História política da nutrição ocidental

2.500.000 A.C. – 10.000 A.C.

Nos cerca de 2,5 milhões de anos que decorreram desde a origem do Homem, nós vivemos em tribos de Caçadores-Recoletores. A nossa alimentação era simplesmente o que conseguíamos caçar/pescar e o que conseguíamos apanhar de ramos e raízes. O resultado: uma alimentação baseada em Proteína e Gordura, acompanhada de muita fibra vegetal de baixo teor calórico (mas muito importante dado o conteúdo vitamínico e mineral). Os Antropólogos acreditam que foi com esta alimentação que desenvolvemos a força, destreza, e inteligência que os nossos antepassados nos passaram, e o estudo das várias tribos que ainda hoje sobrevivem no mundo confirma isto.

10.000 A.C – 1844 D.C.

O Homem inventa a Agricultura. Primeiro aprendeu a guardar as sementes das plantas para transportar consigo e plantar ou comer onde e quando precisasse; depois desenvolveu todo um conjunto de métodos de melhoramento das espécies vegetais, com resultados fantásticos nas frentes da produtividade e da intensificação do teor calórico. Invariavelmente, os vegetais e tubérculos pouco doces tornaram-se muito doces ao longo das cerca de 600 gerações humanas que os manipularam. As farinhas vieram livrar o Homem do jugo da caça e recolha constantes. Em paralelo desenvolveu a domesticação dos animais que comia, que também passaram a beneficiar dos frutos agrícolas. Vão aparecendo os primeiros Obesos. Algumas tribos tornam-se parcialmente vegetarianas, outras totalmente vegetarianas. A incidência de Cancro é maior nas tribos totalmente vegetarianas. As vantagens logísticas da Agricultura sobre a Recoleção são extremamente cómodas, e torna-se a base da alimentação do Homem. Desta nova Liberdade nascem as cidades, a tecnologia e a arte avançadas, e a cultura complexa que se tornou tão típica do Homem.

1844 – 1944

Toda a gente está de acordo. Cientistas, Clínicos, Médicos, Nutricionistas, Jornalistas, Autoridades da Saúde, Donas de casa, Burgueses obesos – todos sabem que a fonte problemática da Obesidade e da Diabetes são os Hidratos de Carbono, vulgo “Farinhas, Amidos, e Açúcares”. A Revolução Industrial ajudou ao problema, tornando estes produtos alimentares abundantes, baratos, e universalmente disponíveis. Naturalmente há detratores, como em todas as épocas e tudo o resto na vida; mas é “senso comum” entre a população e as autoridades que estes alimentos engordam e trazem problemas de saúde a longo prazo. A prática confirma a teoria vezes sem conta, com grandes senhores e senhoras gordas a perder rotineiramente mais de 20kg de “banha” sem qualquer esforço e sem passar a mais pequena fome, uma vez substituídos os Hidratos de Carbono por Proteínas, Gorduras, e Vegetais verdes, todos em quantidades livres, e a manter o seu peso ideal sem problemas. Reis, Burgueses, e Industriais documentam estes efeitos da alimentação sobre o corpo em registos que ainda hoje podemos consultar.

Inversamente, as tribos e populações indígenas que agora se veem em contacto forçado com o “homem branco”, e que até àquela data se tinham mantido inabalavelmente magras e saudáveis, veem-se agora a braços com a Obesidade e Diabetes por causa da adoção das Farinhas e Açúcar. Infelizmente, uma vez que o “homem branco” tinha ocupado grande parte dos territórios e portanto dos recursos naturais de caça e pesca destes povos, eles nada puderam fazer além de engordar e adoecer enquanto os estudiosos brancos visitavam as suas tribos e documentavam a transformação.

