Quatro meses de Openmoko

Já lá vão quase 4 meses que uso o meu Openmoko Freerunner (Neo para os amigos) como telefone diário e PDA.

Finalmente se pode dizer que o Openmoko é um telefone minimamente utilizável no dia-a-dia. Aqui está uma foto do meu a fazer companhia ao Eee-pc e a fornecer-lhe acesso Internet GPRS via USB.

freerunning-with-eeease

O segredo está em usar a última imagem OM2008.9, mantê-la actualizada com o ramo “testing“, e aplicar uma mão-cheia de pequenas correcções pessoais. (Nota: entretanto já saíu a OM2008.12, que tem tudo o que havia de bom até agora no ramo “testing”.)

Que balanço faço?… …muito mau, e ao mesmo tempo, muito bom.

O percurso de alguém que entra nesta comunidade é obrigatoriamente pedregoso: o telefone “até funciona” ao sair da caixa, mas cedo se percebe as enormes limitações de um conjunto de software “colado com cuspo” e as fragilidades de um hardware “empurrado à pressa” para fora da porta da fábrica.

Até aqui nada de novo, os meus PDAs anteriores (Palm e PocketPC) também sofreram de problemas semelhantes, embora não a esta escala gritante.

Hardware

O hardware GTA02 saiu de fábrica com falhas grandes, como por exemplo a instabilidade da ligação GSM para alguns utilizadores específicos, um eco intenso para quem nos telefona em algumas chamadas, um ruído de interferência GSM intolerável em algumas chamadas, e um desempenho degradado do GPS quando se usava um cartão μSD. E quem tentasse usar um cartão SIM 3G só com muita sorte conseguiria ligação.

No entanto, todos os defeitos têm solução, mais tarde ou mais cedo. Alguns resolvem-se depressa, outros levam muito tempo porque são particularmente difíceis de identificar (são intermitentes e diferentes de utilizador para utilizador).

O “workaround” de software para o problema do GPS foi distribuído com bastante rapidez, e um documento ilustrando a pequena correcção de hardware (que eu executei prontamente) foi publicado assim que possível. Tenho usado o GPS de 4Hz frequentemente, tanto nos passeios de BTT em Monsanto como em registos experimentais para o meu projecto do veículo híbrido – e não tenho qualquer queixa.

O problema do ruído de interferência GSM nas chamadas foi muito difícil de localizar, mas finalmente está em teste uma correcção simples de hardware que também apliquei (com a preciosa ajuda do P.Leal), e adeus ruído. :)

O problema dos SIMs 3G também já foi corrigido através de um upgrade de firmware do modem.

O problema do eco nas chamadas também foi resolvido com uma reconfiguração do modem.

A instabilidade da ligação GSM também já tem cura.

É esta a maior valia que um projecto destes me dá: os defeitos do produto que comprei, apesar de serem demasiados à partida, são resolvidos ao longo do tempo. A própria Openmoko dá garantia ao aparelho mesmo que tenha sido aberto e alterado pelo utilizador, o que é uma inovação sem precedentes no mercado. E melhor do que isso, dada a natureza “hacker” da comunidade que o suporta e utiliza, o dispositivo Openmoko vai sendo melhorado também noutras direcções, e não apenas em resolução de problemas. Como exemplo, veja-se o robot construído com um GTA02. A imaginação é o verdadeiro limite. :)

Software

O software então, é uma telenovela mexicana da pior qualidade: começaram por construir quase tudo “from scratch” e com requisitos muito elevados (OM2007), e quando lhes faltou o gás para concretizar os objectivos resolveram reutilizar um conjunto de aplicações “Qtopia” (que já era mauzinho de si), e esquartejaram-no para aproveitar apenas as funcionalidades básicas (OM2008). Acabámos por ter o enorme peso da estrutura Qtopia sem usufruir das suas vantagens (o nível de integração). A sequência de arranque demorava mais de 3 minutos, e a primeira chamada só podia ser feita após 4 minutos – isto se o processo do telefone não rebentasse por uma de várias razões. Atender uma chamada era um exercício de malabarismo, já que o tempo de resposta da aplicação era tão grande que muitas vezes desligávamos a chamada ao tentar atender. Ou então o telefone ainda tocava mais uma vez, alto e bom som, dentro do nosso ouvido.

