Lista branca

Numa altura em que o negativismo impera, resolvi criar uma “Lista Branca”. Toda a gente sabe o que é uma “Lista Negra”, não é? É uma lista de entidades “proibidas”, seja por quaisquer razões. Pois bem, uma “Lista Branca” é o contrário: uma lista de entidades recomendadas pelo seu valor.

Inicio a minha Lista Branca com a “Central Diesel”, um centro de serviços automóveis localizado em Massamá. É especializado em motores Diesel, mas também fazem o jeitinho a gasolinas como o meu. Nunca teria ido lá parar por mim próprio se o carro não tivesse pifado à saída da IC19. E dali não saiu mais pelas próprias rodas, teve mesmo de ser rebocado. Confrontado com a pergunta do homem do reboque “E para onde é que vai agora?”, respondi com outra pergunta: “Para onde é que aconselha?”. É que a minha experiência com as oficinas de Lisboa, sejam as “de marca” ou outras, tem variado entre o mau e o péssimo. Portanto, nada tinha a perder em baralhar e voltar a dar. E desta vez parecia sério, por isso tinha de ter cuidado. Afinal, a velha senhora já tem 13 anos de serviço diário no pára-arranca, está cansada, é natural que precise de alguns transplantes…

Vai daí fomos descarregados à porta da oficina, que é enorme por qualquer standard de comparação. Isto para mim costuma levantar logo a pulga atrás da orelha, pois casas com muito movimento não costumam dar atenção às pessoas. No entanto o recepcionista Sr. Carlos é de uma simplicidade e amabilidade sem par na minha história automóvel.  Não fiquei propriamente contente com ele a informar-me que só iria poder pegar no carro uma semana depois, o que indicava que eu iria andar à boleia durante duas semanas. Mostrei-me desanimado e ele mostrou-me a agenda de marcações: não havia dúvida que eles estavam solidamente comprometidos. Aliás, bastava olhar à volta: carros e camiões por todo o lado, eficientemente arrumados num baralho de cartas denso e estrategicamente colocado. Durante a nossa conversa tive a oportunidade de observar os laboratórios por trás da recepção: bombas, turbos, motores, tudo ali é desmontado, restaurado, e afinado como se faz na fábrica. Bom sinal, pensei eu, parece ter técnicos como deve ser.

Foi aí que começou a diferença: o chefe de oficina, Sr. Zé, aproximou-se e disse “Ora vamos lá ver o que se passa, dá-me aí o instrumento. Depois logo se vê como é. Se for qualquer coisa simples, a gente desenrasca já”. Fomos até ao carro, que nem sequer tinha lugar para entrar e estava meio na rua, e ligou o computador de diagnóstico. É normalmente neste momento que as oficinas pedem aos donos para se irem embora, oferecem um cafezinho enquanto esperamos, ou qualquer coisa assim. O Sr. Zé ali ficou comigo a espreitar por cima do ombro, e tal como um bom médico ia perguntando sobre os sintomas e correlacionando com as dores que a centralina do carro se queixava. Sem uma única ferramenta para além do diagnóstico electrónico e sintomático, formulámos em conjunto a teoria de que a gasosa não estava a chegar ao motor. Fizemos depois o “teste do algodão”: ele desligou o tubo de combustível do motor enquanto eu dava à chave e confirmou-se: depósito meio cheio, nada de gasolina ao motor. O mistério adensa-se.

Para mim isto já foi um mundo inteiro de diferença: nunca uma oficina auto de grandes dimensões me tinha permitido colaborar no processo de diagnóstico de uma falha. O que para mim é crucial, pois este é o meu carro, e eu dependo dele como um capitão de navio dependeria da sua nave. Preciso de saber exactamente o que se passa em cada momento, senão não sou capaz de prever as avarias antes delas acontecerem (como tinha acontecido). Principalmente porque é quando se mexe no sistema, fazendo reparações e substituições, que há maior probabilidade de criar novos problemas.

Decidiu então levantá-lo no elevador, para podermos ver o depósito de combustível e tubagens. Toca a gerir o parque dos estacionados, a maior parte deles apenas “empurráveis” em meio de obra grande, para arranjar um elevador livre para o cliente que ainda nem sequer se tinha registado. Que seca estes carros modernos, só plásticos a atrapalhar a gente. Está tudo tapadinho para ficar bonito, e por dentro o material falha sem se ver. Por momentos tenho saudades do meu primeiro carro, um Mini de 1966 em tudo estava à vista e à mão. Lá tiraram as tampas e vimos o depósito de combustível todo “babado”. Ok, isso explica o ocasional cheiro a gasolina dentro do carro. Tá mesmo roto. Bom, a coisa é grave, vai ter de ficar.