1944 – 1950

Adolf  Hitler é derrotado, para grande alívio da população Ocidental; Os Norte-Americanos armam-se do seu mais intenso puritanismo para fazer frente ao “monstro” que deu origem ao “holocausto”, e rejeitam em bloco toda a literatura científica dos países Nazis sob pretexto dessa ciência estar adulterada para servir os propósitos da “Raça Ariana”. Se por um lado estão cobertos de razão em relação à grande maioria dos estudos conduzidos e publicados nos anos que antecederam e acompanharam a Segunda Grande Guerra (durante o “reinado” de Hitler), por outro lado esse “tabu” deita fora também todo o edifício científico construído honestamente pelos Alemães e Austríacos durante os dois séculos anteriores: ciência válida e preciosa compilada pelos mais competentes Cientistas e Clínicos ao nível mundial nesses tempos. Assim, os avanços no conhecimento do Metabolismo, Endocrinologia, Envelhecimento, Cancro, e Nutrição em geral são cegamente descartados pelo mundo Ocidental, nessa altura liderado por uma América do Norte que sai praticamente ilesa da guerra (comparada com o resto do Ocidente).

Uma outra consequência desse final de guerra também está relacionada com a nutrição de uma forma incontornável: a capacidade industrial instalada nos EUA tinha crescido exponencialmente durante os anos da guerra, de uma forma totalmente impossível de fazer em tempo de paz. Os Norte-Americanos têm agora o “problema” de ter fábricas e mão-de-obra treinada e organizada para tudo produzirem em larga escala (não só tanques, carros, tratores, e aviões, mas também Trigo, Milho, e Leite), e ninguém para comprar os seus produtos. Vai daí os grandes pensadores sócio-económicos da época inventaram e desenharam aquilo que hoje se conhece como “Consumismo”: eles tinham de convencer as pessoas a comprar continuamente, mesmo que não precisassem. Assim nasceu então a “Pirâmide Alimentar” para ser ensinada nas escolas, que inclui o “Leite e Derivados” e os “Cereais e Derivados” como fatia maior de uma alimentação Humana supostamente correta.

1950 – 1990

Verifica-se um crescimento exponencial da Obesidade, Diabetes, doenças Cardio-Vasculares e Cancro nos países Ocidentais, com especial incidência nos EUA. Ignorantes dos velhos conhecimentos dos dois séculos anteriores, os “especialistas” e as autoridades de Saúde põem a culpa no Sedentarismo e na Gula generalizada. Rotulam-se os obesos de “mentalmente fracos” e a Obesidade torna-se um problema a resolver em consultórios psiquiátricos e ginásios. Nasce o culto do exercício físico e das dietas de restrição calórica total, e apesar de muitos estudos clínicos e científicos serem feitos para confirmar esse modelo de pensamento (“para emagrecer é preciso comer menos e fazer mais exercício”), a hipótese nunca se confirma. Pelo contrário, existem fortes indícios práticos de que a quantidade total de comida ingerida e o dispêndio total de energia têm pouca ou nenhuma influência sobre a distribuição permanente de gordura em pessoas obesas (e saudáveis também). Os “especialistas”, mesmo quando autores desses mesmos estudos, escolhem ignorar ou perverter os resultados, simplesmente porque não querem acreditar que se pode emagrecer comendo à vontade (os alimentos certos). As autoridades, essas, encontram-se numa encruzilhada perigosa, entre a Ciência que aponta numa direção e os “lobbies” industriais que as puxam noutra. Acabam por deixar andar a situação, graças a uma ignorância agora generalizada na população.

Os bebés passam a nascer notavelmente mais gordos de geração para geração, graças à exposição aos elevados níveis de glicémia das grávidas que provoca reação insulínica exagerada tanto nas mães como nos fetos. Pior ainda, estes bebés desenvolvem-se na vida adulta com muito maior propensão para Obesidade e Diabetes. Na frente cardíaca, gera-se uma crença enraizada de que o Colesterol é a causa dos problemas coronários e como tal deve ser evitado a todo o custo. Os factos cientificamente comprovados que o colesterol é uma parte absolutamente crítica da alimentação por razões de reconstrução celular, e que o LDL (colesterol “mau”) apenas se agarra às paredes das artérias por ação “oxidante” dos Glícidos em excesso, são simplesmente ignorados. A classe médica não está disposta a abandonar o que aprendeu na escola, e é apenas mais uma vítima da campanha de desinformação comercial da indústria alimentar.

