Game Theory

A “Teoria de Jogos” é algo que se aprende em alguns cursos universitários, como por exemplo Gestão de Empresas, Ciências Políticas, e Biologia. É também um dos grandes paradoxos Humanos com os quais me deparo nesta fase da vida, principalmente quando observo a estupidez desta nossa sociedade Portuguesa.

Diz a Teoria que quando dois adversários inteligentes se encontram e apenas lhes são dadas duas opções (“Cooperar” ou “Trair”), é muito provável que se escolha “Trair” em vez de “Cooperar”. É claro que são os “prémios” respectivos que definem estas escolhas; o prémio de cooperar quando se é traído é o mais pequeno (ou mesmo negativo), a seguir vem o prémio da traição mútua, depois vem o prémio de cooperação mútua, e finalmente o mais elevado (o maior benefício) vem de trair quando o outro coopera. Daqui vem aparentemente a conclusão lógica que é preferível trair a maior parte das vezes, pois o pior que pode acontecer é cooperar e ser traído. Este cenário aplica-se na maior parte dos encontros na Natureza (incluindo as relações Humanas, quaisquer que sejam: amorosas, políticas, de negócios, etc. ).

Para clarificar a Teoria, temos o exemplo clássico do “Dilema do Prisioneiro”: dois criminosos são apanhados juntos, mas não existem provas suficientes para os incriminar do crime principal. Assim a Polícia separa-os e interroga-os individualmente, e propõe o mesmo acordo a cada um deles: se traírem o parceiro (contando toda a verdade sobre o crime)  sairão sem cumprir qualquer pena e o parceiro acarretará com a pesada pena total do crime (vários anos de prisão). Se decidirem não falar, sairão com uma condenação leve (talvez uns dias de prisão) relativa a qualquer outra coisa que a Polícia consegue provar sem a sua ajuda. Ora, aqui cada um deles tem uma escolha difícil porque não sabe o que o outro vai escolher. Se tiverem a certeza que ambos vão cooperar entre si, então ambos saem com uma pena leve e podem seguir em liberdade com uma sociedade frutuosa. Mas existe sempre a tentação de trair o parceiro para não ter de ir para a prisão um único dia. Aqui a questão adensa-se…. se um trai e o outro não, leva o “jackpot” e o outro está lixado. Mas se ambos traem, ambos apanham prisão (embora com alguma redução de pena por terem colaborado com a Polícia). Vai daí que o melhor é mesmo trair, a não ser que se confie totalmente no parceiro.

É assim que nós vivemos. Nós, os Portugueses. Traímo-nos constantemente. Vivemos com medo de ser traídos, desconfiamos de toda a gente, e por isso há sempre que trair primeiro, “não vá o diabo tecê-las”. “Como já sei que vou ser traído na primeira oportunidade, tenho de ser mais esperto e trair primeiro!”.

Durante mais de metade da minha vida tenho-me perguntado qual é a diferença entre “Esperteza” e “Inteligência”. Só quando me interessei na Sustentabilidade Total é que finalmente percebi: esperto é aquele que joga para ganhar hoje; inteligente é aquele que joga para ganhar amanhã. Isto porque os ganhos de amanhã são quase sempre mais elevados que os de hoje, pois provêm usualmente da colaboração.

É aqui que os alunos Portugueses de Ciências Políticas e Gestão de Empresas chumbam na cadeira de Teoria de Jogos: parece que nunca aprenderam mais do que o Dilema do Prisioneiro e não compreenderam que o mais importante só vem depois dessa introdução. É que os encontros repetem-se. É muito provável que dois adversários ou parceiros de jogo se encontrem várias vezes ao longo da vida. E também é muito provável que se lembrem do resultado do último “jogo” que disputaram entre si. Por isso, nenhum deles vai colaborar com alguém que o traiu, mas é bem capaz de colaborar com alguém que colaborou com ele. É aqui que os “espertos” dizem: “e então? se eu ganho mais por trair quando o outro colabora, vou continuar a trair!”. Pois é, mas só se consegue o ganho máximo (trair um colaborador) uma única vez! Depois disso toda a gente se fica pelo ganho mínimo da traição mútua. É a triste realidade em que vivemos. É o desperdício constante e continuado das oportunidades e dos recursos. A única forma de manter esse ganho máximo é procurar sempre novos adversários para trair (e isto corresponde exactamente à estratégia de alguns comerciais e empresários que por aí andam…)