Aqui já estava perfeitamente à vontade em deixar o meu “bebé” nas mãos destes senhores; a boa-disposição e profissionalismo evidentes fizeram-me sentir em casa. Aqui sabem como se trabalha, é evidente. Mais dois dedos de conversa e fiz o processo de registo, que foi bastante mais curto e simples do que o costumeiro “preencher de ficha” típico das oficinas que desejam estabelecer uma “relação com o cliente” (i.e. encher a caixa de correio com publicidade não desejada e chatear-nos com SMS de promoções). A seguir pus-me a andar no táxi que me chamaram.

Dois dias depois lá me comunicaram a triste notícia: o depósito estava mesmo roto, a fissura é grande, convém trocar. Aqui podia ter sido cínico e desconfiado, podia exigir que o soldassem em vez de trocar, mas resolvi confiar na experiência deles. É sempre um risco mandar reparar uma peça importante, não só não fica muito mais barato (é desmontada e enviada para um outro especialista qualquer, paga-se portes e arredondamentos de mão-de-obra, etc.) como ainda há o problema da “responsabilidade alheia” — passam a haver mais do que uma entidade com quem lidar, e em caso de problemas “a culpa não é minha” e passam a batata quente a outro. Ok, pronto, metam lá a “panela” de 500 euros. Bolas, isto dos carros é como ter uma amante, está-se sempre a desembolsar. Mas com a gasolina não convém arriscar. É nestas coisas que o barato pode sair mesmo muito caro.

Acabaram por realizar o trabalho ao longo da semana em que disseram que não havia tempo para mim. Ligaram-me pouco depois da data que tinha sido acordada para o início da obra a dizer que estava pronto. Lá fui eu à boleia outra vez para a oficina, e lá pedi para me mostrarem o material retirado para poder perceber o que raio se tinha passado. O Sr. Zé mais uma vez fez o obséquio, mostrando-me a fissura do depósito com dois palmos de comprimento e toda a tubagem trocada. Procurámos então uma razão para aquela fissura, pois não é natural aquilo aparecer por si só. E lá encontrámos uns vincos na chapa em sítios comprometedores, indícios de que o carro tinha “aterrado de barriga” em cima de qualquer coisa grande e dura, deformando o depósito. Tive uma vaga lembrança de um passeio alto num daqueles dias de stress ininterrupto, e chamei-me silenciosamente de estúpido. O carro olhava para mim indiferente, provavelmente a pensar “cá se fazem, cá se pagam.” Na minha vistoria ao carro fiquei positivamente impressionado: nunca os plásticos por baixo do carro tinham sido tão bem “abotoados”, estavam melhor fixos do que a própria marca o tinha feito nas revisões. Sem dúvida um trabalho feito com tempo e dedicação.

Aquilo que me tinha feito ficar parado no meio da IC19 e ido levar a minha filha à escola a pé foi um reles relé que fundiu. Uma peça barata que liga e desliga a bomba de gasolina, e que por acaso até considerei nos meus momentos de desespero como a possível fonte dos meus problemas. Mas não tinha mais nenhum ali, e de qualquer forma o cheiro ocasional a gasosa era razão para o levar à oficina, o que o meu horário apertado me tinha feito adiar continuamente. O que se conclui deste episódio é que eu danifiquei o depósito, que por sua vez tapou o respiradouro por onde entra o ar que compensa a gasolina que sai, criando um vácuo que meteu a bomba em esforço extra, que por sua vez aumentou a corrente eléctrica da bomba e fundiu o relé. E ainda bem, pois uma bomba eléctrica quente dentro de um depósito com gasolina e ar não é uma coisa boa. Viva a engenharia alemã. :)

Por me terem ouvido do princípio ao fim com total abertura, por terem sido absolutamente transparentes nas suas acções, e por terem levado em conta todas as evidências na procura incansável das origens do problema em vez de tratarem apenas os sintomas, estas pessoas ficam na minha Lista Branca. E ao meu carro devo um pedido de desculpas, pois ele já me tinha avisado duas vezes que isto podia acontecer, mas eu ignorei-o. O material tem sempre razão. :)

About these ads

~ por Vasco Névoa em Maio 5, 2011.

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

 
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 219 outros seguidores

%d bloggers like this: