Revolução móvel

Existe um projecto de Software Livre que me “fala ao coração”. Está a marcar o início de uma nova era na história da tecnologia portátil. Para já, na tecnologia de telefones móveis – inicialmente na classe dos “smartphones”, que são aqueles PDAs que andam disfarçados de télélés. Mas mais tarde, quem sabe onde não será usado?

Até agora, ao comprar um aparelho destes, a escolha estava praticamente limitada ao “Windows Mobile”. Isto não seria uma desvantagem, se os fornecedores fossem simpáticos e fornecessem um bom suporte ao utilizador, incluindo actualizações de Software para corrigir as enormes quantidades de problemas com que os aparelhos são vendidos ao público. Mas quem como eu comprou um Qtek S100 ou outro PDA/telefone ou smartphone do género, sabe que o “bicho” nasce e morre com os mesmos defeitos, sem qualquer possibilidade de melhoria. Faz parte do ciclo de vendas, que se quer curto para alimentar o consumismo. Quanto mais depressa nos fartarmos deste, mais depressa queremos comprar o próximo… E o que pensar das características e funcionalidades, que são escolhidas pelos fabricantes e operadores e “empacotadas” em produtos para “segmentos de mercado”? E se eu não pertencer a um segmento definido? O que acontece se eu quiser a simplicidade de um modelo de “entrada” aliado a uma característica específica de um “topo de gama”? Tenho mesmo de pagar o preço do topo de gama, e aturar a complexidade e os problemas inerentes…

Não seria perfeito se pudéssemos escolher exactamente como o nosso telefone funciona? Um simples “tijolo” “à prova de bala” para fazer chamadas e mandar mensagens sem nenhuma complicação extra; ou um telefone inteligente capaz de usar automaticamente os “hotspots” “wi-fi” para fazer chamadas baratas VoIP (com o Skype ou uma qualquer solução SIP) e recair na rede móvel quando não há wi-fi; ou um tudo-em-um capaz de fazer o mesmo trabalho de um GPS portátil ao mesmo tempo que organiza a nossa vida atarefada como um PDA e nos dá música com a mesma simplicidade e qualidade de um iPod, sem termos de carregar 4 aparelhos connosco para fazer cada uma destas coisas… e que tal um telemóvel completamente adaptado às crianças, tanto na simplicidade como na segurança de utilização, e que ainda por cima nos permite saber (e apenas a nós) onde andam os nossos pequenos a qualquer momento? Ou adaptado ao cidadão sénior? Ou um telemóvel que seja capaz de “perceber” onde está, e adaptar-se automaticamente à situação (silêncio no trabalho, vibração em casa, e som alto na rua, por exemplo) sem lhe dizermos nada?…

OpenMoko Logo

 

O OpenMoko pode ser tudo isto e muito mais; o limite está na imaginação das pessoas que o usam. O lema é “Free your phone. A intenção do projecto é gerar uma plataforma de Software Livre para dispositivos móveis que traga toda a liberdade e poder do GNU/Linux ao utilizador quotidiano do telemóvel. A mesma facilidade de obtenção, instalação, e desinstalação de programas, bem como uma comunidade calorosa de autores e utilizadores pronta a dar o suporte necessário, que já faz parte da experiência comum de quem usa GNU/Linux no PC, passará agora a estar disponível no telemóvel. Ahh, já tenho água na boca só de imaginar…🙂

OpenMoko é o que se obtém quando se mistura um dos mais dinâmicos fabricantes de smartphones (e não só) de Taiwan com algumas das melhores almas do mundo do Software Livre. A FIC, “First International Computer”, decidiu apostar num modelo de aparelho com GNU/Linux em vez de Windows Mobile. A equipa nuclear que o desenvolve é composta por: Sean Moss-Pultz, americano, gestor de produção na FIC, líder e fundador do projecto, um defensor do Software Livre que sonha revolucionar o ensino através da tecnologia, surfista de longa data e aficionado dos motores; Harald Welte, alemão, principal “Arquitecto de Sistema” do projecto, Linux hacker, cão de guarda das violações à licença “Open Source” GPL, guru das redes/firewalling/NetFilter, e aficionado do rock gótico; Mickey Lauer, alemão, “Arquitecto de Infraestrutura” do projecto, Linux hacker, Doutorado e guru em sistemas distribuídos móveis, sonhador da computação ubíqua, apaixonado por guitarra e teclas; Werner Almesberger, austríaco, “Arquitecto de Sistema” do projecto, Linux hacker, guru de redes e desenho de protocolos de comunicação, viciado na vida nocturna de Buenos Aires e música electrónica. Para além deste núcleo duro pago pela FIC, existe uma comunidade mundial de linux hackers voluntários que já ascende comprovadamente a 36 pessoas neste momento (com tendência para aumentar indefinidamente) e que colabora e se sincroniza através do wiki do projecto. Aqui toda a gente pode contribuir, tanto na forma de desenvolvimento puro e duro, como em todos os aspectos menos técnicos do projecto, como seja por exemplo as “wish lists”, onde qualquer pessoa pode dizer o que é que gostava de ver presente no seu telemóvel perfeito. Um exemplo de hackers todos contentes em trabalhar de graça para este projecto pode ser visto aqui.