No meio da confusão, dúvida, e medo reinantes na população e na classe médica, as empresas aproveitam para forçar as linhas limite da credibilidade sempre um pouco mais além; campanhas de marketing bem construídas e estudos pseudo-científicos encomendados garantem que a demonização da Gordura e a santificação dos Hidratos de Carbono mantêm as passadeiras rolantes a funcionar tanto nas fábricas como nos ginásios. Insiste-se em separar os Hidratos de Carbono em “bons” (açúcares complexos / fibras) e “maus” (açucares rápidos), o que ajuda a diversificar o mercado alimentar e os sentimentos de culpa dos obesos, mas nada disto contribui para o fim dos problemas de saúde.

1990 – 2010

São introduzidos pelos Norte-Americanos os “Organismos Geneticamente Modificados” (OGM) no mercado nacional e internacional. A subsidiação intensa da indústria agrícola dos EUA garante que Trigo, Milho, Arroz e Soja (e os seus derivados, incluindo rações de animais) contendo potentes proteínas estranhas a estas espécies sejam espalhados um pouco por todo o mundo a preços imbatíveis. Entre as “inovações” destas sementes “engenheiradas” contam-se a produção espontânea de substâncias inseticidas e a resistência aos pesticidas mais tóxicos da história humana, que são agora aplicados livremente sobre os terrenos. Estudos científicos do consumo de OGMs em animais revelam uma grande tendência para problemas hormonais, esterilidade, e cancro, mas são ignorados ou escondidos por um sistema académico e político cada vez mais vendidos ao poder industrial. Cresce então o número de Alergias Alimentares Graves, Doenças Auto-Imunes, e Cancros também de uma forma exponencial, a somar ao já grave problema do “Síndrome Metabólico” (a coleção das doenças crónicas provocadas pelo abuso dos Hidratos de Carbono refinados). Alguns países (principalmente na Europa e Ásia) vedam ou condicionam a entrada de OGMs nas suas fronteiras, mas é extremamente difícil conter esta invasão invisível, principalmente no que toca a produtos derivados (muitas bebidas “refrigerantes” são adoçadas com “xarope de milho”, cuja probabilidade de ser oriunda de Milho OGM é elevada). As cadeias de transformação alimentar extremamente longas e complexas tornam praticamente impossível a identificação exata dos perigos que se escondem numa embalagem de supermercado.

Paralelamente, a prática das monoculturas extensivas tão intensamente desenvolvida e vulgarizada ao longo das décadas anteriores atinge o domínio total do mercado. A polinização natural das culturas por parte das abelhas deixa de ser possível, pois as flores maduras já só ocorrem durante algumas semanas em cada campo, e os campos são maiores do que o domínio natural das colmeias, o que resulta na ausência de comida para as abelhas. Desta forma, a polinização torna-se um negócio diretamente sustentado por camiões de carga que transportam centenas de milhares de colmeias entre culturas ao ritmo do desabrochar de cada cultura. A logística compensa a falta de visão e gera um novo modelo de negócio. Infelizmente, as abelhas “automobilizadas” recolhem agora pólen e néctar com todos os tipos de pesticidas fabricados pelo Homem no decorrer da época fértil e armazenam-nos nas colmeias para alimentar os filhos. Após a hibernação de inverno, a concentração tóxica é tão elevada que as abelhas já não voltam à base. O seu sistema nervoso está comprometido e vão morrer longe. Mais de metade das abelhas dos EUA são perdidas entre 2006 e 2008, tal como tinha acontecido em França nos anos 1994 a 1998. Alguns países apertam o cerco legal a alguns pesticidas, mas os fabricantes continuam a vender substâncias perigosas sem grande controlo. Os efeitos cruzados de 8 classes de pesticidas (com muitas dezenas de químicos ativos diferentes) ainda são desconhecidos sobre os humanos, mas estudos apontam para o aumento da ocorrência de Autismo e outros problemas crónicos. A Agricultura Biológica e Biodinâmica e a Permacultura ganham relevância por serem imunes aos problemas dos químicos nocivos e ganham expressão de mercado.

