro aceitam responsabilidades! Estou a pagar então pelo quê mesmo??…

    Fizeste uma afirmação profundamente perigosa: “garantindo assim a compatibilidade com todos os restantes membros do meu aquário… não sou um “freek”.” Pois… e que preço estás a pagar por estar “alinhado” com os outros carneirinhos?… A mediocridade! Escreveste mesmo a tua resposta no Word? Não me espanta, pois o teu texto (e peço desculpa pelo ataque, mas serve para demonstrar um ponto) está ainda cheio de erros ortográficos – se escrevesses directamente no Firefox, o corrector ortográfico Português (de Portugal), disponível gratuita e automaticamente, trataria de te ajudar e até ensinar a escrever melhor. O mesmo se aplicaria se quisesses seguir o teu método (Editor de texto em vez de browser): o “Open Office Writer” cuida de ti com o mesmo zelo.
    Isto é apenas um exemplo pequeno e mesquinho, mas ainda assim pertinente: quando as capacidades de um SW são vendidas uma-a-uma, só quem tem dinheiro é que beneficia dos “extras”… no SW Livre, não há “extras”!!! Tudo é alcançável.

    Quanto ao “Meritocracia? Ooohohohoh… santa inocência (…) uma estratégia bem ponderada para divulgar o dito SO, e que afinal até teve a participação (à borlix) de tanta gente? (…) É quase tão bom como a estratégia das “piratices” que sempre existiram em torno do SW da Microsoft. Mas afinal o que há para criticar?”
    Nada!!! Não há nada de moralmente reprovável na divulgação pública de uma obra colaborativa!!! Sendo o GNU/Linux construído (desde o primeiro dia) em colaboração aberta com quem quiser (e souber) contribuir, qual é o problema em haver uma “estratégia” de divulgação?? Se eu contribuísse para o kernel ou qq outra coisa, podes ter a certeza que ia fazer publicidade disso!!!🙂 É Humano ter orgulho do próprio trabalho!…

    Ah, o filme de que falas chama-se “Devil’s Advocate”…😛 e nele o pecado preferido do diabo é a vaidade… porque permite “injectar” todos os outros. Infelizmente, nós Portugueses sofremos muito disso: é “Sr. Eng.” práqui, “Sr. Dr.” práli… estou farto de dizer que não sou engenheiro, apenas licenciado, mas não entra… o status continua a ser moeda de troca na nossa economia. Enquanto isso for verdade, a corrupção alastra… a solução desse problema está na meritocracia: as pessoas devem ser respeitadas pelo valor útil que têm; e se não tiverem nenhum, devem ser ajudadas a obtê-lo!!! (Famílias/Escolas/Universidades com SW Livre!!)

    Bom, já chega de divagações.

  8. Respondendo novamente ao João Matos:

    “ao autor: livre é diferente de gratuito. se não compreendes um novo conceito económico no software livre, então informa-te, pesquisa.”

    Muito bem, aceito o desafio: vamos supor por um instante que realmente não compreendo o conceito; podes explicar-mo tu?
    Como digo no corpo principal da entrada, a minha questão fundamental é esta: Quais são os modelos de negócio eticamente praticáveis com base em SW Livre? (a resposta também está lá, mas vamos a um segundo round…)

  9. é simples. tu, como a grande maioria das pessoas com quem tenho discutido este assunto, acreditam que é um bom modelo de negócio, o do secretismo.
    Eu não publico os segredos do meu trabalho e isso faz com que eu ganhe dinheiro com isso. é simples certo?
    também concordo, mas de um ponto de vista estritamente virado para o meu bolso. e o que é que isso tem de errado? nada. o meu bolso dirige a minha vida
    então e o outro lado? o lado do consumidor.
    aquele que consome. que quer comprar um produto de confiança. que lê os rotulos. o que espera senão ingredientes, tabelas nutricionais, um simbolo de qualidade. o conhecimento do produto da-lhe confiança. e se eu fosse a um hipermercado e todos os produtos tivessem um grande simbolo e uma pequena “regra” de utilização? não estaria de certeza satisfeito, daí terem sido criadas normas que obrigam a apresentação dos chamados ingredientes.
    o produtor nunca é só produtor, é produtor e consumidor. no caso do software em que é que isso interessa? no fechado nada. no livre tudo, porque o produtor e o consumidor estão no mesmo nivel, porque ambos podem ser ambas as coisas.

    ja percebi. “se eu dou o que fiz então não faz sentido o que faço, porque pode outrem pegar e vender”
    É verdade, mas como consumidor e produtor num mesmo nível so tenho a ganhar com isso. Partindo do principio que temos conhecimento das clausulas da GPL, sabemos que não há nada que impeça a sua venda e também sabemos que ela diz que todo o software sob aquela licença tem de continuar sob aquela licença. então o consumidor/produtor continua a ganhar com isso.

    Já temos um modelo de negócio, vantajoso para ambos os lados e não só do produtor, porque neste caso não existe o só consumidor.

    mas não é só isso.

    Creio ter deixado explicito que estamos agora num mesmo patamar. É justo e ético. Mas a carteira ainda se queixa…
    Então sê o melhor!
    Cria mais! actualiza mais! corrige mais depressa! dá melhor suporte! dá melhor formação! sê mais criativo…
    Passamos agora a ter um modelo de concorrencia justa em que todo o software esta disponivel e é util para todos, mas o dinheiro sob a forma de abuso deixa de estar disponivel.

    De olhos bem abertos todos podemos ver isto a acontecer. A red hat tem um modelo de negócio livre e é a referencia. eles tiram da comunidade e devolvem; são dos maiores contribuintes! ta na bolsa, tem escritorios em todo o mundo.
    Novell soube perceber que o seu produto estava descontinuado e foi aproveitar o modelo livre; e devolveu à comunidade. cotada na bolsa, etc.
    canonical, mandriva, mesmo em portugal a caixa magica…

    enfim, utópico não é, isso já está provado! se é o melhor modelo de negócio? pelo menos é muito mais justo! e isso parece ser o que tu e todos estamos a fazer: abrir os olhos.

    espero ter sido claro, construtivo e que te tenha ajudado na compreensão de uma ideia que pode ser utilizada não só no software livre, porque como eu costumo dizer:

    Livre também é uma forma de estar.

    Deixo-te até uma proposta. usando o conceito de software livre, ou seja, podes modificar, criar derivados e redistribui-los desde que mantenha a mesma licença, aplica-o a outros tipos de negócio.

  10. Excelente, João.🙂 Não esperava de ti uma recuperação tão boa.😉
    Afinal, somos da mesma mente; apenas temos maneiras diferentes de nos exprimirmos.
    Quanto ao teu desafio, tem graça, estou neste momento a fazer isso mesmo… mas como ainda está tudo na terra dos sonhos, não vou revelar já o que é, sob pena de destruir uma ideia ainda débil. Bom, talvez uma dica: ler as conclusões da minha página sobre híbridos…🙂

  11. […] Aberto, Gratuito… A minha troca de galhardetes com o João Matos foi interessante, e tenho de admitir que os meus escritos baralham um […]

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