O lixo não existe

Há conceitos que não me entram na cabeça. Talvez seja demasiado pequena, não sei, mas não entram mesmo.

O “lixo” é um deles.

E escrevo “lixo” em vez de lixo porque para mim ele não existe, é um produto do imaginário colectivo desta nossa “bela” sociedade.

Eu explico.

Tive um azar há bocado, a bateria do meu carro pifou de vez. Lá tive de ir a pé até à oficina mais próxima, e “pagar o pato”, ou seja, uma bateria nova (a velha já não carregava). Felizmente, até nem foi muito caro.

Mas tal como manda a lei, eles ficaram (e ainda bem) com a bateria velha. Muito bonito, sim senhor, o sistema de reciclagem de baterias parece efectivamente funcionar.

Mas… há aqui qualquer coisa que não entendi: então eu pago à volta de 100€ por uma bateria nova, e ninguém me dá nada pela velha??… Bom, a maior parte das pessoas diria logo: “então, se aquilo já não dá nada, não vale nada!!!”

Ora aqui reside o grande engano. A “coisa velha e inútil”, para além de ser constituída por 17 kg de chumbo da melhor qualidade, que só por si vale cerca de 38€ (ao custo de 2,27 €/kg de hoje), facilmente recuperável (se se souber como), tem ainda a vantagem de o apresentar sob uma forma tecnológica compatível com a reutilização quase imediata. Ou seja, para um fabricante de baterias, reciclar uma velha e torná-la numa nova é quase “1-2-3, já está”. Basta dessulfatar, remover algumas imperfeições (resíduos, curto-circuitos, substituir uma placa ou outra), recarregar com electrólito de ácido sulfúrico, e está outra vez nova, pronta para todo o serviço.

Mas… alguém faz isso?!… não sei, mas se andam a fazer, eu não estou a receber a minha quota parte nesta cadeia de valor!! A minha bateria velha ainda vale muito dinheiro, desde que vá parar às mãos certas. Senão… é “lixo”.

É isto que me faz confusão.

Exactamente o mesmo raciocínio pode ser feito para absolutamente tudo aquilo que compramos: todos os resíduos que produzimos no dia-a-dia têm valor para alguém, e normalmente esse alguém é a mesma entidade que gerou o produto a partir do qual nós produzimos os resíduos. Até os restos de comida, a chamada biomassa, pode ser convertida em energia. Existem cidades (em países mais civilizados que o nosso) atentas a este pormenor, que reutilizam a biomassa residual para fabrico de gás combustível. Então porque é que os produtores não reciclam TODOS os resíduos?!… Mais ainda, porque é que não pagam aos “consumidores” (outra palavra falsa, mas que fica para outro dia) pelo serviço que estes prestam ao retornar esta matéria-prima ao local onde ela faz mais falta, que é a fábrica?

Não sou o primeiro a pensar nisto, nem serei o último. Já vi várias iniciativas dentro deste espírito; por exemplo, máquinas de recolha de vasilhame instaladas em hipermercados, onde se enfiam garrafas vazias e saem moedas. Isto é a economia no seu todo, a funcionar como devia ser. O ciclo de vida dos produtos não acaba no instante em que eles já não têm valor para nós; é preciso levá-los até ao próximo passo, entregá-los a quem ainda lhes dá valor, para que a economia funcione em pleno! Um país que recicla com eficácia é um país mais rico (não só moralmente, mas também em €€€)!

É esta uma das grandes falhas da campanha dos 3-Rs (Reduzir, Reutilizar, Reciclar): não há sistema de recompensa. E isto, em si próprio, é injusto, e é triste. É uma oportunidade perdida.

E é justificação suficiente para a grande massa de gente que não se importa minimamente com a morte do ecossistema (sem o qual eles próprios não podem sobreviver) e que não Reduz (que chatice!), nem Reutiliza (épá, esqueci-me!), e muito menos Recicla (Deus me livre, ir ao Ecoponto! só a pachorra!)…

E se pensarmos bem, também é justificação para a crassa incompetência e ineficácia mostrada pelos serviços de recolha do Ecoponto, que deixam os ditos transbordarem para a estrada por falta de cumprimento do calendário, e que despejam todo o conteúdo dos 3 contentores (Embalagens, Vidro, Papel-Cartão) para dentro da mesma camioneta, misturando tudo e anulando o esforço de separação de milhares de pessoas, como já vi fazer várias vezes… porque é que eles hão-de se preocupar? Não há cadeia de valor! É “lixo”!!!