Então qual é a alternativa? Como qualquer Biólogo sabe, a melhor estratégia de sobrevivência, aquela que traz mais benefícios para a soma dos indivíduos de uma população, é a estratégia “rancorosa”: Colaborar sempre que nos encontramos com um novo parceiro, e enquanto ele não nos trair, continuar essa colaboração; mas a partir do momento em que ele nos trai, nunca mais colaborar com ele. Esta estratégia foi testada em simulações computorizadas por vários estudiosos da Teoria de Jogos e da Evolução Darwinista, e saiu sempre vitoriosa a médio e longo prazo contra todas as estratégias “espertas” ou de curto prazo (e mesmo de outros tipos). E vitoriosa com um claro ganho sobre todas as outras. É mesmo uma estratégia que está impressa nos genes de quase todas as espécies animais, e só assim podia ser, visto que é a que maior probabilidade tem de sobrevivência a longo prazo na “pool” genética — ou seja, os traidores têm tendência a extinguir-se ou a reduzir os seus números drasticamente. Infelizmente, nós, seres Humanos, temos uma inteligência e uma cultura tais que nos permitem violar facilmente os nossos instintos primordiais.

Está aqui uma lição que os nossos Políticos e Administradores de empresas precisam de lembrar: A nossa sobrevivência e bem-estar no futuro a médio/longo prazo depende totalmente da colaboração mútua. E para o resto de nós, há outra lição: a nossa sobrevivência e bem-estar depende da identificação e do isolamento dos traidores da nossa sociedade. Nunca se deve encolher os ombros e dizer “Está tudo mal, o que se há-de fazer? é do sistema!! Não posso lutar contra o mundo sozinho!” Antes pelo contrário, a solução está em identificar as pessoas problemáticas, os traidores compulsivos, e isolá-los onde não possam fazer mais estragos.

“O sistema”, “a sociedade”, “o país”, “a economia”, “o povo”, são palavras abstractas que aglomeram tudo e como tal sem grande utilidade. Não servem para resolver problemas concretos. Não nos podemos esquecer que são as pessoas que provocam os acontecimentos, quer por acção directa ou por inacção conivente. Ou por incompetência. Ou por engano genuíno. São sempre pessoas específicas, em situações específicas, que causam consequências específicas. Não são partidos, nem clubes, nem empresas, nem governos. Ignorar isto e encolher os ombros é deixá-las continuar a trair-nos.

Se algo está mal, não deixem passar em branco. Se alguém vos trai, tornem isso visível. Acusem, denunciem, façam queixa, reclamem, exijam. Mas sejam sempre objectivos, específicos, e justos. Não reajam com base na emoção. Já há demasiado ruído a circular, principalmente nos media e na web.

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~ por Vasco Névoa em Abril 13, 2011.

7 Respostas to “Game Theory”

  1. Vasco,

    Gostei muito do teu texto. De facto a maior parte das empresas e das pessoas só pensa a curto prazo.

    Uma visão ética tb é estratégica pois normalmente está focada no longo prazo.

    A própria teoria dos jogos é levada mais longe, e quando se pratica nas escolas de negócios em modelos de jogos sucessivos, mesmo com distorções pelo meio, a cooperação deve vencer.

    Pena que por vezes, a natureza humana leva-nos a agir de forma contrária aos nossos melhores interesses.

    Vamos todos cooperar?

    • Obrigado. Mas atenção, não é a Natureza Humana que é a fonte do problema; é a Cultura específica desta nossa região!!! É a nossa mentalidade, resultado auto-reforçador da nossa História. Temos de mudar a nossa História recente, e isso faz-se pessoa a pessoa, dia a dia, situação a situação. Com objectividade.

  2. Muito bom artigo, parabéns.

  3. As massas de gente que gritam por um ideal não servem de nada se esse ideal não é posto em prática nas suas vidas. Por isso é que a mudança do comportamento humano é tão lenta; o simples facto de querer fazer a “coisa certa” (seja lá o que isso for..) não é suficiente para motivar uma acção ética. Por puro altruismo é raro alguém fazer um sacrificio. Isto porque não vemos a cooperação e a partilha como um ganho mas sim como algo que perdemos para o outro. Como o outro é um adversário e não um semelhante, é arriscado oferecer-lhe qualquer tipo de “vantagem”.
    A consciência desta ética, do reconhecer o que é justo ou certo (dentro dos nossos limites, sem entrar em filisofias) é muuuiiito lenta e o nosso tempo de está a esgotar-se.
    O que estás a dizer é que há uma forma mais eficaz de motivar essa “acção correcta”, ironicamente recorrendo ao mesmo egoimo que nos causou o problema.
    Se soubermos que cooperando teremos mais vantagens, faremos isso por interesse próprio… Somos mesmo retorcidos :) Curioso..
    Era óptimo chegar a esse ponto, o resultado absoluto seria concerteza melhor do que o que temos.
    Ainda assim me parece que é uma ética vazia, capitalista e sem amor..
    Podiamos evoluir para um real cuidado com o outro, fazer o correcto mesmo sem que daí venha nenhuma vantagem para nós (se é que isso é possivel), viver de forma correcta é tudo o que interessa.
    Ou estou a ser romântica?

