Como ficar rico num instante

Estou a ler um livro espantoso.

Podia dar-lhe uma série de títulos diferentes, como por exemplo “Toda a verdade que você queria saber sobre a vida real e os seus pais tiveram vergonha de ensinar”, ou “Como deixei de ser um explorado e passei a ser um explorador”, ou mais simplesmente “Como se tornar numa máquina de fazer dinheiro da noite para o dia” – o que não anda longe do título original.

Mas primeiro uma introdução.

Numa conferência a que assisti em Lisboa sobre a GPLv3 dada pelo fundador da “Free Software FoundationRichard Stallman no Fórum Picoas, conheci um empresário português muito dinâmico e interessante. Entabulámos conversa sobre o papel do Software Livre nos modelos de negócio no mercado Português, e ao fim de pouco tempo ele tinha “desmascarado” as minhas ideias pré-concebidas sobre o tecido empresarial nacional. O foco da conversa passou a ser a questão de como iniciar um negócio tecnológico por estes lados, e foi-me transmitida a mensagem de que isso é muito mais fácil do que parece, desde que estejamos empenhados em mostrar qualidade e consistência na relação com os clientes. Posto de forma simples, “arranja-se um produto/serviço, dois ou três clientes-piloto, e depois a coisa cresce e logo se vê. Há muitas mais oportunidades por aí do que as pessoas pensam; é só querer trabalhar”. Não foram estas as palavras exactas, mas era este o espírito. Quando lhe perguntei como começar a coisa, ele indicou-me um livro: “The 4 hour workweek“, de Tim Ferriss.

4hww.jpgTenho de fazer uma ressalva: se por acaso eu me cruzasse com este livro numa livraria ou com esta página na Web, podem ter a certeza que nem lhes daria mais do que 3 segundos da minha atenção depois de ler as letras gordas!… O sítio tresanda a marketing “banha-da-cobra”, e o livro está apresentado como um daqueles guias de “self-help” imprestáveis que os americanos tanto consomem… No entanto, dada a qualidade da pessoa que me tinha dado a referência, tive de ler o sítio com um mínimo de atenção, e resolvi dar uma oportunidade ao livro.

É esta obra de inacreditável franqueza que eu quero apresentar aqui, pois acho que é incontornável. Estou certo que haverá mais livros deste género (dizem-me que o Richard Branson também escreveu algo do género), principalmente escritos por americanos e para americanos, mas para mim é uma primeira experiência – e é mesmo uma experiência de vida. Acho que a nossa vida muda após esta leitura, mesmo que não se faça nada do que está lá escrito. O mundo fica iluminado por uma luz diferente. É a perda da inocência, de certo modo.

Ignorando o formato às vezes irritante e paternalista de “how-to” para mentecaptos, o livro torna-se numa fonte inesgotável de surpresas, tanto pelas afirmações audaciosas que faz, como pela naturalidade desarmante com que as explica de forma simples e credível. Tim Ferriss auto-intitula-se “Empresário em série” e “Ultra vagabundo”, duas posturas bastante promissoras para quem anda à procura de uma vida mais interessante. Este livro é uma espécie de auto-biografia do Sr. Ferriss, “enlatada” como produto para venda a uma classe gigantesca de pessoas desejosas de uma vida melhor. Pessoas que, tal como eu, navegam a “selva dos cubículos” diariamente, desempenhando a sua tarefa profissional sempre com o mesmo pensamento latente no subconsciente: “Tem de haver uma vida melhor que esta!… não faz sentido trabalhar como um animal durante os melhores anos da nossa vida, e só começar a gozá-la na reforma, quando já estamos velhos!!!”

Uma coisa fica já clara: o tipo cumpre o prometido. Ensina-nos a arranjar maneira de vivermos a vida dos nossos sonhos. A questão é… como?

Como americano que é, o seu método tinha de ter uma sigla sonante: DEAL. Cada fase do processo é apresentada em capítulos dedicados:

  • D is for Definition
    • Lavagem cerebral, ou talvez desmontagem da lavagem cerebral que nos é efectuada desde cedo sobre o “valor do trabalho” e a necessidade de trabalhar muitas horas para obter resultados. Recuperação dos nossos sonhos pessoais como motivação de vida, e respectivo planeamento realista.
  • E is for Elimination
    • Instruções sobre como aumentar drasticamente a nossa eficiência profissional e pessoal, de modo a recuperarmos o tempo que é nosso por direito natural.
  • A is for Automation
    • Dicas em como originar um negócio que nos renda dinheiro suficiente (sem chatices ou perdas de tempo) para financiarmos os nossos sonhos concretos. Uma quantidade estonteante de dicas, referências online, e métodos práticos, alguns extremamente valiosos.
  • L is for Liberation
    • Ainda não li, mas acho que é sobre como gerir o tal negócio a partir de qualquer praia tropical ou montanha nevada, sem investir mais do que as tais 4 horas por semana, enquanto viajamos pelo mundo de forma barata a concretizar os nossos desejos loucos um após o outro. Inclui técnicas preciosas para permitir a trabalhadores de empresas “tradicionais” libertarem-se da presença obrigatória no escritório.