As pessoas que separam e reciclam, representam um recurso económico/industrial precioso, e estão a ser desmotivadas e desrespeitadas, por uma astronómica falta de visão por parte da própria indústria! da estrutura estadual! Não é lógico esperar que um sistema económico sobreviva apenas por decreto das instituições reguladoras; ele tem de fazer sentido financeiro. E enquanto a indústria (e principalmente o negócio da Distribuição) continuar cegamente a desperdiçar o recurso precioso que são os resíduos, o futuro é negro. Aqui parece que fui induzido em erro pelas minhas observações e falta de informação – parece que a indústria já paga pelos resíduos que recolhe. Nós é que não vemos nada desse dinheiro!!! Quem o vê então?!… as autarquias? algum órgão “macro” do Estado? A “Sociedade Ponto Verde“? Alguma(s) empresa(s) subcontratada(s)? Isto não me parece nada correcto… porque é que temos de pagar o IVA nos produtos que compramos, mas não recebemos nenhum pagamento quando somos fornecedores no ciclo industrial (ao reciclar)?…

Lendo a página da Sociedade Ponto Verde, percebe-se que existem “Operadores de Recolha (Sistemas Municipais e Autarquias ou Empresas Concessionárias” que têm contratos com a SPV, “beneficiando por isso de contrapartidas financeiras”. Estão encontrados os culpados. Parece que os “Operadores de Recolha” são o fim do ciclo, no que toca ao dinheiro… Vejo aqui uma bela oportunidade de negócio: quem quiser entrar neste mercado da reciclagem, pode imediatamente suplantar a concorrência actual através do pagamento directo ao entregador de resíduos… apesar da margem de lucro ser menor, acho que facilmente se compensa em volume, fazendo valer a pena o investimento. Pensem nisso!😉

Porque é que o “Continente”/”Corte Inglés”/”qualquer outro supermercado que faz entregas ao domicílio” não recolhe os resíduos dos seus próprios produtos, que lá deixou antes? Eles, acima de todos, seriam capazes de localizar eficazmente as entidades que mais beneficiariam (mais pagariam) pelos resíduos. Desta forma, poderiam até exceder facilmente a simples reciclagem de embalagens, podendo enveredar pela reciclagem de produtos em fim de vida, como por exemplo bens de consumo electrónico…

Em alternativa ou complementaridade, porque é que as autarquias não alteram o sistema de recolha actual de modo a instituir uma conta-corrente que permita pagar o valor justo pelos resíduos a quem os entrega?

Isto sim, era uma economia dinâmica e competitiva!!!

~ por Vasco Névoa em Setembro 7, 2007.

4 Respostas to “O lixo não existe”

  1. Uma pequena nota: na minha rua o ecoponto é recolhido por 3 equipas diferentes. Uns dias levam plásticos, outros vidro e outros cartão. Esse esforço que dizes que é desperdiçado, pelo menos na minha freguesia, não é assim.

    Uma falha que vou apontar ao teu raciocinio, com o qual concordo a cerca de 95% (geeks e as suas percentagens) é a tua ideia de que não existe recompensa pelo acto da reciclagem. Está errada. Quem entrega o lixo para reciclagem recebe de facto dinheiro. Nunca viste esse dinheiro?


    Nem tu nem ninguém!!! Portugal exporta o lixo para reciclagem para outros países que efectivamente o compram. Se as empresas de reciclagem fossem Portuguesas, e tivessem as suas fábricas cá em Portugal, então estarias a receber directamente a tua moedinha pelo teu bom senso. Como as coisas estão, cai o dinheiro nos bolsos do governo/empresas que controlam o sistema de recolha em Portugal.
    Por muito pouco que me desagrade esta aldrabice, não consigo deixar de levar as coisas ao ecoponto. Uma garrafa de vidro no lixo comum é para mim um peso na consciencia que não consigo suportar.

  2. Bem visto. Integrei a tua observação no texto, e acrescentei também as minhas conclusões.
    Obrigado!

  3. Sempre pronto a ajudar Vasco. Os blogs são os melhores/piores sitios para se por os projectos/ideias/devaneios, porque tens sempre um “mob” de criticos prontos a desmontar as tuas verborreias mentais e encontrar a minima falha, ou não estivesse esta www cheia de geeks sedentos de sangue😉

  4. Bem … começo por dar 2 verdades inegaveis:
    “Money Talks, bullshit walks” e “Não é a gravidade que faz girar a Terra em torno do Sol, mas sim o dinheiro”.

    não uma defesa.
    Pra quem me conhece, não defendo o dinheiro… mas foi assim que decidimos montar as nossas sociedades. O guito é a força motriz de quase tudo, desde a criação de um novo bairro social, até ao bater de asas de um mosquito!!! é verdade! é inegável!

    é pelo menos assim que procuro entender os problemas à minha volta: “follow the money track, and you’ll find the guilty one”.
    Penso que este caso não é muito diferente.

    Começo por concordar com Vasco no inicio do artigo…o “lixo” não é lixo . Se até a merda que cagamos pode ser aproveitada, não percebo porque tudo o resto não pode ser aproveitado tb. “Ahh e tal, é muito complexo, tecnologicamente….” BULSHIT! à quase 40 anos atras metemos homens na lua… e que boar merda que isso trouxe para o mundo! A tecnologia, como tudo o resto, é criada… mas para criar, é preciso investir … e para investir é preciso dinheiro (foda-se).
    Portanto, é preciso criar um negocio em torno da “reciclagem” (genreicamente , dos 3R) e todos as restantes iniciativas indispensaveis para sobrevivencia do nosso planeta…se não qq dia estamos a ter um alerta vermelho da protecção civil: “tornado nivel cinco esperado em Lisboa pelas 17:00” …
    :p

    felizmente, eu disse “… força motriz de quase tudo”
    aind ha esperança🙂

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