Felizmente já nada disto é assim. Eles têm feito um percurso acidentado, mas agora parecem estar no bom caminho: formaram uma “task-force” de optimização e correcção, e daí resultou um sistema-base (usado na maior parte das distros) capaz de “bootar” em metade do tempo e com muito mais fiabilidade. Essa task-force já foi desbandada, mas a lição que a Comunidade lhes deu ficou: nunca se deve investir em “eye-candy” quando o kernel está “nas couves”!

No campo do software aquilo que não falta são opções. A falta de integração entre a empresa Openmoko.com e a comunidade Openmoko.org, a falta de transparência nas decisões, as alterações súbitas de rumo no desenvolvimento, a instabilidade do sistema-base, tudo isto causou uma insatisfação enorme entre os utilizadores e hackers. Daqui resultou uma explosão de distribuições Linux para os Neos: a megalómana (e abandonada) OM2007, a concorrente Qtopia, a oficial OM2008 e o seu update, a sua filha FDOM mantida pela comunidade com “tudo e mais um par de botas” que se conseguiu contribuir, a esperança FSO que implementa a infraestrutura móvel Linux para o futuro de todas as outras e que será a oficial OM2009, a pesada e (por enquanto) desajeitada Debian, a improvável Gentoo, a SHR que a comunidade criou a partir dum mix das da Openmoko, e a concorrente surpresa portada em tempo recorde, Google Android, que não tarda em tornar-se funcional (e já é vendida a hackers pela Koolu). E enquanto eu estava a escrever isto, apareceu mais uma: “Hackable:1“, que é uma fusão entre a Debian, a FSO, e a OM2007 – e tem a ambição de se tornar rapidamente na melhor distro, garantindo não só a funcionalidade no dia-a-dia como também a integração em soluções e produtos de negócio.

Portanto, já se contam nada menos que 10 distros a correr no Neo. Pessoalmente, preciso de um telefone funcional no dia-a-dia, e por isso uso a OM2008.9/testing; mas vou experimentar a Hackable:1 assim que possível, pois promete bastante. Num futuro próximo, todos os bons dispositivos móveis Linux irão utilizar a infraestrutura D-BUS desenvolvida na FSO, e a Hackable não é excepção. A opção Android é tentadora, mas estou a aguardar mais episódios dessa novela sobre “world domination”… ;)

Quanto a mim, esta explosão de distros é um bom sinal: quer dizer que a empresa Openmoko se está a cingir àquilo que deveria ter feito desde o início – vender e suportar (com kernel e drivers) um bom telefone Linux – e a deixar a Comunidade resolver o problema do espaço aplicacional.

Conclusão

Estou satisfeito. Isto com o tempo só melhora. ;)

~ por Vasco Névoa em Dezembro 18, 2008.

3 Respostas to “Quatro meses de Openmoko”

  1. uau. q pripecia.

  2. excelente artigo vasco. uma boa descrição do que tem sido o percurso deste projecto.

  3. Obrigado. Espero não ter sido injusto com ninguém. :)
    Já experimentei a Hackable:1, e apesar de ainda não me agradar ao ponto de trocar, tenho a dizer que é muito melhor em alguns aspectos que a OM2008. Todas as coisas boas da OM2007 foram recuperadas e melhoradas, como por exemplo os menus de controlo do Neo (power management, screen orientation, emissores/receptores GSM/GPS/GPRS/BT…), tudo mesmo à mão. Além disso, as consolas de terminal também estão mesmo à mão e com um teclado virtual decente.
    Está excelente, para uma primeira “Beta”. Keep your eye on it… ;)

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