O sucesso do nosso fracasso

A minha estupefação inicial com a incompetência dos médicos em identificar os meus problemas clínicos transformou-se, finalmente, em aceitação. Foi preciso eu tomar as rédeas do processo, estudar muito sobre assuntos que nunca me tinham interessado na vida, e aprender coisas que os próprios médicos não sabem, para poder recuperar a minha saúde.

Custou-me bastante passar por cima do facto de que os médicos são apenas mais uma classe profissional como qualquer outra, e como tal estão sujeitos às mesmas percentagens de incompetência, corrupção, e desencantamento que os outros. Perguntavam-me aqui há uns tempos porque é que existiam as Ordens em certas profissões (Médicos, Engenheiros, etc.) e não noutras. Para mim, a resposta é simples: porque essas profissões têm uma responsabilidade civil muito elevada. Quando um médico ou um engenheiro se engana ou é desleixado, há vidas e custos avultados em jogo. Por isso alguém tem de servir de “guarda” do código ético destas profissões e monitorizar a entrada de sangue novo e o comportamento dos outros que já lá andam há mais tempo.

Infelizmente, o mundo é bastante mais complexo que isto. Porque é feito de pessoas. E as pessoas tomam decisões com base nas emoções muito mais frequentemente do que com base nos factos.

Li agora um artigo bastante extenso sobre o falhanço total que é a ciência médica moderna: a maioria dos estudos científicos publicados são uma grande treta. Isto acontece porque a progressão de carreira e a própria sobrevivência dos investigadores académicos está directamente dependente da quantidade e novidade dos artigos que conseguem ver publicados. As revistas científicas e médicas conceituadas, por sua vez, também dependem do efeito de novidade / espanto / polémica provocados pelos artigos que publicam, tal como qualquer outro canal de “media”. Estas duas realidades, muito complexas em si próprias, conspiram juntas para criar uma fonte de ruído constante que alimenta a formação (ou devo dizer, deformação) dos profissionais de medicina.

Hoje é o sal que provoca hipertensão, depois afinal é a carne vermelha, afinal não, é a gordura, ou então se calhar é o açúcar… no meio de tantas contradições, publicadas em revistas supostamente credíveis e seguidamente amplificadas por jornalistas que percebem ainda menos sobre o assunto (e que não têm um controlo ético efectivo a olhar por eles) é inevitável sucumbir ao cansaço e dissonância cognitiva em que vive a prática da medicina. Não é de admirar que os médicos acabem por desistir de acompanhar a actualidade científica e se resumam à velha informação que “empinaram” no curso, temperada parcialmente com a experiência prática do estágio e talvez alguma da experiência subsequente. Às vezes chego a ter pena deles.

Mas não é para ter pena. São profissionais como todos os outros. Se um engenheiro também tem de se guiar por normas dispersas, confusas, contraditórias, e frequentemente manipuladas por entidades monopolistas, e ainda por cima tem de lutar por encaixar os requisitos pouco razoáveis das forças de marketing e gestão com as exigências abstrusas e redundantes dos organismos reguladores, então não vejo porque hão-de os médicos ser desculpados pelo seu constante fracasso. Sim, constante fracasso: quando um médico passa uma receita para melhorar um sintoma, falhou o diagnóstico e está potencialmente a piorar o problema. E tratar sintomas é o cerne do jogo médico hoje em dia.

Um destes dias almoçava eu com um médico sexagenário, ele próprio obeso e a convalescer da instalação de uma prótese para a cabeça do fémur que não tinha aguentado o seu excesso de peso e inflamação crónicos, e discursava eu para a audiência sobre os malefícios da frutose e dos amidos e sobre o síndroma metabólico; o médico acabou por concluir com a frase fatal “épá, se vais mesmo averiguar cada alimento e o mal que te faz, acabas por não poder comer coisa nenhuma!”…

É este o perigo que nos espreita quando entramos num consultório médico: “será que este também já fez tábua rasa do seu conhecimento? Até que ponto posso confiar na consulta, no diagnóstico, e na terapia?” Os norte-americanos costumam resolver o assunto “à melhor de três”: pedem sempre uma segunda e terceira opinião por tudo e por nada. Talvez seja um bom conselho prático a seguir por aqui.

Tudo isto me faz pensar nas restantes profissões. E no sistema de ensino em geral. E no estado da ciência. Estamos tramados. Assim não vamos a lado nenhum. O caos e a entropia podem ser bons para o negócio, mas são péssimos para os indivíduos e para a sociedade a longo prazo.

Como é que a Sociedade da Informação, com todo o seu enorme mecanismo logístico instantâneo de distribuição e catalogação de informação se tornou tão ineficaz?… por causa do ruído. Há muito mais ruído do que informação disponível. Toda a gente quer ter um pouco da luz da ribalta. As refeições de muita gente dependem disso mesmo.