Dada a falta de saúde geral observada, há uma crescente consciência pública e académica de que algo está profundamente errado na nossa alimentação, mas na ausência de uma base de conhecimento sólida todos os alvos são válidos para achincalhar. Aproveitando a preocupação das pessoas, os velhos fantasmas da culpa sobre a Gula e a Preguiça continuam a ser matraqueados pelo marketing dos produtores de comida “light” e dos ginásios e das clínicas por ser bom para o negócio, e a população continua refém de uma pastelaria tão ubíqua e incontornável como as mesas e cadeiras, seja em estabelecimentos públicos ou nos seus ambientes de trabalho. Comer de forma saudável, como faziam os nossos antepassados, é agora impossível sem um grande esforço consciente, e pouco prático quando fora de casa. A piorar a situação, a comida promovida ativamente como saudável (“Light” e afins) também é ela mesma “engenheirada” até à exaustão de forma a retirar as calorias boas (a gordura) e inserir as más (os açúcares, em vários níveis de complexidade).

2010 – ?

Os contra-movimentos começam a ganhar tração, e a pouco e pouco saem livros, artigos, e documentários que explicam esta cegueira voluntária das classes médica e nutricionista e das autoridades de saúde e recuperam a velha sabedoria através da Ciência que não mais se pode ocultar. A resistência é feroz, dado o enraizamento dos “lobbies” industriais tanto no poder político como económico como académico e médico. Os “mass media” pioram a situação pois têm o hábito de amplificar, polarizar, radicalizar, e distorcer quaisquer resultados preliminares ou finais de estudos clínicos e científicos, em busca do sensacionalismo que lhes dá quota de mercado.  Há demasiado ruído misturado com a informação, incluindo uma Internet carregada de má ciência, más intenções comerciais, e muita ignorância gratuita. “Blogs” revoltam-se e falam alto para quem os quiser ouvir, grupos civis nascem espontaneamente para defender o bom-senso alimentar, e a pouco e pouco vai-se alimentando também a recuperação das noções científicas esquecidas.

Para mais informações:




Nota: obviamente, este artigo trata-se de uma destilação mental feita por mim (um curioso, não especialista) a partir de várias fontes, e como tal não pode ser considerada de valor científico rigoroso. Posto isto, é também claro que me esforcei por ser o mais correto possível (até já adotei a porcaria da nova ortografia e tudo!!).

Enjoy! :)

~ por Vasco Névoa em Junho 22, 2011.

6 Respostas to “História política da nutrição ocidental”

  1. Obrigada pela tua síntese Vasco! E vem mesmo a calhar porque tenho uma paciente que ainda ontem me dizia “não perco peso com dietas, nem tente! Já consultei vários nutricionistas e sinceramente acho tudo isso uma treta!”.
    Felizmente as pessoas estão cada vez mais informadas acerca destes assuntos e podemos investigar a verdade mais livremente. Porque há uns tempos não conseguia convencer ninguém a não comer iogurtes “ligth” ou a não comer pão ou leite ao pequeno almoço… Era uma batalha! “Mas o médico diz que eu tenho osteoporose…”
    Enfim, estou contigo nesta busca para não chegarmos aos 50 anos e descobrirmos que afinal andámos a fazer tudo ao contrário…

  2. É… é duro quando estamos na minoria… :)
    Por acaso essa questão do cálcio é algo que me escapou, tenho de voltar ao estudo para ver como se relaciona com isto.
    Estou a preparar um novo artigo com um plano de dieta propriamente dito, uma coisa mais prática para se usar (na verdade, estou a traduzir o apêndice do livro) ;)

  3. Excelente trabalho, Vasco. Já agora aconselharia dar uma vista de olhos pelo FAT-NEW-WORLD (http://www.fat-new-world.com).
    Aguardando o próximo artigo, saudações

    António

  4. Acrescentei o parágrafo sobre os pesticidas e o colapso das abelhas na secção 1990-2010. Está a ficar grande demais, este texto, mas é por uma boa causa.

  5. excelente síntese. esperemos que os lobbies das diferentes indústrias envolvidas não te calem :) abraço

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