    • Estás definitivamente a ser romântica Marta. Pelo menos do ponto de vista dos “espertos” e dos egoístas para quem eu escrevi este artigo! ;) E sim, é irónico mas é perfeitamente matemático: o egoísmo, quando acompanhado de inteligência e visão, resulta em altruísmo.

      A minha intenção era explicar aos “espertos” que nos lixam o futuro todos os dias (a nós e a eles!) que era mais benéfico para eles próprios serem mais colaboradores com o resto da população. Porque quando há uma grande quantidade de “traidores” como hoje em dia todos os esforços de cooperação saem gorados e lá caímos nós em crises de produtividade e corrupção… em vez de resolvermos problemas reais como por exemplo a escassez de alguns recursos, andamos para aqui a criar ainda mais escassez artificial e outras confusões só para obter vantagens temporárias. É um estado de coisas muito triste e um enorme desperdício do nosso verdadeiro potencial como espécie e como indivíduos.

      Mas não desanimes, Marta. Continua a ser romântica, que eu também! :) “O sonho comanda a vida!” Iremos sempre ter de aturar alguns parasitas (isso também é um ensinamento da Teoria de Jogos e do Evolucionismo) mas um número elevado de gente destrutiva leva à sua própria destruição. Por isso, de uma maneira ou de outra, a nossa sociedade está no caminho certo: seja por auto-destruição ou por “conversão” dos indivíduos, isto vai lá dar mais cedo ou mais tarde.

      Críticos para esta mudança são os “efeitos locais”: pequenas “bolsas” de resistência, quais Gauleses intrépidos resistindo aos Romanos descontrolados, que vivem segundo o seu próprio código moral e os seus próprios procedimentos apesar de tudo o resto. Estas pessoas, ao juntarem-se em Comunidades, criam núcleos de sobrevivência com grande tenacidade. Se as regras e relações dentro destas Comunidades forem realmente robustas em termos de ganhos mútuos através do altruísmo (e não é difícil serem), então tornam-se bastiões-exemplo, verdadeiros “casos de estudo” que ensinam ao mundo (e até aos “espertos”) como é que se gera o verdadeiro sucesso.

      No limite, estou a falar de projectos como Tamera em que até as relações Humanas mais íntimas têm de ser revistas e modificadas; mas não é preciso ir tão longe assim, penso que se podem obter os mesmos resultados práticos recorrendo a sistemas não tão “assustadores” mas ainda assim revolucionários, tal como a “Factor E Farm”, a “Transition Network”, e as várias redes de Permacultura, por exemplo.

      Penso que haverá sempre uma maioria descontente à procura de felicidade, uma minoria brava que mostra caminhos que até lá levam, e outra minoria parasita que de tudo e todos se aproveita no imediatismo absoluto. Esta é a realidade evolucionária inevitável.

      A questão prática é sempre: para que lado pende essa maioria descontente? Que fileiras vão eles tentar engrossar? A dos espertos ou a dos inteligentes? A resposta hoje em dia não é clara; à primeira vista parece que toda a gente anda a “tentar sacar” o máximo, e de facto isto é compatível com uma população de grande ignorância e “iliteracia” (as pessoas sabem ler e escrever, mas não sabem interpretar nem raciocinar). Mas a realidade é que as grandes crises (e as guerras) trazem o melhor que nós temos à superfície: essa maioria apercebe-se que não irá sobreviver se não colaborar de forma real. A “Cultura” vigente ou “Zeitgeist” destrói-se e cai, deixando-nos voltar à nossa Natureza de predadores colaborativos. Acho que o “apertar do cinto” que se avizinha irá trazer mais “bem” do que “mal”, por muito que nos doa. E espero que doa muito, senão lá caímos outra vez na tentação… ;)

  4. :)

    Vive la gaule!!!

  5. Queria te convidar para o letsevo.com, nós estamos craindo uma bike eletrica open source e acho que poderiamos colaborar muito…um abraço, Henrique

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