Ora, como qualquer pessoa sensata e experiente sabe, à primeira vez que fazemos algo (mesmo depois de sermos instruídos no assunto) cometemos erros. É preciso prática para acertar na resposta correcta. E quase todos os dias fazemos coisas pela primeira vez (sejam grandes e importantes ou pequenas e insignificantes). Daqui vem que a probabilidade de sucesso nas coisas que fazemos é naturalmente baixa: falhamos muito, e isso é normal. É o custo de se ter um cérebro neuronal: é preciso repetir a operação até dominar a coisa; identificar todas as variáveis significativas, eliminar as variáveis redundantes, afinar o processo. Isto leva tempo, e requer dedicação.

O problema está nas expectativas: cada vez se exige mais dos resultados, sejam os nossos ou os dos outros. E estas exigências podem mesmo tomar contornos críticos, como sejam as hipotecas ou as penas criminais. Há muitas ocasiões em que o fracasso “não é opção”. Daqui se deduz que o sistema económico e legal competitivo em que vivemos promove indirectamente mas com muita força a incompetência crónica e a corrupção. As pessoas acabam por disfarçar os seus fracassos como sucessos para poderem sobreviver e progredir (vejam-se os currículos de pessoas e empresas, por exemplo), e habituam-se a fazê-lo regularmente pois não há grandes alternativas. Ninguém consegue acertar sempre. E muito poucas pessoas conseguem estar certas a maior parte do tempo.

Como nos orientarmos então? Como nos protegermos deste mundo de ruído perigoso?

Bom, para já, há que ter calma. Confirmar sempre as fontes de informação uma, duas, ou mais vezes antes de tomar decisões. E se não se chegar a consenso? Se só se encontrar ruído? Então há que usar o próprio discernimento. Identificar os pontos comuns e as diferenças. Muitas vezes há mais informação escondida nas diferenças do que nas semelhanças. Experimentar por si próprio. Averiguar os progressos. Validar o método com os resultados. E não contribuir para o ruído. Saber ficar calado é uma grande virtude.

A Natureza nunca mente. Pode induzir em erro através da sua complexidade, mas esse problema é nosso, não dela. ;) É uma questão de estar atento. E de querer aprender. E de persistência. Não é preciso fazer 100 experiências radicais sobre o próprio corpo para determinar o que é melhor para nós. Mas ajuda muito ter um pouco de paciência e dedicação quando é a nossa saúde e bem-estar que estão em jogo.

~ por Vasco Névoa em Agosto 20, 2011.

5 Respostas to “O sucesso do nosso fracasso”

  1. Excelente artigo. Parabéns!!!

  2. Impessoal, presunçoso, superficial, distorcido, ausência de argumentação válida, generalista.

    • É provável.
      Mas ainda assim, sentido.

    • Caro Luís:
      – “Impessoal, generalista”: sim, e é de propósito. É para pôr as pessoas a pensar na vida, e levar a reconsiderar atitudes em geral; não quero atacar ninguém, não sofro de prazer destrutivo.
      – “Presunçoso”: é uma palavra ambígua, gostava de saber exactamente o que isso quer dizer.
      – “Superficial”: não me parece. Tem links para aprofundar os assuntos principais.
      – “Distorcido”: talvez. A distorção é sempre um perigo real quando nos pomos a interpretar a realidade. É apenas a minha maneira de ver as coisas, e está aberta a debate objectivo.
      – “Ausência de argumentação válida”: em quê, especificamente? É um facto que os médicos em geral não sabem diagnosticar nem tratar Hipoglicémia Reactiva, e muito poucos sabem identificar e lidar com Síndroma Metabólico; É um facto que a produção científica vai de mal a pior (contradiz-se cada vez mais) por razões de corrupção directa e indirecta dos investigadores e das revistas; É um facto que os investigadores preferem lamber as botas ao “establishment” académico e industrial, fazendo estudos que podiam demolir completamente indústrias bem estabelecidas, mas escolhem escrever “abstracts” e conclusões que descartam as evidências do próprio estudo e apenas concluem que “se calhar é melhor ter cautela e seguir os conselhos das organizações de saúde”; É um facto que os jornalistas não têm o cuidado ético nem a capacidade técnica necessários para analisar esses artigos científicos e acabam por amplificar as partes sonantes, escondendo a ciência objectiva; É um facto que os profissionais de saúde apenas consultam a parte da literatura científica que é compatível com aquilo que já conhecem, e se sentem perdidos quando tentam compatibilizar campos antagónicos, o que leva normalmente ao efeito de “tabula rasa”.

      Vivemos num mundo muito perigoso para quem aceita o que lê/vê/ouve sem criticar.

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