Neo1973A primeira versão do OpenMoko irá ser disponibilizada pela FIC juntamente com o modelo de smartphone especialmente desenvolvido para a ocasião, o “Neo1973“, mas isso não limita de modo nenhum o âmbito do projecto; o SW do OpenMoko, público e livre, irá sempre continuar a ser desenvolvido para este e outros novos modelos de aparelho, e será provavelmente estendido a outros modelos já existentes (desta e outras marcas). Como acontece com tantos outros projectos de SW livre, onde houver uma base de utilizadores de um dispositivo, irá sem dúvida nascer suporte para instalar o openmoko. Eu tenho grande curiosidade em vê-lo a “carburar” no meu Qtek S100 em vez do WM2003SE.😉 E o mais importante, é que sempre que o SW é corrigido, todos os aparelhos que o usam podem usufruir automaticamente da actualização através da internet.

Entretanto, este projecto já está a produzir ondas de ressonância por todo o mundo geek, e até no mundo do negócio tecnológico. Quando o Sean apresentou o projecto à FIC e aos respectivos parceiros e concorrentes (os suspeitos do costume, ou seja, os outros fabricantes de telemóveis e os operadores de telecomunicações), ele conseguiu mesmo “vender” a vantagem competitiva do SW Livre: custos e tempos de desenvolvimento menores, diversificação do mercado aplicacional por homogeneização da base tecnológica, e maior fidelização de cliente através de utilizadores mais satisfeitos, entre outros pontos.

O projecto foi crescendo, e aquilo que era apenas um produto novo tornou-se numa aventura revolucionária; a mentalidade de um projecto “Open Source” é de tal forma diferente da maneira tradicional fechada de trabalhar na indústria electrónica, que acabaram por transformar o projecto numa nova empresa de direito próprio, para poder satisfazer o novo estilo de vida imposto pela mecânica da partilha e da transparência.

Esta foi a revolução dentro da própria FIC. Ao aceitarem este desafio, eles não só apadrinharam um projecto de SW Livre, mas fizeram coisas inéditas na indústria da “electrónica de consumo”:

  • Discutiram publicamente (com os próprios utilizadores) quais deveriam ser as características físicas de um bom telemóvel;
  • Publicaram aberta e pormenorizadamente toda a informação técnica sobre a constituição do aparelho, sujeita a discussão aberta;
  • Integraram a colaboração pública no seu processo de desenvolvimento técnico, como por exemplo pedindo sugestões de “chips” electrónicos para integrar de modo a satisfazer os exigentes requisitos.

Ao mesmo tempo, do lado da Comunidade Open Source, houve um conjunto de movimentações no sentido de aproveitar a oportunidade e reforçar a unificação do SW Livre; muitos dos projectos já existentes para PC estão a ser considerados para aplicação em telemóveis, e há uma “febre” de ideias inovadoras no ar, alimentada pela enorme potencialidade da nova plataforma móvel livre, que oferece novas possibilidades de utilização. Os movimentos que mais me saltaram à vista foram:

  • O OpenMoko foi fundado sobre uma base muito sólida e com muita experiência, o OpenEmbedded, que por sua vez proveio de um outro projecto comercial, o OpenZaurus, iniciado pela Samsung para vender os seus PDAs “Zaurus” com GNU/Linux;
  • O projecto Gnome criou a “Gnome Mobile & Embedded Initiative“, dando a mão ao OpenMoko para lhe fornecer um ambiente gráfico moderno, consistente e luxuoso.
  • O projecto Maemo (software livre para as “Internet Tablets” da Nokia) tem interesse em partilhar algum código, como por exemplo as bibliotecas de GPS.

Mas há sempre concorrência, principalmente no mundo do SW Livre. Neste caso, foi o OpenMoko que veio fazer concorrência a outro projecto da mesma natureza que já estava a decorrer desde 2005: o “Ubuntu Mobile“, que deve começar a dar os seus frutos em Outubro próximo, aquando da saída do Ubuntu 7.10, “Gutsy Gibbon”. Quando isso acontecer, a distribuição Ubuntu vai passar a estar disponível em três tipos de plataforma: Server, Desktop, e Mobile. Esta iniciativa tem o apoio indirecto da Intel e da Nokia e cobre vários aparelhos com arquitectura Intel (que foram originalmente vendidos ao público com Windows). É uma pena que não haja mais conjunção de esforços, mas um pouco de diversidade até é saudável. De qualquer forma, acho inevitável que haja partilha entre os dois projectos, até porque ambos vão usar o mesmo ambiente gráfico, o Gnome. Para além disso, o património mundial de bons Linux hackers com experiência em “sistemas embebidos” é limitado, e eles acabam por fazer uma perninha em todos os projectos.😉

Enfim, novos tempos se avizinham. Para mim, são excitantes. Têm o sabor da liberdade que se forma por vontade dos cidadãos.

~ por Vasco Névoa em Julho 3, 2007.

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