Técnica e objectivamente, o livro é uma compilação valiosa de “ovos-de-colombo”; ensina a reganhar o controlo do nosso tempo e a sustentar o nosso estilo de vida ideal (que já podemos ter, se tivermos tempo😉 ).

No entanto, tenho de analisar o conteúdo à luz de todas as minhas facetas, e há aqui um problema: a ética.

Às páginas tantas, ficamos com uma forte impressão que o Tim Ferriss é um especialista em caminhar sobre a fina linha que separa a honestidade e a desonestidade com a graça e a aparente facilidade de um trapezista de circo. No meio de todas as suas acrobacias fantásticas, é fácil perder de vista a referência da terra. A frieza calculista e a simplicidade pouco escrupulosa com que monta métodos de ataque e explora sistemas de comportamento para implementar o seu método de enriquecimento rápido e duradouro chocam frequentemente com as minhas noções de justiça, de igualdade, de ética, e de progresso social. Este indivíduo parece explorar sistematicamente as falhas de todos os sistemas sociais que encontra, de modo a ganhar enormes vantagens competitivas que normalmente lhe seriam impossíveis de obter. É no capítulo de “Automation” que sinto as maiores objecções aos seus ensinamentos. O seu método engloba muita coisa que considero errada na nossa sociedade: a criação e venda de produtos de valor duvidoso, com preços inflacionados através de técnicas artificiais (marketing agressivo e restrições surreais de pricing); a auto-promoção ultra-rápida através de técnicas de manipulação de informação pública; o não olhar a meios para atingir fins…

Claro que não se encontra uma única palavra que nos permita apontar o dedo e gritar “FALTA!”… é aqui que reside o génio deste jovem – ele apenas vê os defeitos ou omissões do sistema e utiliza-os de forma eficaz em sua vantagem. O que, de certa forma, tem o condão de gerar felicidade não só na sua vida, mas também na vida dos outros, aqueles com quem ele trabalha, pois o seu método é muito eficaz para optimizar as empresas e libertar os colaboradores e os gestores do “não-trabalho” idiota. No fim do dia, acredito nas suas afirmações de que todos ficam melhor através “do seu método”: tanto o gestor da empresa, como os trabalhadores “outsourced” (ele não emprega ninguém directamente), como os clientes. Mas fico sempre com aquele travo de “aproveitador inescrupuloso” no fim do capítulo…

Em última análise, acho que este juízo subjectivo vai depender apenas da qualidade intrínseca do produto vendido (o suporte ao cliente já está factorizado no “método”): se for bom, então tudo o resto funciona às mil maravilhas e o sistema é justo.

Acho que tanto o livro, o sítio, o blog, como o homem por detrás destas ideias têm todos os seus pontos positivos, e muita coisa para ensinar a todos quantos quiserem dar umas horitas de estudo a este assunto. Quem compra este livro está a comprar um bilhete para uma montanha-russa da vida real.

Fica aqui a dica.

~ por Vasco Névoa em Julho 15, 2007.

Uma resposta to “Como ficar rico num instante”

  1. (Respondido por email, copiado para aqui por mim)

    Cuidado com a distinção entre empreendedor e falta de escrúpulos. Um exercício:

    Olha à tua volta (em casa ou no escritório) e escreve a razão porque compraste 10 coisas. Depois, se parecerem racionais, pensa melhor se realmente precisavas delas ou não. O que teria acontecido se não as tivesses comprado. E depois, pergunta-te de novo, qual foi a VERDADEIRA razão para comprares as coisas.

    As pessoas pagam por muita coisa, mas raras vezes apenas pelo produto. Se pensares bem há sempre alternativas, melhores e mais baratas. Então a questão que fica é porque raio escolhes comprar. E mais importante, se quem te vende é pouco escrupuloso.

    Particularmente na nossa cultura, “racional” é considerado frio; “inovador” é considerado aproveitador e os “ovos de colombo” são desprezados. Tenta evitar o mesmo.

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